mética da experiência humana
Tempo Intriga Sujeito
Figura 7: O tempo como mediação da narrativa
A gura demonstra exatamente a necessidade de encontrar uma alternativa à dialética entre mundo vivido e mundo imaginário trazido pelo fenômeno da tem- poralidade. Portanto, redenir a noção de tempo ccional é pensar o tempo na sua singularidade e, também, na pluralidade presente em cada incursão do leitor sobre a narrativa textual. Do ponto de vista da cção, podemos falar, acompa- nhando Ricoeur (1997), de variações imaginativas, que nos levam a experimentar o entrecruzamento do tempo do mundo com o tempo do texto.
A propriedade mais saliente desta síntese sobre a temporalidade é a experiência da saudade, pois tanto as gurações textuais do tempo como a experiência do leitor operam com a categoria do tempo enquanto tempo de passagem entre cção e his- tória. O sujeito ccional não pode ter uma experiência de negação da sua própria condução de sujeito. Ele não está vinculado às marcas temporais dessa experiência nem está submetido homogeneamente a uma única intriga espaço-temporal consti- tutiva do tempo cronológico (RICOEUR, 1997, 218). Através da saudade, o falante no
temporal ctícia desdobra seu mundo, e cada um desses mundos é singular, incom- patível e único (RICOEUR, 1997, 219), o que nos leva à convivência do múltiplo. A
narrativa se regura a cada interação sociocultural, mas, sobretudo, a partir do viés interpretativo, como método de leitura, no qual a narratologia contemporânea se assegura.
Nesta perspectiva, o acento desta abordagem teórica não está em buscar pontos de ligação entre as duas experiências de tempo (tempo do mundo e tempo do texto), mas no trânsito das características não lineares do tempo que o tempo cronológico apaga na intenção de manter com segurança as amarras da estrutura do texto em virtude de garantir o propósito do conceito canônico de narrativa. A nova denição de narrativa trabalha com envolvimento direto do leitor e com a hibridização da experiência de tempo, cuja remitização somente a cção pode realizar.
Todo processo de produção conceitual sobre o tempo assinala a convergência entre o caráter mimético do tempo e a apreensão do conhecimento histórico. Por outro lado, o caráter de signicância que a narratologia contemporânea captura dessa fronteira interpretativa está relacionado com o mundo do texto e o mundo do leitor. Essa dialética se efetiva por meio do texto de cção - documento a ser rastreado, tanto pelo analista do texto como pelo hermeneuta da linguagem, o entremeio desses mundos que será desvelado. Sob o signo da representação, a narrativa está submetida a uma leitura dinâmica através dos sujeitos ccionais e não-ccionais, ou seja, a narrativa é sempre lugar de encontro de sujeitos em diálogo, mesmo que este sujeito seja o outro de si mesmo (RICOEUR, 1991).
O tempo é uma experiência relacional, pelo menos no sentido posto a partir da perspectiva identitária (conceito desenvolvido no capitulo dois), ou seja, a dialética da ipseidade e da mesmidade produz um estado de desguração da própria noção de tempo do mundo, tanto através das instabilidades que ocorrem das irrupções dos leitores como pelas próprias características da intemporalidade6 do ato de pensar. O
tempo ccional é, pois, ferramenta de mediação entre o sujeito e suas ações percep- tíveis. Mediação que acontece não por apreensões fenomenológicas, mas através do signo linguístico. A relação mimética entre os sujeitos da produção e o uso da nar-
6Termo usado por Heidegger (2008) para salientar a interação entre a experiência de tempo com
a perspectiva originária da sua essência. A interpretação da intratemporalidade tanto proporciona uma visão mais originária da essência do "tempo público"como também possibilita delimitar o seu "ser" (HEIDEGGER, 2008, 507).
rativa se explicita na travessia do tempo pelas marcas textuais. Essa reconguração do tempo o torna constituinte mediador da interpretação da narrativa.
A abordagem fundamentalmente hermenêutica da categoria de mediação se con- rma através da mimese do tempo enquanto produtora de sentido no texto. A ação da leitura em torno do texto congurado é o que recongura a obra literária. A signicância da obra literária procede da interseção do leitor ou auditor na medida em que o leitor conversa com um possível autor e esta conversa atravessa o texto por meio de três estratégias; a) a estratégia fomentada pelo autor e dirigida ao leitor; b) a inscrição dessa estratégia na conguração literária e c) a resposta do leitor, considerado quer como sujeito que lê, quer como público receptor (RICOEUR, 1997).
Todas estas estratégias salientam em última instância uma experiência de tempo. A primeira acentua o momento da enunciação, ato do dizer, ou do acontecimento da mensagem. A segunda é o tempo do enunciado, enquanto signo linguístico que cria as condições de possibilidade para a reguração da experiência com o tempo e a última é o tempo regurado no sentido de que o leitor explicita a dialética do tempo do mundo com o tempo do texto.
A função da literatura mais corrosiva pode ser contribuir para fazer aparecer um leitor de novo tipo, um leitor ele próprio desconado, porque a leitura cessa de ser uma viagem conante feita em com- panhia de um narrador digno de conança, e torna-se um combate com o autor implicado, um combate que o reconduz a si mesmo (RICOEUR, 1997, 282).
Aqui, a tese chega a uma produção que vincula diretamente o problema do tempo à experiência do leitor, tido como sujeito dialógico na dialética entre o texto e a leitura, deixando na fronteira da interpretação a cção materializada pelo fato tempo. Esta abordagem sobre o tempo admite certo grau de ilusão, constituinte do caráter polissêmico do tempo, principalmente na obra literária. Esse caráter põe o tempo como imperativo de mediação entre o sujeito e sua ação.
Desta última dialética, que explicita o problema da reguração do tempo no texto ccional, nos enlaces da obra literária, ele não encontra na narrativa seu desenlace por completo. É preciso que o tempo esteja na órbita dos seus pares constituintes (sujeito e intriga) do processo de produção da narrativa.