5 Resultater og drøfting
5.1 Samspillets betydning for elever med multifunksjonshemning innenfor skolens
5.1.1 Elevenes IOP, målsetting og utvikling
As narrativas de Ana Teresa Pereira estão pejadas de referências intertextuais que revelam a génese do universo de construção literária da autora. O mosaico de imagens15, personagens, espaços, topos e temáticas é complexo e pluridisciplinar, mas possui uma unidade identitária que o delimita na tradição sociocultural anglo-saxónica. São vários os escritores, pintores, realizadores nomeados pela autora funchalense, mas há uma panóplia de referência a artistas e suas obras que se sobressai e se evidencia, quer pela obsessão e frequência com que vem sendo utilizado, quer pela importância narrativo-imagética que as mesmas obras possuem no processo construção narrativa dos romances, contos e novelas de Ana Teresa Pereira.
Por isso, urge uma análise comparativa à obra da escritora madeirense a fim de percebermos qual o universo criativo que subjaz ao dela e, assim, melhor compreendermos os mecanismos de construção literária usados, bem como as temáticas recorrentes das suas narrativas. Esses mesmos mecanismos e temáticas complementam- se, existindo e articulando-se num só, são unitários na génese e na forma, e mesmo sob pontos de análise ideológica diferentes convergem e, por isso, requerem um aprofundamento e uma análise individuais, mas concomitantes.
Há dois temas fundamentais nas narrativas de Ana Teresa Pereira que demonstram uma unidade tenaz e sobre os quais propomos uma análise comparativa: o
15 Na presente dissertação daremos especial relevância ao estudo de imagens obsessivas das histórias do
universo literário pereiriano que, por sua vez, provêm de outros textos. Por isso, no âmbito da Teoria da Literatura, e como esta dissertação se insere também na esfera da Literatura Comparada, convém desde já definir o que entendemos por ―imagem‖; neste sentido, e sob o nosso ponto de vista, a melhor definição de imagem parece-nos ser aquela apontada por Álvaro Manuel Machado e Daniel-Henri Pageaux que em
Da literatura comparada à teoria da literatura referem: ―Repare-se, antes de mais, que toda e qualquer
imagem procede de uma tomada de consciência, por menor que ela seja; procede de um ‗Eu‘ em relação a um ‗algures‘. A imagem é, portanto, o resultado de uma distância significativa entre duas realidades culturais. Ou melhor: a imagem é a representação de uma realidade cultural estrangeira através do qual o indivíduo ou o grupo que a elaboraram (ou que a partilham ou que a propagam) revelam e traduzem o espaço ideológico no qual se situam. (…) a imagem é, até certo ponto, linguagem, linguagem sobre o Outro.‖ (Machado 58: 59).
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tema da identidade, inerente àquele do duplo, e o tema da solidão. Sob um ponto de vista formal, percorreremos esses dois temas através das duas categorias da narrativa que melhor os ilustram, o espaço e o narrador. Solidão e identidade estão interligados ideologicamente, existem indissociavelmente, dependem um do outro, a mesma dependência que se verifica entre espaço e o narrador. Estes últimos são, na nossa opinião, os veículos interpretativos ideais se quisermos perceber não só como esses temas são tratados na obra da autora, mas qual a origem e o alcance dos mesmos. São arquétipos que explicam e delimitam paradigmaticamente o tema da identidade e da solidão. Todos estes quatro tópicos podiam assim funcionar como um só. Deste modo, seleccionámos um primeiro ‗corpus‘ de análise, constituído apenas por obras de Ana Teresa Pereira, que representam bem a unidade temática, de que falámos, em toda a obra pereiriana: Matar a Imagem, primeiro romance que data de 1989, O rosto de Deus, livro constituído por um conto e uma novela publicado em 1999, Se nos encontrarmos de novo, obra publicada e premiada pela APE em 2004, e o livro O verão selvagem dos teus olhos (2008), último romance da autora. As primeiras três obras deste ‗corpus‘ representam todas elas inícios de fases literárias distintas na carreira da autora funchalense que, por sua vez, correspondem a momentos de evolução e aperfeiçoamento no que respeita ao tratamento dos temas da solidão e da identidade, sendo que O verão selvagem dos teus olhos justifica desde logo uma leitura, entre outras razões, por ser a obra mais recente da autora e tratamento último das temáticas supracitadas.
