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Segundo Schön (1983), a distinção entre os processos de reflexão-na-ação e de

conhecer-na-ação pode ser sutil, pois, assim como o conhecer-na-ação, a reflexão-na-ação é um processo desenvolvido sem que seja preciso descrever o que se está fazendo. O autor afirma que quando os profissionais refletem na ação, eles descrevem sua própria compreensão intuitiva, apesar de sempre haver uma lacuna entre tais descrições e a realidade a qual eles se referem, já que, quando um profissional demonstra sua arte, seu conhecimento intuitivo é sempre mais rico em informação do que qualquer descrição que ele realize.

Schön (2000) afirma que quando um indivíduo aprende a fazer algo, está apto a executar seqüências fáceis de atividade, reconhecimento, decisão e ajuste sem ter que “pensar a respeito”, já que o ato espontâneo de conhecer-na-ação geralmente é suficiente para responder às tarefas cotidianas. Mas, segundo o autor, nem sempre este conhecer-na-ação é suficiente para lidar com as situações, visto que uma rotina comum pode produzir um

resultado inesperado, um erro resistir à correção, ou, ainda, ações comuns, mesmo produzindo resultados comuns, podem ter algo considerado estranho, pelo fato de o indivíduo passar a observá-la de outra maneira, pois existe a possibilidade de sua forma de compreensão em relação ao seu meio modificar-se ao longo do tempo.

No entanto, de acordo com Schön (1983), nem sempre é possível refletir no meio de uma situação, pois há casos em que existe a necessidade de respostas imediatas, on-line, e uma falha pode ter sérias conseqüências. O autor argumenta que nem todas as situações práticas são deste tipo, já que a ação presente varia muito de caso para caso e, freqüentemente, há tempo para pensar sobre o que se está fazendo. Ele cita alguns exemplos para ilustrar casos em que é possível refletir durante a ação: um médico acompanhando a doença do paciente, um advogado na preparação de um caso ou um professor lidando com a dificuldade de um estudante. Segundo Schön (1983), em processos como estes que podem se estender por semanas, meses ou anos, episódios pautados por rápidos movimentos são pontuados por intervalos que proporcionam a oportunidade para a reflexão.

Em sua prática profissional, um profissional defronta-se com muitas experiências que podem ser familiares e conhecidas ou não familiares e desconhecidas, conforme foi mencionado na seção anterior. Segundo Schön (2000), todas experiências do tipo não familiar ou desconhecida, agradáveis e desagradáveis, contêm um elemento de surpresa, ou seja, algo não está de acordo com as expectativas. Em uma tentativa de preservar a constância de nossos padrões normais de conhecer-na-ação, é possível responder à ação colocando-a de lado, ignorando seletivamente os sinais que a produzem ou é possível responder a ela através da reflexão, o que pode ser feito de duas formas: retrospectivamente ou na ação.

No primeiro caso, de acordo com Schön (1983, 2000), os profissionais refletem sobre seu saber na prática quando relembram um projeto pelo qual tiveram responsabilidade ou uma situação que vivenciaram, pensando retrospectivamente sobre o que fizeram, a fim de

descobrir como seu ato de conhecer-na-ação pode ter contribuído para um resultado inesperado, explorando as compreensões obtidas através da situação experienciada. Isto pode ser feito de maneira despretensiosa ou por meio de um esforço visando à preparação para eventuais casos futuros, após o fato, em um ambiente de tranqüilidade, ou com uma pausa no meio da ação, com o objetivo de “parar e pensar” sobre o que se está fazendo. Em ambos os casos, a reflexão não tem qualquer conexão com a ação presente.

Além desse tipo de reflexão que acontece graças à memória, como alternativa, pode ocorrer a reflexão no meio da ação, sem necessidade de interrupção para pensar, o que Schön (1983, 2000) define como reflexão-na-ação. A reflexão-na-ação, conforme Schön, (2000) tem função crítica que visa ao questionamento da estrutura de pressupostos do conhecer-na-

ação. Isto ocorre justamente pelo fato de a necessidade da reflexão-na-ação acontecer em meio a situações de incerteza, não familiares e desconhecidas que o profissional encontra, casos em que o seu conhecer-na-ação não servem para resolver suas demandas.

De acordo com Schön (1983), quando um profissional reflete durante e sobre sua prática, os possíveis objetos de sua reflexão são tão variados quanto os tipos de fenômenos perante ele e seus sistemas de conhecer-na-ação, ou seja, ele pode refletir sobre as normas tácitas e apreciações em que baseia um julgamento ou sobre as estratégias ou teorias implícitas em um modelo de comportamento; pode refletir sobre o sentimento de uma situação que o levou a adotar um curso particular de ação; sobre a maneira pela qual estruturou o problema que esta tentando solucionar; ou sobre o papel que ele construiu para si mesmo dentro de um contexto institucional mais amplo. Schön afirma que a reflexão-na-

ação, nesses vários modos, é central à arte pela qual os profissionais lidam com as tensas situações problemáticas da prática.

