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Em minha vivência com várias famílias pomeranas durante a realização desta pesquisa, muitas foram às histórias e experiências de vida que me foram contadas. Além dos meus interesses iniciais de pesquisa, considerei relevante registrar algumas delas, enfatizando a importância das memórias dos idosos para o registro de sua história.

Antes mesmo que eu começasse a perguntar os assuntos de meu interesse, os participantes já começavam a me relatar histórias, fatos do passado e do presente, o que tornava a conversa agradável, que nem percebíamos as horas passarem. A média de tempo das entrevistas com os idosos era de duas a três horas, considerando que mesmo assim não foi possível abordar todos os assuntos previstos devido às mudanças de assunto e aprofundamentos que os idosos faziam em cada questão.

Estes momentos de entrevistas confirmam as palavras de Ecléa Bosi (1994, p. 3)

ergiam aos idosos durante as visitas

Considerando que a memória é seletiva e que nem tudo o que é vivido fica registrado e é relatado, acredito que somente os fatos do passado que foram considerados importantes pelos idosos foram retidos em suas memórias, e, diante de pessoas dispostas a ouvir os seus relatos, os fatos considerados pertinentes e que os idosos se sentiram a vontade para falar foram relatados. Em resumo, os assuntos destacados nas entrevistas eram referentes à relação dos entrevistados com a terra, sua forma de aquisição e o trabalho desenvolvido nas mesmas, a vida familiar e comunitária, a construção das casas, o trabalho em mutirão, dificuldades pelas quais passaram durante a sua vida (falta de recursos financeiros, língua, enfermidades) e as soluções encontradas para vencer os desafios.

Analisando as histórias que me foram contadas, posso afirmar que muitas destas memórias foram herdadas dos antepassados e outras foram adquiridas durante à sua vida. Para exemplificar os dois tipos de memórias encontradas, recorrerei ao caso de Emília (85 anos, agricultora aposentada), cujo diálogo foi mais longo e mais rico em detalhes e histórias de vida. Uma das memórias herdadas que me foi relatado por ela referia-se ao seu vovô, que [...] era pastor de ovelhas na Pomerânia, e ai ele andou de navio três semanas, ele ficou só na água, no navio pra vim pra cá [Brasil] ). [...] aí ele oram transmitidos pelos

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seus ancestrais e permaneceram em sua memória como algo importante a ser lembrado e transmitido às outras gerações.

Apesar de aparecerem algumas memórias como esta, a maior parte do tempo me foram relatadas memórias vividas pelos informantes. Detalhadamente D. Emília fala dos acontecimentos de sua vida, conforme pode ser evidenciado nas falas seguintes quando ela descreve sua infância e suas lembranças sobre seu avô e, posteriormente sobre o seu trabalho quando já era mãe de quatro filhos:

Lembro bem do vovô Gaede no seu quarto, ele tinha umas latas coloridas com balas e ele falava: venham crianças, podem entrar. Aí a gente ia e o vovô Gaede tirava balas pra gente. Um outro dia a gente foi lá e no meio do terreiro daquele lugar tinha uns pés de ameixa grandes e lá tinha abelha uruçu dentro, ai ele bateu lá e falou: escutem, escutem. Aí a gente tinha que escutar e fazia aquele barulho lá dentro. Isso eu não esqueço nunca (Emília, 85 anos, agricultora aposentada).

Essa história engraçada eu também tenho que te contar, as crianças eram todas pequenas. As pessoas deixavam moer muito fubá aqui [ no moinho] e naquele tempo não tinha chinelos como há hoje, eles eram feitos com madeira e colocava-se tiras por cima. Um dia a escada estava molhada e eu queria descer do moinho com um saco de fubá nas costas e os chinelos de madeira escorregaram comigo e eu soquei de bunda no chão com aquele saco de fubá nas costas (Emília, 85 anos, agricultora aposentada).

Nestas falas, D. Emília relembra duas passagens de sua vida que ficaram marcadas em sua memória, relatando os prazeres da infância e as dificuldades que o trabalho trazia. Esses fatos vividos por D. Emília fazem parte das memórias adquiridas que foram repassadas para os filhos e netos, podendo ser transformadas em memórias herdadas no futuro.

Estas memórias foram ativadas por meio de minhas perguntas sobre a imigração e a história dos primeiros imigrantes de suas famílias e sobre a vida, o trabalho e os hábitos alimentares das famílias. Porém, ao observar os arquivos fotográficos das famílias muitas memórias também afloravam e me eram relatadas. Um exemplo também se deu em uma das conversas que tive com D. Emília quando observávamos uma fotografia em que um casal de noivos da família fazia pose junto com seus presentes de casamento, sobretudo panelas. Curiosa com o fato, perguntei se era costume dar somente panelas de presente de casamento e ela respondeu que se

em seguida,

casamento, eu ganhei 15 chaleiras de café, umas grandes marrons e umas 5 pequenas, -se há

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mais de 50 anos e lembra com perfeição a quantidade e a cor das chaleiras que ganhou de presente na época, o que mostra a relevância dos presentes recebidos.

Durante as visitas a várias famílias de idosos, era quase inevitável que eu fosse convidada para adentrar para a cozinha, muitas vezes para tomar um café e continuar a conversa. Nessas ocasiões, pude notar muitos objetos antigos como panelas, chaleiras, xícaras, farinheiras, pratos e tigelas, que ainda eram muito presentes nas cozinhas, sendo que muitos deles foram recebidos como presentes de casamento e faziam parte do cotidiano das famílias há mais de 40 ou 50 anos. Junto com a observação e a conversa sobre estes objetos muitas memórias eram ativadas e relatadas.

Em uma das famílias encontrei um pote revestido de ouro que era guardado com muito carinho e cuidado. Segundo a informante, este objeto foi trazido da Pomerânia por seus antepassados e passado entre as gerações, chegando até as suas mãos. Ela disse que o repassará para seus descendentes. Mesmo que alguns utensílios se encontrem nas cozinhas e sejam usados cotidianamente, a maioria deles é guardada em locais específicos para que não corram risco de serem danificados.

Em outras visitas, casos semelhantes aconteceram, sendo um deles o de D. Chaneta (74 anos, agricultora aposentada) que me mostrou uma panela de ferro que pertenceu ao pai quando ele ainda era solteiro e trabalhava como tropeiro. A informante relata que usa a panela para fritar torresmo e fígado de boi afirmando ser mais gostoso do que quando faz com outra panela. Neste caso, uma panela remeteu a história de vida do pai de uma das entrevistadas e à sua ocupação que era a de tropeiro.

O outro caso é do tacho que pertence a Fritz (84 anos, agricultor aposentado), lembrança de onde eu fiz rapadura, cozinhamos açúcar

momentos de dificuldade financeira e de trabalho que eram necessários para assegurar a sobrevivência da família, ao produzir alimentos fundamentais para o cotidiano.

Desta forma, lembranças e tradições são repassadas às gerações mais novas e dar valor a estas memórias é um dos caminhos para a preservação da cultura pomerana. Conforme Bosi (1994, p. 74), com os velhos é possível promover a continuidade da cultura e da educação das gerações futuras, pois permitem, em suas experiências, reviver o que já passou, mas que, de alguma maneira, permanecem nos rastros de suas lembranças partilhadas.

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