Por outro lado, foi seleccionado um segundo ‗corpus‘ de análise, aquele que constitui matéria comparativa, e que pode ser considerado como revelador das ‗fontes‘ de Ana Teresa Pereira. De igual modo processual, esta segunda selecção de obras e de autores que pressupomos constituir a matriz de referência da autora também não foi arbitrária. As citações e referências intertextuais, já se disse, são obsessivas e, num primeiro momento, esta selecção terá obedecido ao número de vezes em que estes autores e obras foram referidos. Por exemplo, Henry James, um dos autores sobre o qual propomos esta análise comparativa, é transversal a toda obra de Ana Teresa Pereira aparecendo referenciado, de forma directa, em quase todas as narrativas.16
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Em Matar a imagem (1989): ―Talvez por viver demasiado dentro dos livros, eram estes que a marcavam para sempre. Nunca esqueceria os passeios nocturnos de Auguste Dupin e o seu amigo pelas ruas de Paris. Ou o dia em que Bill Bones, o velho marinheiro de face queimada e marcada por um golpe de sabre, chegara à hospedaria do Almirante Benbow na Enseada do Monte Negro. Ou a inquietante atmosfera na antiga casa em Essex, o velho banco de pedra em frente do lago de águas agitadas em The
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Turn of the Screw‖ (Pereira 14); As personagens (1990): ―- Você acha que Henry James sabia
exactamente o que estava criando quando escreveu The Turn of the Screw?/ - Não sei./ Ele riu./ Não, não é uma coisa assim tão simples. Imagino que todos que lêem essa novela têm a sensação de já a ter lido antes. É talvez uma história que todos conhecem antes de a ler.‖ (Pereira 83-84); A última história
(1991): ―Patrícia planeara o crime como se escrevesse um livro./ Nem se esquecera de ter por perto os
elementos quase mágicos do seu universo: Vertigo de Hitchcock, The Turn of the Screw de Henry James, o Zaratrusta de Nietszche, e as Ficções de Borges. E, porque tinha tempo, muito tempo, estudara alguns contos de fadas, como o Notorious de Hitchcock e Dead Ringers de Cronenberg, que lhe deixava sempre uma sensação de bem-estar, de quase felicidade.‖ (Pereira 9); A casa de areia (1991): ―- Já ouviste falar de um escritor americano Henry James?/ David pensou por momentos./ - A minha mãe tem alguns livros dele em casa./ - Ele escreveu uma novela de que gosto muito: A vida privada. Nela há um escritor que na verdade é dois. / Não compreendo – murmurou Cristina./ É uma história fantástica. Uma fantasia. Esse escritor era dois, ou seja, havia dois duplos. Um deles ficava no quarto a escrever, enquanto o outro ficava cá fora, conversava com as pessoas, fazia parte da sociedade. Como se fossem duas metade de uma mesma pessoa, percebes?‖ (Pereira 71); A cidade fantasma (1993), no conto ―A noite dá-me um nome‖: ―- A casa de The Turn of the Screw... lembra-se?/ Claro que Tom se lembrava. Passara lá muitas noites agitadas, noites em que era feito da mesma matéria de Peter Quint e Miss Jessel e com eles espreitava pelas janelas, subia pela escada de caracol da torre, vagueava junto ao lago. Não sonhava com fantasmas, sonhava que era um fantasma e assombrava paredes, subterrâneos, torres, quadros.‖ (Pereira 23); Num lugar solitário (1996): ―Estavam sentados no cais./ Numa das escadas, nos últimos degraus./ Mesmo abaixo, a pedra estava coberta de lodo. A água subia de vez em quando…/ Dentro de algum tempo, o lugar onde se encontravam ficaria submerso.‖ (Pereira 119); A noite mais escura da alma (1997), no conto ―O Anjo Esquecido‖:/ ―Bly era um castelo saído de um conto de fadas…e no castelo havia um pequeno príncipe.‖ (Pereira 25); A coisa que eu sou (1997), no conto ―O retrato de Jennie‖ : ―A casa de
