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A organização das categorias foi desenvolvendo-se durante toda a construção do trabalho. Primeiramente, a partir dos dados, identificamos dois aspectos mais gerais, as ideias dos professores explicitamente ligadas ao estágio supervisionado, como sugestões para a realização do estágio, dificuldades enfrentadas como estagiário ou como professor que recebe os estagiários, lembranças de seus próprios estágios etc; e ideias mais gerais ligadas à educação. Esse segundo grupo tinha a intenção de nos ajudar a localizar melhor esses professores, suas concepções de educação e o contexto de sua formação e de seu trabalho.

Como nossa questão principal está relacionada com a identificação dos sentidos do estágio para o professor da escola básica, em um outro momento, partindo do referencial teórico, organizamos os dados a partir do conceito de atividade e a relação com os sentidos; as vivencias afetivas do sujeito, o momento atual e as relações que se estabelecem dentro do estágio e suas relações com as possibilidades de construção de sentidos dos sujeitos e as aproximações do sentido de estágio para os professores como desejo ou como valor ou como compreensão do mesmo.

Embora essas organizações tenham tido uma sequencia cronológica, elas iam se construindo a partir dos dados e dos estudos em um movimento que não era sequencial. A cada vez que olhávamos para os dados, nosso olhar vinha influenciado pelos textos estudados e, da mesma maneira, nossa leitura dos textos vinha influenciada pelas necessidades que os dados nos apontavam.

Neste capítulo, a partir das categorias selecionadas finalmente para destacar os aspectos que consideramos importantes discutir, apresentaremos os dados das entrevistas realizadas e a análise dos mesmos.

A atividade

Nosso foco principal de análise são os sentidos do estágio para o professor parceiro, o professor da escola básica que recebe os licenciandos. Observemos este excerto de Leontiev (2006, p.73) no qual ele questiona o sentido de determinada ação para uma criança:

Mas qual é o propósito reconhecido, isto é, que sentido tem essa ação para a criança? Para responder, precisamos saber de que a atividade da criança a ação faz parte ou, o que é a mesma coisa, qual o motivo da ação.

A pergunta de Leontiev: Que sentido tem essa ação? - é a pergunta inicial do presente trabalho: Que sentidos têm o estágio para o professor parceiro? Para respondermos essa pergunta, fundamentados em Leontiev (ibid.) precisamos saber de que atividade do professor parceiro essa ação faz parte, o que, segundo ele, é a mesma coisa que saber qual o motivo dessa ação.

Assim, na presente categoria, está posta, a partir de Leontiev, a relação entre atividade e sentido. Para conhecermos o sentido é preciso conhecermos a atividade.

A atividade é constituída ou, melhor dizendo, caracterizada pelas ações, operações, motivos e objetivos que a movem. Para discutir essa categoria precisamos nos aproximar das ações realizadas pelos professores, seus motivos, necessidades, além das condições de seu trabalho que também caracterizam o ato de receber estagiários que queremos analisar.

Considerando uma determinada atividade e ações que podem estar com ela relacionadas, o que caracteriza a existência dessa atividade é seu motivo estar em conexão com os objetos diretos dessas ações.

Que atividade queremos discutir aqui? A realização do estágio supervisionado e a recepção do aluno pelo professor parceiro como uma atividade dentro dessa atividade maior. Nesse sentido, a recepção do estagiário pelo professor e as ações que se processam nesse encontro - dentro e fora da sala de aula -, podem ou não estar relacionadas como o motivo do estágio, passando a constituir-se ou não ações dessa atividade.

Mas tomando o conceito de atividade e partindo não dele, mas da vida concreta que se dispõe para análise, o que temos inicialmente e concretamente para observar são ações, que se constituem ou não, que fazem parte ou não de uma ou mais atividades. Entretanto essa constatação é um segundo passo.

