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4.3 Variabler – elevenes beskrivelser av bruk av bokstaver

4.3.2 Elevenes beskrivelser av bokstavene a og b

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A cassação, em outubro de 1969, foi um trauma, não só político, mas também financeiro e provocou mudanças na vida de Iris. Sem salário, ele lembrou-se do pai: não tinha meios para viver fora da política. Antes da cassação ele havia trocado a casa da Rua São Paulo por uma financiada, na Rua Pará. Vendeu essa casa, porque disse que não tinha mais salário para pagar as prestações, e alugou outra na Rua 91-C, no Setor Sul. Depois de 20 anos, Iris mudava-se de Campinas para “morar em Goiânia”, como os campineiros se referiam à região central da cidade. Lembra-se de que ficou sem nada e entendeu as preocupações de seu pai.

Em outubro de 1969, ele estava casado com Iris Araújo e era pai de Cristiano, com menos de três anos de idade (ele nasceu em 24 de dezembro de 1966), de Ana Paula, com um ano de idade (ela é de 12 outubro de 1968), e sua mulher estava grávida da caçula, Adriana, que nasceria sete meses depois da cassação, em maio de 1970. Iris levou um ano para começar a ganhar seu próprio dinheiro. Enquanto isso, sobreviveu da mesada do irmão, Orlando.

A primeira providência de Orlando, depois da cassação, foi organizar férias para o irmão e sua família. Arrumou a casa de um amigo no Rio de Janeiro, onde Iris passou 15 dias. Ele recorda-se de que em seguida, no seu aniversário, em 22 de dezembro de 1969, foi convidado por um grupo de comerciantes da Rua José Hermano, para uma festa na chácara de Odilon Soares, em Trindade. O grupo descobrira que o ex- prefeito andava de ônibus e resolveu dar-lhe um carro zero-quilômetro de presente. Era um Fusca verde. “Eu não sabia, quando cheguei lá tiraram o pano e me entregaram as chaves. Foi aquela choradeira.”202

Todo mês, Iris buscava a mesada no frigorífico. Um dia ele encontrou Orlando nervoso, reclamando que o irmão estava gastando muito. “Moço! Saí caladinho, desci, peguei o carro, parei uns três quarteirões depois, na Vila Bethel, chorei, chorei, chorei. Mas que coisa! Eu já complexado, vivendo as expensas dele, e não estava gastando nada. Acho que era o dia mesmo. Mas, passou.”203 Quando Iris chegou em casa, o envelope com o dinheiro já estava lá.

Bacharel em Direito há oito anos, mas sem nunca ter exercido a profissão, ele tinha de decidir o que fazer para sustentar sua família. Depois de vários convites,

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Entrevista em 4/7/2007.

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decidiu abrir um escritório de advocacia. Reuniu um grupo de advogados experientes: dois desembargadores aposentados, Everaldo de Souza e Hamilton Velasco, e um ex- colega de Assembléia Legislativa, o ex-deputado Nígel Guido Spencieri e fundaram o escritório Serviço Jurídico Associado. Ao grupo juntaram-se dois advogados recém- formados, Paulo César Barbosa de Lima e Charife Oscar Abrão. Os quatro sócios pagavam 5% das causas aos dois advogados e dividiam o restante do lucro entre eles.

Iris não optou pela área criminal por acaso. “Por que eu escolhi a advocacia criminal naquela época? Era para eu ter a oportunidade de falar ao povo nos júris. Eu era um político inveterado. Dez anos [de cassação]; eu vou voltar, como aconteceu.”204 À frente dos júris ele falaria ao povo, para manter acesa a memória dos eleitores durante os dez anos da cassação, mas em uma atividade legal.

