O objetivo dos modelos apresentados é verificar a existência e relação entre as variáveis anteriormente citadas para explicar a variação na despesa dos clubes. Com isso é possível observar, de forma mais clara, o movimento financeiro dos times, pois tendo a Despesa como variável explicada ou dependente, no modelo, são eliminados os efeitos de eventuais receitas extraordinárias que podem influenciar nas demais variáveis explicativas. Sem isso não seria possível a análise de um modelo com variáveis dependentes como o Lucro Líquido ou
Receita Líquida, por exemplo, inviabilizando uma análise econométrica coerente. Através do teste de Hausmann foi definido o modelo 2 como o mais apropriado para tratamento dos resultados.
O método então definido como mais apropriado é o Método de Efeitos Fixos, que implica na existência de uma constante comum para todas as variáveis, não existindo assim diferenças entre as constantes. Os resultados do modelo indicam as variáveis D2 e REC como
significantes, aos níveis de 5% e 1% respectivamente. Afirmamos com isso que existe a relação positiva entre a Receita Líquida e as Despesas, ou seja, quanto maior as Receitas Líquidas, maior as Despesas. Sendo a D2 a variável de ciclo político de 3 anos, notamos a influencia no
aumento das Despesas, uma vez que clubes que possuem eleições de 3 em 3 anos tendem a possuir maiores Despesas do que clubes que não possuem eleições.
Quadro 2 - Resultados dos métodos dos modelos econométricos de dados de painel
VARIÁVEIS MODELO 1 (CONSTANTE COMUM) MODELO 2 (EFEITOS FIXOS) MODELO 3 (EFEITOS ALEATÓRIOS)
CONSTANTE -1,3E+07 - -2,1E+07
ARS--C - -1.40E+08 -2,1E+07
ATL--C - -4386813. 18195359 BEF--C - -3,7E+07 3448435. CBA--C - -1,5E+07 8416920. COR--C - -2,3E+07 13198365 CRU--C - -2,9E+07 2460230. FLA--C - -4,2E+07 -5427813. FLU--C - -3,5E+07 -3681883. GOI--C - -1,2E+07 8360790. GRE--C - -4,3E+07 -8331617. INT--C - -4,9E+07 -7768016. JUV--C - -6,8E+07 7718141. LAZ--C - 385973.0 35778152
LYO--C - -1.10E+08 -2,9E+07
PAL--C - -2,9E+07 2276654. POR--C - -4,8E+07 2313599. ROM--C - -6,8E+07 -5760518. SAN--C - -3,3E+07 1079428. SPO--C - -4,3E+07 1652338. Continua.
Quadro 2 - Resultados dos métodos dos modelos econométricos de dados de painel (conclusão) VARIÁVEIS MODELO 1 (CONSTANTE COMUM) MODELO 2 (EFEITOS FIXOS) MODELO 3 (EFEITOS ALEATÓRIOS)
TOT--C - -9,4E+07 -2,2E+07
VAS--C - -3,3E+07 -1577336. jogos - - - jogosul - - - Lucro - - - REC (1)-0.882419 (1)-0.635874 (1)-0.835000 D1 417519.5 702684.2 2561129. D2 (3)-13072220 (2)-14526800 (3)-12950348 D4 -1266466 5305582. 3916983. TOR - - - R² 0.914611 0.951059 0.936950 R² ajustado 0.912205 0.941431 0.935174 Estatística F 3802434 9878257 -
(1) Dados Significativos a 1%. (2) Dados Significativos a 5%. (3) Dados Significativos a 10%. Fonte: Autor.
Para exemplificar de forma mais clara, o gráfico abaixo mostra a relação entre a média anual das Despesas dos clubes que possuem período eleitoral de 2 anos e dos clubes com eleições em 3 anos.
Gráfico 34 - Clubes Sociais – despesa média – eleições 2 anos x eleições 3 anos (em milhões de dólares)
Fonte: Autor. 0,00 20,00 40,00 60,00 80,00 100,00 120,00 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 Eleições em 2 anos Eleições em 3 anos
Fica evidente em todos os anos do período analisado o maior volume de Despesas dos Clubes Sociais que possuem eleições de 3 em 3 anos o que induz acreditar ser mais benéfico para a gestão dos clubes sociais possuir período eleitoral de 2 anos. Entretanto conforme os resultados do modelo econométrico, a variável D2 nos indica valor 1 para clubes que possuem
ciclos eleitorais de 3 anos e 0 para clubes que não possuem ciclos, o que inclui os clubes empresas. Ou seja, é preferível um clube não possuir ciclos eleitorais do que possuir ciclos de 3 anos, já que D2 é positivamente relacionada com a Despesa.