Considerando o estágio como um dos componentes práticos do processo de formação docente ou, se preferirmos, segundo Pimenta e Lima (2004), um componente teórico e prático, listemos quais foram as ações de cada um dos professores parceiros ao receber estagiários em sua sala de aula:

1) Professor Nilton

a) Coordenou o tempo de participação e entrada dos alunos em sala de aula

[...] já que, pelo menos um mês eles estão acompanhando a turma nunca acontece com menos de um mês, então eles já conhecem a turma, já dá para eles planejarem e eu

dou o tema, o ponto em que a gente vai estar naquele determinado momento, vezes eles pensam na intervenção a partir, mais em função das datas mesmo (Nilton,13)20. b) Deu um tema para a aula dos estagiários e localizou esse tema no

planejamento da sala

[...] e eu dou o tema [...] o ponto em que a gente vai estar naquele determinado momento (Nilton, 13).

c) Planejou a aula junto com os estagiários ou deu sugestões nesse planejamento

[...] então com base nisso a gente fala, nesse período a gente vai trabalhar tal tópico e ai os alunos planejam, muitas vezes eles planejam junto comigo, eles perguntam o que eu acho o que eu deixo de achar, a gente vai vendo junto [...] (Nilton, 13).

d) Corrigiu e sanou dúvidas dos estagiários

[...] e falo “Você disse isso, isso e isso, não é por ai, vamos conversar o que você entendeu aqui e você precisa retomar esse ponto, então no próximo encontro com os alunos você vai chegar e falar: olha pessoal lembra aquela coisa tal” [...] (Nilton, 14).

e) Observou “externamente” as aulas dadas pelos estagiários

[...] eu fico fora, fico mais como observador, evito fazer correções no momento em que eles falam [...] (Nilton, 14).

f) Auxiliou, como um suporte nas aulas

[...] mas eu os deixo muito a vontade para que eles pensem na dinâmica da aula e na própria condução, no momento da aula meu papel é mais no suporte (Nilton, 13).

g) Interferiu em situações consideradas problemáticas, apontando “erros” e sugerindo a retomada do assunto.

[...] mas eu depois chamo de canto se tem algum conceito que está errado ou alguma dificuldade em resolução de exercício alguma coisa assim, eu os chamo de lado e oriento para que eles refaçam com os alunos, tem sido mais tranquilo dessa forma. [...] Normalmente eu não faço a correção na hora, mas eu peço para que eles refaçam, se não der para ser na mesma aula, naquele encontro eu anoto [...] (Nilton, 14).

2) Professor Adalton

a) Propôs o que ele chamou de “uma aula dos sonhos”

Olha, façam uma aula como vocês gostariam que fosse. O material do GREF21 vocês

vão usar? Montem uma aula como vocês.... seria o sonho de vocês e é a oportunidade vocês. (Adalton, 4).

20 O número do lado do nome fictício do entrevistado refere-se à página da entrevista transcrita.

21 GREF – Grupo de Reorganização do Ensino de Física – Grupo de professores da rede estadual de ensino

b) Deu o tema para a aula

Eu dei o tema. O tema é “Tensão e corrente elétrica”. Vocês peguem o material do GREF e montem uma aula em cima desse tema. (Adalton, 4).

c) Conversou com os licenciandos após a aula, principalmente sobre a reação dos alunos da sala.

Adalton – Depois nós dialogamos em cima disso: “Você viu a reação?” M 22– Vocês tiveram oportunidade de conversar?

Adalton – Claro, depois daquilo conversamos. M – Em que horário?

Adalton – Nós tínhamos uma aula depois, uma janela. (Adalton, 6)

3) Professor Anderson

a) Caminhou com o estagiário pela escola toda para que conhecesse os outros espaços escolares além da sala de aula.

Porque o estagiário, quando eu recebo, eu caminho com ele pela escola toda, não é só na sala de aula. Ele vai até a sala de professores comigo, a gente fica lá, eu apresento os colegas pra ele. Ele percebe a discussão sobre vários assuntos que rolam lá na sala. Ele não é uma pessoa que só está na sala de aula comigo, com os estudantes e comigo, mas ele também participa de uma mini-vida ali, uma micro vida dentro da própria escola (Anderson, 1).

b) Apresentou os outros colegas professores da escola para o estagiário. c) Proporcionou que o estagiário visse um pouco do tipo de convívio que

acontece na sala dos professores.

d) Incentivou a participação do estagiário na aula passando-lhe a palavra.