Quando o profissional se defronta com essas situações desconhecidas, não familiares e inicia sua reflexão-na-ação, além de refletir sobre os diversos fatores mencionados

anteriormente, ainda tem que levar em conta outros aspectos que influenciam seu processo de

reflexão-na-ação. De acordo com Schön (1983), entre eles, estão: o contexto institucional ou sistema apreciativo, já que todos os papéis profissionais, de alguma forma, estão embebidos por um ambiente específico ou sistema apreciativo que os afeta; seu repertório, que é formado pelo seu conjunto de conhecimentos acumulados ao longo do tempo a partir de suas experiência; mídia e linguagem, etc. De acordo com o autor, alguns desses fatores podem ser modificados pela reflexão do profissional, já que a reflexão-na-ação interage com o seu objeto, sua experiência. Isto acontece quando o profissional inicia um processo de conversação reflexiva com a situação (SCHÖN, 1983, 2000), sendo este o momento em que o

profissional investiga, questiona e interpreta sua ação, seus movimentos e os resultados obtidos, em busca da solução ou resposta para lidar com a situação não familiar, surpreendente, inesperada e incerta com a qual se defrontou durante sua prática profissional.

A seguir, nas próximas seções, serão abordados a “conversação reflexiva com a situação”, “repertórios” e os “experimentos imediatos”, fatores importantes na compreensão do processo de reflexão-na-ação.

2. 4.3 Conversando reflexivamente com a situação

O processo de investigação, conforme Schön (2000), pode ser descrito como seqüência de “momentos” em um processo de reflexão-na-ação. Inicialmente, há uma situação de ação para a qual o indivíduo traz respostas espontâneas e de rotina, que revelam um processo de conhecer-na-ação que pode ser descrito em termos de estratégias, compreensão de fenômenos e formas de conceber uma tarefa ou problema adequado à situação. Estas respostas de rotina produzem uma surpresa – um resultado inesperado, agradável ou desagradável, que não se encaixa nas categorias do conhecer-na-ação - que traz

à tona a reflexão. Esta reflexão é, pelo menos em alguma medida, consciente, ainda que não seja descrita por meio de palavras e tem uma função crítica, levando ao questionamento da estrutura dos pressupostos do ato de conhecer-na-ação. O profissional começa a pensar criticamente sobre o que o levou a essa situação difícil ou a essa oportunidade e pode, nesse processo, reestruturar as estratégias de ação, suas compreensões dos fenômenos ou as formas de conceber os problemas. Na seqüência, a reflexão gera o experimento imediato, momento em que novas ações são experimentadas com o objetivo de explorar os fenômenos recém- observados, testar nossas compreensões experimentais acerca deles ou afirmar as ações que foram inventadas para mudar as coisas para melhor.

Schön (1983) afirma que profissionais em diferentes tipos de atividades de trabalho revelam similaridades na arte de sua prática, e, especialmente, na arte de investigação com a qual, algumas vezes, enfrentam situações de incerteza, instabilidade e de caráter único. Para lidar com os tipos de situações, os profissionais começam a investigar, questionar e interpretar sua experiência.

Segundo Schön (1983), quando um profissional reflete na ação, torna-se um pesquisador, um investigador no contexto prático, construindo, independentemente de categorias de teorias e técnicas estabelecidas, uma nova teoria a partir do caso único. O investigador, em seu processo de investigação, busca a compreensão e a resolução da situação problemática, não separando o pensar do fazer, raciocinando de forma a tomar uma decisão que possa ser convertida em ação, já que sua experimentação é um tipo de ação implementada a partir da construção da sua investigação. Nas palavras de Schön (1983), o profissional mantém conversação com a situação, refletindo durante a ação de compreensão do problema, elaborando as estratégias de ação que vão guiar seus próximos movimentos.

De acordo com Schön (1983), quando o profissional se encontra envolvido numa situação problemática que ele não pode converter em problema administrável, ou seja, quando

o fenômeno que está ocorrendo não encontra correspondência com suas categorias do saber na prática, apresentando-se como um situação de caráter único ou instável, ele pode externar e criticar sua compreensão inicial do fenômeno, construir nova forma de lidar com o problema, fazendo uma nova descrição dele para testar a nova descrição por meio da realização de um experimento imediato, tentando buscar nova compreensão da situação. O profissional, então, toma o problema reformulado e conduz um experimento para descobrir que conseqüências e implicações podem ser obtidas para prosseguir, verificando o que pode ser feito para reconstruir ou reajustar a situação e adaptá-la, buscando isto através de uma teia de movimentos que levam à descoberta de novas implicações e apreciações, que rendem novos fenômenos a serem compreendidos, problemas a serem solucionados ou oportunidades a serem exploradas.