Esses resultados refletem a situação atual da gestão dos times brasileiros, pois fica comprovado que períodos eleitorais de 3 anos influenciam no aumento das Despesas, o que não observamos nos clubes empresa, o resultado disso é uma possível melhor organização e gestão de longo prazo para os clubes empresa do que para os clubes brasileiros.
Outro resultado do modelo que é possível desenvolver graficamente é a comparação entre Receita Líquida média e Despesa média dos clubes brasileiros apresentadas nos resultados do modelo econométrico, observando o período eleitoral de 2 e de 3 anos como segue abaixo.
Gráfico 35 - Clubes Sociais – despesa média ciclos 2 anos x ciclo 3 anos – receita média ciclos 2 anos x ciclos 3 anos (em milhões de dólares)
Fonte: Autor.
No gráfico observamos o volume médio tanto de Despesas quanto de Receitas dos clubes sociais com ciclos eleitorais de 3 anos sempre maiores do que os clubes com eleições em 2 anos. O que vem de encontro com os resultados do modelo econométrico, pois, quanto maior a variável Receita maior a variável Despesa e clubes com ciclos de 3 anos possuem influencias nas Despesas ao contrário dos clubes sem ciclo ou ciclo de 2 anos.
0,00 20,00 40,00 60,00 80,00 100,00 120,00 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 DESP. 2 ANOS DESP. 3 ANOS REC. 2 ANOS REC. 3 ANOS
CONCLUSÃO
O trabalho foi desenvolvido com o objetivo de estabelecer a existência de relação entre os ciclos políticos econômicos e as variáveis financeiras dos clubes de futebol tanto brasileiros quanto mundiais. Para tanto foi necessário aprofundar o conhecimento sobre as teorias de ciclos político econômicos e sua evolução. Em seguida foi desenvolvida uma análise das variáveis financeiras dos clubes para desenvolver um modelo de Dados de Painel que reunisse as informações referentes aos ciclos eleitorais e a situação financeira dos times, encontrando, de forma econométrica, uma resposta para a relação entre as variáveis submetidas no trabalho.
O aprofundamento do estudo sobre as teorias de ciclos políticos econômicos iniciou- se com a Teoria Oportunista Tradicional, que tem como base, os governantes poderem escolher a sua combinação preferida de inflação e desemprego ao longo da Curva de Philips e com isso conseguirem iludir os votantes antes das eleições. Na teoria, os políticos são idênticos e farão de tudo para permanecer no poder, não recebendo influência de partidos e adotando políticas pré-eleitorais expansionistas e pós-eleitorais restritivas. Os principais nomes dessa corrente teórica foi Downs e Nordhaus.
A Teoria Partidária Tradicional, com seu maior expoente sendo Hibbs, permanece com a ideia oportunista, entretanto sofrem influência de partidos políticos. A ideologia dessa teoria preza que os partidos de direita são os detentores de capital e com isso combatem a inflação e aumentam o desemprego, no lado oposto os partidos de esquerda, classe trabalhadora, combatem o desemprego e aumentam a inflação.
Exposto por Alesina, a Teoria Partidária Racional posiciona os eleitores como entendedores de política e economia e com isso são capazes de aprender ao presenciar um ciclo político econômico. A teoria não concorda com ciclos oportunistas, mas sim com uma adesão ideológica ao partido político, o que justifica a condução da política econômica e fiscal.
Para finalizar a parte teórica do trabalho, foi exposta a Teoria Oportunista Racional, tendo como expoente Rogoff, onde em sua análise coloca que existe uma vantagem temporária do governo e políticos sobre os eleitores, sendo eles e os votantes agentes maximizadores racionais. Essa vantagem temporária é originada pela assimetria de informações e por isso os políticos conseguem, antes das eleições, diminuir taxas e elevar os seus gastos, sendo que essas variações nos elementos econômicos, tanto na esfera pública quanto privada, acontecem a custas dos investimentos do governo.
Os clubes de futebol brasileiros, que possuem ciclos eleitorais estão suscetíveis às teorias de ciclos políticos, uma vez que em anos pré-eleitorais os dirigentes adotarão políticas
de investimentos com a finalidade de formar uma equipe competitiva, aumentando suas chances de vitórias e títulos durante o período, gerando um efeito satisfatório em seu público votante a fim de atingir a reeleição ou a eleição do seu sucessor.
Essa orientação muitas vezes conduz a resultados que desvalorizam a entidade como o clubes, pois não atingem os objetivos, ou seja, o volume de receita é frustrado gerando endividamento.