The Portrait of Jennie prenuncia vagamente Bly (a mansão negra onde se desenrolam os horríveis
acontecimentos, ou alucinações, de The Turn of the Screw). Há uma torre coberta de hera, um lago de águas escuras, imóveis, um solitário banco de pedra entre os lilases…‖ (Pereira 78); As rosas mortas
(1998): ―Ainda tenho os policiais do meu pai, os livros dos americanos (Henry James, William Faulkner,
Truman Capote, Carson Mc.Cullers, Flannery O‘Connor), os volumes de mitologia e os contos de Andersen e de Grimm.‖ (Pereira 27); O rosto de Deus (1999), no conto A rainha dos infernos: ―Comecei a ler Henry James, à procura do contacto com o sagrado, que segundo Yeats (e Tom) só reaparecera na literatura quando James principiara a escrever.‖ (Pereira 61); Se eu morrer antes de acordar (2000), no conto homónimo: ―Folheava o seu Henry James, uma ou outra frase, algumas linhas («And remember this, he continued, that if you have been hated you‘ve also been loved. Ah but, Isabel - adored»), mas não lhe apetecia ler os romances nem mesmo os contos.‖ (Pereira 156); Até que a morte nos separe (2000): ―Foi ao fim da tarde, quando estava no seu campo preferido, na gruta formada pelas trepadeiras, a ler uma novela de Henry James que trouxera da biblioteca (o quarto escuro, enfeitiçado, os inúmeros livros em que ninguém tocava há muito tempo, pareciam ter estado à sua espera), que viu Emily passar a alguma distância. ‖ (Pereira 70); O ponto de vista dos demónios (2002), no conto ―As montanhas e os rios‖: ―Mas há muitas escadas nos livros de James: em The Turn of the Screw, a preceptora sem nome desce as escadas de Bly e vê a mulher que é um fantasma e um reflexo dela mesma, sempre vestida de preto e sempre triste, sentada num degrau com o rosto escondido entre as mãos;‖ (Pereira 100); Intimações de morte (2002) : ―Ele falava de Henry James.‖ (Pereira 23); Se nos encontrarmos de novo (2004): ―Tomou dois comprimidos para dormir e fechou os olhos, mas não queria pensar, ele estava no andar de cima, um lanço de escadas a separá-los, numa dessas escadas havia fantasmas como nos de Bly, alguém lhe oferecera a novela de Henry James numa véspera de Natal, quando estava no colégio, e embora já tivesse onze ou doze anos sentira muito medo, as torres e as escadas, medo de torres e escadas... ‖ (Pereira 66); O sentido da neve (2005), no conto ―Os lilases‖: ―Na novela de Henry James havia um rio, duas casas, uma em cada margem, e uma pequena ponte que as personagens atravessavam ao longo de toda a história.‖ (Pereira 83); O mar de gelo (2005): ―Professor em Oxford, especialista em Henry James, autor de cinco livros.‖ (…) ―O ponto de vista de Henry James: no fundo, só conhecemos a personagem que está em primeiro plano, não conhecemos as outras, ou apenas de forma muito indirecta, como num espelho. Obscuramente, como num espelho. Não sabemos o que acontece de facto, porque a história só tem realidade na mente dessa personagem.‖ (Pereira 18); Quando atravessares o rio (2007): ―E Katie sorriu porque gostava da ideia: uma mulher misteriosa, como uma personagem de Henry James, caminhando num jardim, aproximando-se de um banco à beira-mar, ajoelhando em frente de um altar com velas acesas.‖ (Pereira 35)
