O grupo de autoestima do Marrocos iniciou-se no quintal da casa de uma das moradoras, permanecendo aí por um período de aproximadamente seis meses. Posteriormente, foi se deslocando por outros espaços improvisados nas casas de outras moradoras, devido a inexistência de um espaço específico na comunidade para a realização desse tipo de atividade. Em junho de 2009 foi inaugurada uma “telhosa” construída pelos moradores a partir de recursos da Prefeitura Municipal de Fortaleza, repassados através do MSMCBJ, espaço que serviu em alguns momentos para a realização das sessões, embora também de forma instável, pois sua estrutura física total ainda permaneceu em processo de construção pelos meses seguintes.
Era um grupo aberto, destinado a trabalhar com homens e mulheres adultos, embora tenha sido formado exclusivamente por mulheres. Iniciou-se com um número de quinze participantes, embora, durante todo o período de um ano, manteve uma matriz estável de apenas seis mulheres. Acontecia semanalmente, todas as quartas-feiras, no horário das 15:00 h às 17:00 h. Inicialmente, era facilitado de forma rotativa por quatro profissionais, sendo dois dos CAPS e dois extensionistas do NUCOM. Posteriormente, passou a ser facilitado pelas duas profissionais do CAPS, de modo que no decorrer do
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D. C. é uma sigla que será utilizada nesta pesquisa para designar Diário de Campo, como mais adiante, ainda neste capítulo, será explicado detalhadamente.
trabalho os outros dois extensionistas do NUCOM passaram a dedicar-se a realização de outras atividades naquela comunidade. Como profissional da saúde mental, minha participação no grupo deu-se inicialmente como apoiadora, mediando e articulando a implantação daquela ação comunitária no território da SER V. Posteriormente, a partir da definição desse campo de pesquisa, assumi o papel de pesquisadora.
Havia um planejamento prévio básico das sessões, que acontecia logo no início da tarde no espaço do CAPS, onde se reuniam as facilitadoras e os extensionistas, momento no qual também eu participava. Estes momentos eram bastante ricos, repletos de reflexões e discussões sobre as possibilidades de atuação, sobre a temática que se iria abordar, sobre os resultados e dificuldades do trabalho. Já em campo, no tempo prévio ao início das sessões, visitávamos as casas e caminhávamos pela comunidade, momentos que possibilitaram conversas informais, interação com os moradores, conhecimento de seus modos de vida e o estabelecimento de vínculos.
As dinâmicas das sessões eram organizadas a partir de uma proposição metodológica dialógico-vivencial, como já explicitado. No início, havia uma conversa na qual eram enfocados os relatos das participantes sobre fatos do seu cotidiano, ideias e sentimentos despertados, reflexões e mesmo impressões sobre a sessão anterior. Nas falas, muitas mulheres traziam problemáticas pessoais e da comunidade, tais como: a questão do alcoolismo e da drogadição, os conflitos relacionais e conjugais, a relação com os filhos, com o trabalho, dentre outros. Também nesta ocasião, os profissionais expunham algumas ideias sobre os objetivos do grupo, as temáticas a serem abordadas e as compreensões sobre as questões levantadas pelas mulheres.
O momento vivencial era dedicado à atividade artística, no qual eram utilizados exercícios de Biodança (dança, música), expressão estética plástica (colagens, pinturas, massinha, costura, etc.). Nos seis primeiros meses, prevaleceu a utilização de exercícios corporais, mesclados com a construção de produções artísticas onde a música era um elemento de “fundo” constante. No segundo semestre de 2009, devido a dificuldade do espaço, prevaleceu na dinâmica grupal a utilização de produções plásticas sem a utilização da música ou de trabalhos corporais. Em outras ocasiões, as sessões focavam apenas o diálogo. Ressalto também que as sessões foram intercaladas com momentos de organização e planejamento para outras ações na comunidade.
De janeiro à junho de 2009 houve uma quebra no funcionamento do grupo, tanto devido as férias dos profissionais, como a posterior dificuldade de encontrar um espaço mais apropriado para sua efetivação. Foi nesse período que houve uma maior dedicação
a organização de outras atividades comunitárias, tais como visitas a área e mutirões. De fato, desde sua concepção original a formação desse grupo buscou objetivos mais amplos, tais como articular-se com outras instituições e grupos atuantes nessa comunidade e ao mesmo tempo ser um espaço chave de organização comunitária. Aí também se podia conhecer necessidades e mobilizar ações comunitárias capazes de influir na transformação da realidade. Assim, a partir da matriz do trabalho nesse grupo, foram se desdobrando inúmeras outras ações, como mutirões de saúde (atendimento médico e mediação com as unidades básicas de saúde de referência), interlocução com a Política de Assistência Social, formação de um grupo de criança, atividade de escuta terapêutica, visitas domiciliares, mutirão para construção da telhoça, dentre outras.
O grupo voltou a funcionar em seu modo inicial a partir de junho de 2009, acontecendo, entretanto, a partir daí, de forma pouco sistemática e instável, devido a já citada dificuldade de espaço. Considero que o trabalho de campo desta pesquisa foi realizado integralmente desde o início do grupo até novembro de 2009, momento no qual se deu novamente uma interrupção em seu funcionamento, devido a uma desmobilização das participantes e a aproximação das festas de final de ano. Neste momento ainda pude participar de reuniões com as facilitadoras que tiveram o objetivo de avaliar o trabalho comunitário e, inclusive, buscar novas estratégias para mobilizar a comunidade e redirecionar as ações no campo.
Devido a estas características e a sua acessibilidade, elegi este grupo para a realização da minha pesquisa, por considerar que ele reúne as condições importantes relacionadas com o tema que busquei investigar. Como já explicitado, o grupo foi formado exclusivamente por mulheres, mas este fato não determinou que a configuração dessa pesquisa focasse especificamente uma questão de gênero. Minha proposta foi assim acompanhar sistematicamente as sessões do grupo, ao mesmo tempo em que busquei inserir-me na vida comunitária de seus participantes, a partir de uma inserção etnográfica.