De acordo com Schön (1983), os movimentos do profissional também produzem mudanças não entendidas que fornecem às situações novos significados, provocando nova conversação com a situação, o que gera a reconstrução e o reajuste à situação uma vez mais. Em sua conversação reflexiva, os esforços do profissional, em busca da resolução do problema reformulado, rendem novas descobertas que clamam por nova reflexão-na-ação. Cria-se um processo em espiral através de estágios de apreciação, ação e reapreciação. A situação única e incerta vem a ser compreendida através da tentativa de mudá-la e sua mudança se dá através da tentativa de compreendê-la. Então, o profissional avalia seu experimento em reconstruir e reajustar a situação problemática não somente pela sua habilidade em resolver um novo problema que ele encontrou, mas por suas apreciações dos efeitos não entendidos da ação, e especialmente por sua habilidade, em conversação com a situação, em fazer ou construir um artefato que seja coerente e uma idéia que seja compreensível.

Segundo Schön (1983), a relação do investigador com a situação é transacional, pois ele molda a situação, em conversação com ela, de forma que seus próprios modelos e apreciações também sejam moldados pela situação. O fenômeno que este investigador procura compreender é parcialmente de sua própria construção, já que ele faz parte de uma situação que está buscando compreender. Esta é outra forma de dizer que a ação na qual ele testa suas hipóteses é também um movimento de tentativa de realizar uma mudança desejada numa situação, e uma investigação pela qual ele a explora. O investigador compreende a situação tentando mudá-la e considera as mudanças resultantes não como defeito do método experimental, mas como essência de seu sucesso.

De acordo com Schön (1983), a forma que o investigador deve refletir na ação e como ele irá conduzir seus experimentos dependerá das mudanças produzidas por seus movimentos. O Quadro 3 mostra a relação entre as conseqüências e a desejabilidade dos movimentos do investigador:

Quadro 3 – Conseqüências e desejabilidade dos movimentos do investigador

Conseqüências em relação à intenção Desejabilidade de todas as conseqüências percebidas, intencionais ou não intencionais

1- Surpresa Indesejável

2- Surpresa Desejável ou Neutra 3- Sem surpresa Desejável ou Neutra 4- Sem surpresa Indesejável

Fonte: Schön (1983)

Conforme Schön (1983), o primeiro caso indicado no Quadro 3 é um típico caso de reflexão em ação. O movimento falha em produzir um resultado intencional, e suas conseqüências, intencionais ou não intencionais, são consideradas indesejáveis. De acordo com o autor, quando a execução de um movimento falha em atingir sua intenção inicial, ocorre a produção de conseqüências consideradas indesejáveis, fazendo com que o investigador enfrente a teoria implícita no movimento, criticando-o, reestruturando-o, e testando nova teoria, criando um movimento consistente com ela. A seqüência de

aprendizagem, iniciada pela não ocorrência do movimento, termina quando nova teoria leva a novo movimento desejável.

No segundo caso, a expectativa do investigador é desapontadora, mas as conseqüências são consideradas desejáveis. A teoria associada é refutada, mas o movimento é afirmado.

No terceiro caso, o movimento produz o resultado que se esperava e suas conseqüências são as desejadas. Não há necessidade de reflexão-na-ação, ao menos que o investigador – mais uma vez considerando o caso presente como uma preparação para casos futuros – questionar a si mesmo sobre seu sucesso presente.

No quarto caso, o movimento produz os resultados esperados, mas ele também causa mudanças não pretendidas que são encontradas e são insatisfatórias.

Conforme Schön (1983), numa conversação reflexiva do profissional com a situação que ele trata como única e incerta, ele funciona como um agente. Através da sua transação com a situação, ele a molda e faz de si mesmo uma parte dela, incluindo sua própria contribuição à experiência. Ao mesmo tempo que o investigador molda a situação para seu modelo, ele deve manter-se aberto ao que este evento pode lhe responder. Ele deve estar disposto a entrar em novas confusões e incerteza, devendo adotar um tipo de dupla-visão, agindo de acordo com sua visão adotada, mas reconhecendo seu poder de alterá-la posteriormente, a fim de dar novo sentido a sua transação com a situação. Isto se torna mais difícil de fazer conforme o processo progride. Suas escolhas tornam-se comprometidas e seus movimentos, cada vez mais irreversíveis. No entanto, se o investigador mantém sua dupla- visão, até mesmo quando o comprometimento com um modelo escolhido é alto, ele aumenta as chances de chegar a nível mais profundo e amplamente coerente entre artefato e idéia.