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Contudo, ultrapassado este primeiro momento de incidência quantitativa dessas referências, a selecção obedeceu, sobretudo, a um padrão qualitativo e coerente de temas (identidade e a solidão) e de categorias narrativas (espaço e narrador, em concreto, a perspectiva narrativa) semelhantes e coexistentes nessas mesmas obras e que, do nosso ponto de vista, é indispensável para se perceber as bases do universo literário de Ana Teresa Pereira. São temas, espaços e narradores idênticos não só entre as próprias obras de referência intertextual, mas também definitivamente iguais àqueles da narrativa pereiriana. E este segundo corpus é essencial no seu uso e dimensão, pois inclui obras que têm funcionado como alicerces e exemplos de construção narrativa ao longo de toda a obra da escritora funchalense, de tal forma amplo que o próprio tem sido objecto de análise e de debate dentro do universo pereiriano. Além da presente selecção de obras ter tido como pressuposto teórico as referências intertextuais directas, isto é, todas aquelas que são nomeadas de forma espontânea e clara pela autora, também teve em consideração as referências intertextuais usadas indirectamente, como por exemplo, imagens de filmes ou de espaços reais que a autora transporta por vezes, de forma descritiva, para as suas narrativas sem nunca, contudo, assumir a sua denominação ou nomeação. Estas referências intertextuais indirectas talvez constituam um dos pontos de maior desafio da presente tese, face à maior dificuldade em demonstrar literalmente uma influência directa no discurso e na escrita da autora. Assim sendo, e para além de Henry James, em concreto a sua novela A volta no parafuso, fazem parte deste nosso segundo corpus de análise comparativa, das ‗fontes‘ de Ana Teresa Pereira, a escritora inglesa Daphne du Maurier, e respectivamente o romance Rebecca (1938), e ainda o realizador Joseph L. Mankiewicz com os filmes Bruscamente, no verão passado (1959) e O fantasma e a senhora Muir17 (1947). Apesar de existirem adaptações cinematográficas dos romances acima supracitados e de estas serem também referidas pela escritora, como Os inocentes (1961) de Jack Clayton e e Rebecca (1940) de Alfred Hitchcock, foram preteridas. Tal escolha ficou a dever-se não só à já referida selecção estatística, mas ainda a detalhes indicados pela autora que sendo presentes nas narrativas são ausentes nos filmes e vice-versa. Por exemplo, Ana Teresa Pereira nunca nomeou o nome da preceptora de A volta no parafuso, tal como acontece no original jamesiano, optando assim pelo anonimato da personagem,
17 No original The Ghost and Mrs. Muir. O filme na sua edição brasileira tem um denominação diferente
daquela original, intitulando-se O fantasma apaixonado. Por opções de coerência e de distinção narrativa e temática decidimos manter o título original do Inglês em Português, sendo que o antigo presidente da Cinemateca João Bénard da Costa referia-se ao filme sempre na sua edição original inglesa.
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enquanto em Os inocentes, cujo guião é da autoria de Truman Capote e R. A. Dick, a preceptora representada por Deborah Kerr tem o nome de Miss Giddens; por outro lado, no romance Rebecca, Happy Valley é, à semelhança do que acontece na narrativa pereiriana O verão selvagem dos teus olhos, um dos espaços fundamentais da história, local de transição que liga a mansão de Manderley ao chalé de Rebecca que se situa na praia, sendo que no filme de Hitchcock, embora visível e parte integrante do filme, nunca foi nomeado como tal. Além disso, e embora Hitchcock seja um dos autores frequentemente citados por Ana Teresa Pereira, a dedicatória inicial de O verão selvagem dos teus olhos – ―Para Daphne du Maurier” – revela que a verdadeira intenção da autora e fonte de escrita terá sido Rebecca. Esta selecção de autores e obras representa fielmente as influências da escritora madeirense, sendo que apenas o confronto pormenorizado com o nosso ‗corpus‘ teórico pereiriano permitirá uma justificação mais completa da presente selecção.