Mas esse estagiário que trabalhava na Tim23, dava umas aulas de radiação

eletromagnética, onda e tal, [...] Então uma vez um aluno perguntou sobre o problema de recepção de rádio na região da Paulista, bem comum, ali lá perto da Augusta, uma estática violenta. E aí eu, tudo bem, eu sabia e tal “Não, tudo bem, a energia da onda”, mas aí o (estagiário)[...] “E aí, o que é que você diz?” Ele interveio: “Não, isso[...] energia da onda interfere, aí sobrepõe[...] Entra na frequência da outra e tal” [...] de uma forma ou de outra, eu procuro colocar o cara lá participando também (Anderson, 6).

4) Professora Rebeca

a) Controla os alunos da sala para que respeitem o estagiário

1984 e, além da formação continuada, de cursos e assessoria a professores de Física, foi elaborada uma coleção em três volumes publicados pela editora da Universidade de São Paulo. Esta coleção, que é dirigida aos professores, apresenta o conteúdo a partir de elementos vivenciais dos estudantes, contendo ainda sugestões de atividades e exercícios resolvidos. Está disponível na Internet. (Fonte: http://www.if.usp.br/gref/)

22 Fala da entrevistadora.

[...] agora os outros (estagiários que ainda não dão aula) tem que aprender a vencer esse medo e o estágio eu acho que é ótimo para isso. Ele vai lá aprender a se colocar, os alunos são respeitosos, senão eu dou um “crau” neles também. (Rebeca, 11).

b) Retoma, ainda que muito pouco, o que os alunos sentiram sobre a aula dada

(Sobre tempo para conversar com os estagiários) (Tenho) muito pouco, eu só pergunto como é que vocês estão, o que vocês sentiram? (Rebeca, 14).

c) Não dá temas para as aulas. Deixa que os alunos proponham o que quiserem.

(Sobre intervenções na aula) Alguns quiseram começar a falar de energia, um menino fez na minha sala (Rebeca, 12).

(Energia) Foi um tema que ele trouxe. (Não atrapalhou) porque é complemento, não tem problema, mais cedo ou mais tarde eu vou lidar com isso. [...] Tudo é aproveitável, se eu não for aprofundar agora, ou aprofundar daqui a dois meses, no começo do ano que vem, então eu acho que tudo isso é interessante (Rebeca, 12).

d) Faz junto com eles a apresentação das experiências para toda sala, porque inicialmente eles não querem enfrentar a sala toda na frente, só querem atuar nos pequenos grupos.

Pois é né, por exemplo, é de laboratório, ele está aprendendo a ser professor, então eu acho que o ajudar é ser [...] ele aprender ter confiança em dar aula, por isso que eu prefiro que não seja observação, mas não sou contra observação, porque ele também está vendo coisas que estão rolando lá que pode ser que eu não esteja percebendo, mas o que é legal é o seguinte, eles escolheram a experiência, eles estão lá, de inicio eles não querem falar com a turma, eles só querem explicar nos grupos, ai eu faço junto, depois eles começam a ser mais hábeis na própria apresentação para os vários grupos, depois eles começam a ser hábeis a expor as coisas na lá frente (Rebeca, 11).

5) Professor Raul

a) Escuta e respeita o desejo do estagiário em termos do que quer fazer na sala de aula.

[...] eu procuro escutar o que planeja fazer no estágio e eu respeito muito o que ele quer fazer (Raul,4).

b) Interfere na aula quando os estagiários estão perdendo o controle ou os alunos se dispersando.

[...] eu nunca os impedi de fazer nada, às vezes (interfiro) quando eles estão perdendo o controle, que o pessoal já está dispersando (Raul, 4).

Nos exemplos dados por Leontiev e outros autores sobre a atividade, partimos de uma determinada atividade para ver as ações que a constituem. Entretanto, no movimento da análise de ações e atividades em que essas constituições não estão dadas a priori, o movimento é inverso: olhamos primeiro para as ações para depois podermos ver de que atividade essas ações fazem (ou não fazem) parte. O que existe em termos concretos são as ações do sujeito. A atividade é um conceito teórico que de certa forma agrupa ações, permite a análise das mesmas através das relações entre seus motivos e não existe sem elas:

O determinar as ações de objetivo fixo na qualidade de componentes do conteúdo de atividades concretas, naturalmente, coloca a questão dos nexos internos que as relacionam. Como já indicado, a atividade não constitui um processo aditivo. As ações, propriamente, não são elementos especiais “separados”, que são incorporados à atividade. A atividade humana não pode existir de outra maneira que não em forma de ações ou grupos de ações. [...] Se tirarmos imaginariamente da atividade as ações que a conformam, da atividade não restaria nada (LEONTIEV, 1983, p.84).