Quando eu chegava no interior para fazer um júri, a cidade toda ia para a porta do Fórum. Em muitos locais eles colocavam alto-falante, para transmitir para o povo, para o povo não aglomerar dentro do Fórum. Mas eu sempre tive uma cautela: pegar uma defesa que eu podia colocar meu coração nela. Eu entendia que a pessoa teve a sua razão ali no ato, que nós chamamos de legítima defesa. É possível que eu tenha feito mais de cem júris, com uma condenação apenas.205

Como advogado, ele contava com a proteção da OAB no exercício da profissão e aproveitava as defesas nos tribunais de júri para criticar o governo. “No júri, eu tinha meu direito de falar assegurado e, nessa hora, nas teses que defendia eu tacava o sarrafo no governo.”206 Iris aproveitava para criticar o Estado, na figura de seu representantes no júri, o promotor de justiça:

[Eu] dizia agora vem o Estado, esse poder constituído para defender os interesses coletivos da sociedade, através do promotor, pedir a condenação do fulano. Esse Estado, esse governo que está aí não tem moral para pedir condenação de ninguém. [...] Então eu aproveitava e fazia oposição também.207

Nessa altura, Iris diz que já enxergava o outro lado de sua cassação. “Não foi de todo mal”, reconhece, pois ela lhe permitiu advogar e ganhar dinheiro, uma preocupação que sempre acompanhou seu pai, Filostro. O escritório lhe possibilitou ganhos fora do setor público. Nos cerca de dez anos em que manteve o escritório, Iris afirma que formou um patrimônio: comprou fazenda em Britânia, construiu sua casa na

204 Entrevista em 28/1/2008. 205 Entrevista em 4/7/2007. 206 Entrevista, ibidem. 207 Entrevista, ibidem.

Rua 38, no Setor Marista, adquiriu uma área (três lotes) de Mauro Borges, em uma entrada de quadra no Setor Capuava, que posteriormente vendeu para dar entrada no apartamento onde ele vive hoje, na Rua 1, no Setor Oeste.

A cassação me proporcionou: fazer o meu pé-de-meia. Quase 80% do que tenho hoje adquiri naquela época. Olha, o que minha cassação está significando: oportunidade para eu ganhar dinheiro. Quando está terminando a minha cassação, restitui-se o direito de eleição para governador.208

Iris acredita na ajuda divina de novo. Lembra que foi cassado quando se sentia pronto para disputar e vencer a eleição de 1970, só que em seguida a ditadura acabou com as eleições diretas para governador. Em 1979, quando venceu o período de sua cassação, começou o processo de abertura política que devolveria ao eleitor o direito de eleger o governador. E vai enumerando outras coincidências ou, como prefere, “uma engrenagem mecânica perfeita.” Em 1982, ele finalmente se candidata. Seu adversário, do PDS, representante da ditadura militar que se esvaía naquele momento, era Brasílio Caiado, candidato do então governador Ary Valadão. Otávio Lage estava em Goianésia cuidando de suas empresas.

Uma semana antes da convenção, Brasílio estava consagrado, Otávio vem para cá e se declara candidato; foi uma convenção que terminou lá pela meia-noite e o Otávio ganha do Brasílio. Ganhou do governador, que era Ary Valadão. Ganhou, para quê? Por quê? Para que o povo fizesse justiça com as suas próprias mãos contra aquele que me cassou. Não tem outra explicação.209

Iris explica tudo que ocorreu em sua vida “por este lado espiritual.”

O PMDB tinha três pré-candidatos a governador após a redemocratização: o senador Henrique Santillo, o ex-governador Mauro Borges, também vítima do arbítrio, e Iris, que despontou como o candidato natural. E não por graça divina, mas por sua popularidade, que ele alimentou quando estava cassado em “mais de cem júris” que realizou pelo Estado; pelo seu trabalho de reconstrução do MDB, que se transformou em PMDB, e no qual ele entrou de cabeça logo que expirou sua cassação, em outubro 1979, e, por fim, porque cassado no auge de sua popularidade, Iris virou símbolo das vítimas da ditadura. Sua candidatura despontou em 1982 como um processo natural de reparação de uma injustiça.

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Entrevista, ibidem.

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Ele conta que, nos dez anos em que ficou cassado, evitou fazer política, mas não se distanciou das lideranças partidárias. “Eu era muito visitado. Meu escritório, depois das cinco horas, era um burburinho de companheiros.”210 Aproveitou também o ostracismo político para se aproximar de Pedro Ludovico. “Fui uma das pessoas a privar até da intimidade do dr. Pedro nos últimos anos de sua vida. [...] Toda semana eu saía do escritório em uma tarde e ia na casa dele. Ficava lá uma, duas horas conversando. Normalmente na sexta-feira. Eu bebi muita experiência do dr. Pedro.”211

