Enquanto este pessoal atuava no tratamento e processamento de imagem no I-100, outro grupo de engenheiros, da Divisão de Instrumentação e Sistemas, do Departamento de Meteorologia, do INPE, fazia desenvolvimentos para a recepção e visualização de imagens de satélites meteorológicos. Este grupo desenvolveu o sistema UAI – Unidade de Análise de Imagens – constituída de uma placa de hardware e software que permitia a visualização de imagens de satélites meteorológicos que mostravam a evolução de frentes frias sobre o continente sul-americano num monitor de tevê.
Nesta época, o INPE era a única instituição brasileira capaz de receber imagens de satélites meteorológicos. A possibilidade de visualizar tais cenas num monitor atraia o interesse de outras instituições de pesquisa e empresas, que visitavam o INPE para conferir tais imagens. No inicio das transmissões, as imagens meteorológicas levavam uma manhã inteira para chegar. Mas eram poucos os países no mundo que dominavam as tecnologias de tratamento e processamento de imagens de satélite, a perspectiva de evolução nesta área mostrava-se promissora.
A DPI foi formada, portanto, por estes dois grupos de engenheiros e técnicos que atuavam na área da ciência da computação, tanto na área de hardware como de software. Embora estivessem em setores distintos do INPE ambos estavam engajados em desenvolvimentos inovadores. Uma característica marcante destes dois grupos, como outros do INPE, era a formação a partir de escolas militares de engenharia de alto nível, como o ITA
e o IME. Um dos idealizadores da UAI, Paulo Camilli, seria o primeiro astronauta brasileiro, caso não tivesse ocorrido o acidente com o Challenger, em 1986, que alterou toda a programação dos ônibus espaciais. O acidente inviabilizou o vôo do pesquisador brasileiro e sua participar em uma missão espacial, com carga útil do INPE.
Outro aspecto muito forte destes dois grupos era a perspectiva de desenvolvimento endógeno e autônomo, ideal impregnado no modo destes engenheiros atuarem, que era também o modelo de P&D implementado pelo INPE desde a sua origem. Esta visão, associada aos ideais nacional-desenvolvimentistas e ao modelo de substituição de importação, tinha forte ascendência sobre a engenharia do INPE como um todo, onde se centrava o papel estratégico da instituição. Se num primeiro momento, seus engenheiros instalavam toda a infra-estrutura necessária para executar de forma operacional os serviços de recepção e processamento de imagens, aprendendo a instalar e utilizar os equipamentos importados, num segundo momento, procuravam desenvolver endogenamente as tecnologias dos equipamentos utilizados nas diversas etapas destes processos.
Este era o espírito empregado também no desenvolvimento da instrumentação utilizada em campanhas científicas para coleta de dados em outras áreas de pesquisa. O INPE procurava desenvolver de forma autônoma os equipamentos que iria operar em solo como também em vôo, para registro de dados em camadas mais altas da atmosfera, a bordo de sondas, balões estratosféricos ou ainda em foguetes, com o intuito de diminuir a dependência de firmas estrangeiras de engenharia. A pesquisadora Marlene Elias (2005), ex-chefe da Divisão de Instrumentação e Sistemas, do Departamento de Meteorologia, descreve o espírito da época da seguinte forma:
As razões para adotar a abordagem desenvolvimentista eram muitas: estávamos num centro dedicado que tinha por objetivo avançar na área espacial – portanto, quanto mais “know-how”, melhor; os satélites meteorológicos evoluíam e se diversificavam permanentemente e para deles usufruirmos era necessário, a cada série e tipo, modernizar e sofisticar todo o equipamento de recepção/processamento (do contrário, ficaríamos sempre na mão dos fabricantes estrangeiros); com o desenvolvimento da Estação [receptora de sinais] APT, o INPE já tinha plantado uma sementinha desenvolvimentista; embora mais penosa e demorada esta abordagem ensejaria a oportunidade de formar/aperfeiçoar engenheiros e técnicos para a área de satélites. Os jovens engenheiros se empolgavam com os desafios e muitos fizeram o mestrado em Eletrônica – essas pesquisas em geral tinham tudo a ver com os nossos projetos e seus frutos eram imediatamente incorporados aos sistemas que desenvolvíamos.