Assim, coordenar tempos de participação; dar o tema para as aulas; planejar as aulas junto com os estagiários; corrigir e sanar dúvidas dos estagiários; mostrar outros espaços da escola além da sala de aula e todas as outras listadas acima são uma série de ações relacionadas ao estágio como efetiva formação, muito mais do que o estágio como o cumprimento de um requisito burocrático para a obtenção de um diploma. E, neste caso, o motivo proposto do estágio – atividade – está relacionado com os objetivos dessas ações. (LEONTIEV, 1978)

Adalton explicita o que podemos considerar objetivo, meta ou motivo do estágio supervisionado:

No meu ponto de vista, é exatamente para colocá-lo (o estagiário) ao pé da realidade, para tirá-lo um pouco só da teoria, para tirá-lo da sala de aula (da universidade). Porque de repente ele está tendo lá matérias, disciplinas que mostram pra ele um mundo que ele vai chegar aqui fora e vai levar um choque logo de cara. O estágio é importante a meu ver pra isso, pra ele já ir pesando, ir se medindo, será que é exatamente o que estou vendo lá? O que eu vi lá, estou vendo aqui na prática, está diferente e aí ele vai usar o que ele está aprendendo, trazendo para essa vida prática, que eu creio que como educador que ele procura ser, ele conseguirá maior êxito (Adalton, 1).

Essa ideia do estágio servindo para ver a prática é também defendida por Anderson e por Raul:

Então eu acho importante, eu recebo porque isso daí já vai dando um grau de amadurecimento profissional para ele, já vai sentindo o ambiente escolar em todos os sentidos (Anderson, 1).

Porque eu acho muito importante eles terem a noção do que é uma sala de aula de verdade, na faculdade a gente tem muito o que é na teoria, a gente aprende muitas práticas para estar com o aluno, para poder dar uma aula, preparar uma aula, mas quando a gente chega para dar aula, você deve saber bem, não é tudo que a gente pode aplicar, aliás quase nada, primeiro porque preciso preparar o ambiente para poder conseguir aplicar alguma coisa, para poder usar os conhecimentos que a gente tem [...] (Raul, 1).

Numa linha próxima de ver a prática, Ronaldo fala de um desconhecimento geral do licenciando sobre o curso, a profissão e o estágio sendo cumprido por obrigação:

No começo eles (licenciandos) não sabem o que fazer da vida [...] vem por obrigação (Ronaldo, 8).

Embora possa ser difícil reconhecermos nas falas dos professores o que pode ser considerado um motivo ou um objetivo, de qualquer maneira, quer seja o que nos move para alguma coisa ou essa alguma coisa que queremos alcançar é isso o que determina a possibilidade da existência de uma ação e de uma atividade. Uma possibilidade de diferenciação seria pensarmos que o motivo está relacionado com o passado ou com a causa de determinada ação. O objetivo com o futuro, com o alvo que queremos alcançar, com a meta de determinada ação. Observemos que no excerto acima Anderson aponta como dois grandes motivos para receber estagiários, amadurecer profissionalmente e sentir o ambiente escolar, entretanto esses itens seriam melhor caracterizados como objetivo do estágio em si, muito mais ligados ao licenciando do que aos objetivos ou motivos do professor parceiro.

Retomando Charlot (2000, p.55), esse autor faz uma diferenciação entre motivação e mobilização, colocando a mobilização mais relacionada com um movimento interno do sujeito para a consecução do objetivo ou meta e a motivação mais relacionada com movimentos externos ao sujeito também para a consecução dos objetivos. De qualquer forma, consideramos o motivo ou o móbil aquilo que impulsiona o sujeito a agir, a razão de agir e as metas ou objetivos os resultados que as ações do sujeito permitem alcançar. Assim, para Adalton, o motivo do estágio está relacionado como a formação do licenciando como educador e os objetivos do estágio para contribuir para essa formação com “êxito” estão relacionados com a possibilidade do licenciando entrar em contato com o cotidiano escolar e relacioná-lo com o que ele tem aprendido em seu curso na universidade, ou seja, seus motivos são ajudar a formar o futuro professor.