Os clubes empresa não sofrem influência dos ciclos políticos, tendo em vista que possuem um dono e assim podem estabelecer políticas de gestão financeira de médio e longo prazo. A possibilidade de formação de estruturas vencedoras, como por exemplo, investimentos na formação de atletas de base, faz parte desse planejamento, representando uma importante fonte de receitas advindas da negociação de atletas, introduzindo um ciclo virtuoso de resultados.
Na sequência, foram coletadas diversas variáveis para compor a análise financeira dos clubes sociais e empresa, entre elas, Receita Líquida, Receita de TV, Receita de Bilheteria, Receita de Publicidade, Transações de Atletas, Resultado Líquido, Despesas, Número de Jogos no Ano, Número de Jogos nas competições Copa Libertadores ou Copa UEFA e Quantidade de Títulos. Com a relação de todas essas variáveis foi possível encontrar alguns padrões como a alta dependência dos times sociais à Receita de TV, raramente não sendo a receita mais relevante, perdendo eventualmente para Receita com Transações de Atletas. Já os clubes empresa possuem uma variação entre as receitas mais importantes. Os clubes ingleses têm na Receita de Matchday (Bilheteria) a sua maior relevância, entretanto os times portugueses possuem o maior volume de receitas com Transações de Atletas e os times italianos e franceses tem como destaque de receitas é Broadcasting (TV, Mídia). Cabe salientar que todas as variáveis foram dolarizadas através da taxa média de câmbio anual da respectiva moeda, com isso eliminaram-se possíveis influências inflacionárias e também, padronizamos os dados, o que facilita para a comparação.
Para o encerramento do estudo, no capítulo 4 se desenvolveu o modelo econométrico, valendo-se da teoria do Modelo de Dados de Painel, no qual é possível adicionar inúmeras variáveis e analisá-las durante um período, ou seja, o modelo possui uma série no tempo para cada variável. Os métodos utilizados foram o da Constante Comum, Efeitos Fixos e Efeitos Aleatórios. Dentre todas as relações testadas e diferentes modelagens, utilizou-se o método de Efeitos Fixos que após o teste de Hausmann foi tido como o melhor para o caso. Encontrou-se a variável Despesa como endógena, sendo explicada pelas variáveis Receitas Líquidas e Dummy 2, ou seja, a despesa possui relação positiva com a variáveis Receita Líquida e ciclos
políticos de 3 anos, sendo assim, clubes que possuem eleições a cada 3 anos tendem a ter maiores despesas do que clubes que não possuem ciclos ou possuem de 2 anos.
Ficando, então, de acordo com o problema de pesquisa, que existe influência dos ciclos políticos de 3 anos diretamente nas Despesas dos clubes sendo possível afirmar que é preferível o time não possuir eleições, ser um Clube Empresa, do que possuir período eleitoral de 3 anos, gerando com isso a possibilidade de uma organização de longo prazo e profissional da gestão do clube. Sendo assim, o ciclo eleitoral de 3 anos é o fator inicial a ser eliminado para estreitar as diferenças entre os Clubes Sociais e os Clubes Empresas.
A falta de gestão profissional dos times brasileiros gera diferenças em relação aos clubes empresas, como, o baixo número de ocupação dos estádios, os baixos valores arrecadados em publicidade e patrocínio, o constante atraso nos pagamentos de salários aos atletas, a migração de jogadores com qualidade para o mercado mundial e o total descaso com atletas de clubes menores que sofrem para a arrecadação de recursos. Podemos comprovar esses exemplos através da decadência dos resultados da seleção brasileira de futebol, com a eliminação na Copa do Mundo realizada no Brasil em 2014 e a recente derrota nas fases intermediárias da Copa América de 2015.
O próximo passo a ser dado pelos clubes brasileiros para eliminar essas diferenças é alterar o modelo de gestão atual, profissionalizando o futebol através da contratação de gestores qualificados, que ao assumir o clube introduzirão à entidade o perfil empresarial. Será possível, após esse primeiro passo, transformar os clubes em empresas de Sociedade Anônimas (S/A), podendo abrir o capital em bolsa de valores, tornando o sócio atual, acionista do Clube Empresa. O trabalho abre inúmeras possibilidades de novos estudos e novas relações econométricas, podendo trazer como variáveis dependentes as demais receitas apresentadas no trabalho e relacioná-las com novos fatores relevantes no contexto. Ainda, o estudo por si só aprofunda o pensamento crítico sobre a situação do futebol brasileiro e abre possibilidades para novos enfrentamentos tanto teóricos como práticos sobre as variáveis que influenciam no comportamento da gestão do esporte principalmente no Brasil e consequentemente da qualidade do mesmo em comparação ao futebol mundial.
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