A mesma perspectiva estava embutida na compra e uso do Image-100. Além do objetivo imediato de aprender a utilizar o computador para o tratamento e processamento das imagens do satélite de sensoriamento remoto, os engenheiros da área de computação
procuravam acrescentar algoritmos que agregariam novas funcionalidades neste tipo de operação. O objetivo não era somente aprender a operar este equipamento, mas, através das aberturas que este dispositivo dispunha, desenvolver tecnologia própria, neste caso, aperfeiçoar o software de processamento e tratamento de imagens.
Em 1981, o INPE foi procurado pela Secretaria Especial de Informática (SEI), órgão regulador do governo federal na área de informática, que teria recebido um pedido de importação de um sistema para processamento de imagens de satélite desenvolvido pela IBM, chamado ERMAN-2. O equipamento seria instalado num dos centros da EMBRAPA. O custo era de US$ 600 mil, aproximadamente, e a SEI, com base nos dispositivos da Lei de Informática e responsável pelo controle da reserva de mercado na época, consultou o INPE para verificar a possibilidade de desenvolver um sistema semelhante, com base em tecnologia nacional e em um minicomputador, tendo em vista a tendência de diminuição dos computadores que se iniciava na época. A SEI tinha autoridade e autonomia para bloquear aquele pedido e, com isso, estimular a produção de tal sistema a partir dos desenvolvimentos do INPE.
O pedido da SEI acelerou um processo que, de certa forma, já estava em curso no INPE. Havia um potencial tecnológico na área, mas que atuava de forma fragmentada no interior da instituição. O diretor do INPE na época, Nelson de Jesus Parada, deu apoio não somente a organização interna do time que iria desenvolver a tecnologia daquele produto, como também iria estimular a criação de uma empresa – a Engespaço - que seria o braço industrial, comercial e de suporte aos desenvolvimentos do INPE. A partir do pedido da SEI, o grupo de pesquisa de processamento e tratamento de imagem se organizou no interior do Departamento de Informática (DIN) para desenvolver os algoritmos do I-100 para um minicomputador nacional, um CISCO, segundo Freitas (2009), ao qual seria ainda acoplado a UAI, e daí então produzi-lo e comercializá-lo.
Ao mesmo tempo, neste ano de 1982, sob a inspiração de Roger Tomlinson, deu-se inicio aos desenvolvimentos na área de geoprocessamento. Neste período, a DPI ainda não estava criada formalmente, o que só aconteceria dois anos depois, em 1984, quando chegou ao INPE um microcomputador PC/IBM para aperfeiçoar os desenvolvimentos que se iniciaram no CISCO. Também neste ano, foi criada a FUNCATE – Fundação de Ciência, Aplicações e Tecnologias Espaciais – entidade de direito privado, sem fins lucrativos, cuja estrutura flexível deveria realizar atividades complementares às do INPE, como contratação e execução de projetos, reprodução e comercialização de protótipos e assistência técnica após a venda de produtos. O INPE não tinha vocação institucional nem estatuto jurídico-administrativo para
desempenhar tais funções (PERILO et al, 1988), daí a necessidade de uma entidade que estivesse em sintonia com as atividades de desenvolvimento do INPE.
Um ano após a sua criação, em 1983, a FUNCATE criou duas empresas associadas a ela. Uma delas, a Engespaço, passaria a funcionar como braço industrial dos desenvolvimentos e inovações do INPE na área de recepção, processamento e visualização de imagens de satélites que começava a gerar demandas por parte de outras instituições de pesquisa e empresas privadas. O início das atividades da Engespaço contou com grande participação dos pesquisadores da Divisão de Informática, que após o expediente do INPE, faziam um terceiro turno na empresa para desenvolver industrialmente as tecnologias tanto da UAI, como aquelas que vinham sendo desenvolvidas no interior do I-100 em PC.