Anderson e Rebeca apontam outro motivo que os fazem receber estagiários em suas salas, a retribuição:

Da mesma forma que eu fui estagiário[...] é uma espécie de retribuição (Anderson, 1). Porque eu também fui estagiária, eles têm que fazer o estágio senão eles não se formam[...] Eu fui ajudada e também estou ajudando (Rebeca, 10).

No caso de Anderson, embora um de seus estágios tenha sido feito em sua própria sala de aula, entendemos que da mesma forma que ele pôde estagiar - quer como uma exigência para formação, quer efetivamente aprendendo sobre a docência nesse momento -, ele sente essa necessidade de também contribuir para a formação de outros.

Um grupo de estagiários que Rebeca recebeu veio de uma disciplina que tinha uma proposta um pouco diferente de estágio através do uso de materiais emprestados pela universidade e o desenvolvimento de experimentos. Sobre essa proposta e o empréstimo de materiais, Rebeca disse:

[...] o material (de laboratório da própria escola) foi se deteriorando, você não tem como repor [...] nós passamos por uma reforma e o pouco que tinha foi roubado[...] Eu não sei adequar uma questão de refugos, sabe, sobras pra fazer material. Eu não tenho mais um material mais oficial, entre aspas, então pegar eles (os estagiários) era uma oportunidade de também eles me ensinarem a fazer e eu ter onde pegar (Rebeca, 8).

Rebeca nesse caso revelou uma outra motivação. Como os estagiários traziam o material para experimentos e o material que um dia a escola já teve ou foi roubado ou deteriorou-se, ela viu nesse contato uma oportunidade de aprender a fazer novos materiais de laboratório e também usar os materiais disponibilizados pelos estagiários. Observemos que esse motivo tem como referência específica a própria professora e a possibilidade de utilizar esse material externo. A mesma professora em outro momento, vai dizer sobre esse estágio:

Para mim, foi muita vantagem, pessoal para mim, entendeu? Nesse sentido vantagem, pontuação, cargo, não vantagens econômicas [...], mas vantagem de aprendizado sim, porque justamente estava assim como eu falei. Eu sou de uma época que tínhamos os kits prontos e eu sabia trabalhar com aquele tipo de material, eu não sabia assim nem ter a ideia de fazer com sucata aquilo que eles fazem, tem coisas que são muito brilhantes (Rebeca, 14).

As vantagens que considerou terem sido obtidas confirmam sua motivação inicial e apontam também para algumas aprendizagens que conseguiu através do contato com os estagiários e os materiais que trouxeram.

Raul trouxe um motivo muito mais ligado a ele mesmo e sua constituição como professor. Raul disse que gosta de ver no estagiário o processo de desenvolvimento pelo qual ele mesmo passou:

(Porque receber estagiários) é legal observar eles começando, me faz lembrar quando eu comecei, isso marca para mim, "pô eu não estava louco, a culpa é do mundo, eu não estou no mundo errado, ou todo mundo está", e é legal ver como uma pessoa se desenvolve buscando um objetivo.

[...] E eu vejo como o trabalho deles desenvolve com a dificuldade que eles têm e eu penso no meu próprio trabalho, eu tinha essas dificuldades, como é que eu resolvi isso? (Raul, 5)

Não é maldade, eu gosto disso, eu gosto muito de ver o projeto sendo desenvolvido em qualquer parte, eu acho legal, acho bonito, com todo sofrimento que tem no começo. Como você vai superar isso, como você vai lidar? Gosto de criatividade, a pessoa quando está com um problema, tem que ser criativo (Raul, 7).

Observemos os aspectos da pessoa do professor aparecendo explicitamente também no seu trabalho como professor parceiro que recebe estagiários. Esse ponto poderia ter sido ressaltado também nas vivências afetivas do sujeito, porque olhar o percurso do seu desenvolvimento no outro é também um aspecto afetivo.