Iris se declarou candidato assim que venceu sua cassação, ainda em 79. Mauro e Santillo também anunciaram suas pretensões. Em 1981, ele desfez a sociedade no escritório de advocacia para se dedicar integralmente à política. A reconstrução do partido, segundo seu relato, lhe consumiu “dois anos de intenso trabalho.” Seu papel, nesse momento, era identificar as pessoas com potencial para ser candidato a prefeito e deputado estadual e federal pelo Estado afora. “O MDB no interior tinha acabado. Ficou desse tamanhinho [mostra o dedo indicador bem próximo do polegar].”212

Ele, então, começou a apurar, entre seus conhecidos, nomes de pessoas de destaque em cada município. Depois arrumava um pretexto para visitar a cidade, encontrar-se com a pessoa e convidá-la a ser candidato em 1982. Ele cita dois casos. Uma vez, pediu a seu colega de escritório, o advogado Paulo César Barbosa de Lima,213 a sugestão de um nome em Paraúna. Este se lembrou de Vicente Coelho, dono de cartório. Paulo César planejou um encontro, que a Vicente pareceu casual, durante uma pescaria na fazenda de um cliente do escritório de advocacia. Vicente aceitou o convite de Iris e se elegeu prefeito. O mesmo aconteceu em Iporá, onde Iris pediu a um amigo para arrumar um casamento para ele ser padrinho na cidade, oportunidade em que conheceu o médico José Antônio, que também aceitou ser candidato, se elegeu prefeito e, depois, deputado estadual.

Aí é que vem a liderança, você precisa ter olho clínico. Chegar em uma cidade e saber quem impõe respeitabilidade, credibilidade num projeto político. Muitas vezes você arranja um cara desclassificado, que não tem respeitabilidade de ninguém, um conquistador barato. Têm 210 Entrevista, ibidem. 211 Entrevista, ibidem. 212 Entrevista, ibidem. 213

O advogado Paulo Barbosa, informa Iris, morreu em um acidente de carro perto de Jandaia, ao voltar de sua fazenda em Jaraguá.

desses tipos todos. Então eu ia na mosca. E assim eu fui durante dois anos, três anos preparando artesanalmente a eleição de 1982.214

Iris lembra-se de que Mauro Borges aceitou bem sua candidatura a governador. Segundo ele, Mauro o procurou, disse-lhe que sentia que os companheiros de partido e o povo preferiam-no e que ele seria candidato a senador pela sublegenda. Na época, Lázaro Barbosa era senador e candidato nato à reeleição, mas a legislação permitia outra candidatura pela sublegenda. “Eu apoiei o Mauro. Ele saiu, como eu saí, enxotado do poder. O Lázaro tinha sido senador oito anos, era a vez do Mauro.”215

A relação com Henrique Santillo foi tumultuada. O senador não aceitou a candidatura de Iris, saiu do PMDB e filiou-se ao PT, com seu grupo que incluía Joaquim Roriz e o empresário Onofre Quinan. A aventura durou pouco tempo. Logo, o grupo voltou ao PMDB, Santillo articulou uma aliança com Iris e indicou Quinan para ser candidato a vice-governador. Iris admite que, nessa época, tinha uma relação muito mais próxima de Mauro do que de Santillo. Ele ainda nutria pelo filho de Pedro Ludovico o mesmo respeito e admiração da época em que ele fez um governo “inovador” em Goiás.

Com apoio dos dois, Iris realizou em 1982 seu projeto político, abortado em 1969, de se eleger governador de Goiás. Ele tomou posse em março de 1983, iniciando uma nova fase política em sua carreira: a de líder do grupo político que foi comandado por quase cinco décadas por Pedro Ludovico Teixeira. A eleição de 1982 consolidou essa liderança, que ele confirmaria no exercício do poder. Santillo e Mauro, que chegaram a ameaçar seu projeto na volta da redemocratização, não ficaram no PMDB. Mauro foi o primeiro a romper com Iris. A separação consumou-se em 1986, quando ele disputou e perdeu a eleição para governador para Henrique Santillo, o candidato apoiado por Iris. O rompimento com Santillo ocorreu três anos depois, em 1989. Iris tornou-se então o principal líder do PMDB, como Pedro Ludovico foi, no passado, do PSD. 214 Entrevista em 4/7/2007. 215 Entrevista, ibidem.

A grande aprendizagem: da herança modernizadora à