Por volta de nove da manhã saímos da praça defronte a Capela de Nossa Senhora das Dores em direção ao Horto. Seu Antônio, sua mulher e o neto Francisco, foram de ônibus pela viação Bom Jesus do Horto, única empresa que faz a subida até a estátua e de meia em meia hora. Segui a pé com Cícera, a filha de Antônio e Maria, e seu marido Carlos que estavam pagando promessa por conta de um emprego que esse último conseguiu. A subida da Serra do Catolé, rebatizada de Horto pelo Padre Cícero por conta da sua semelhança com a descrição na bíblia, acepção adotada pelo romeiro que vê em Juazeiro uma terra santa. É uma subida íngreme, feita em piso calçado por pedras irregulares e bem cansativa. Vi muitos romeiros definindo essa subida em tom jocoso dizendo, “- Tô achando que nois desconta pecado! Deus abençoai o nosso desconto!”. Durante a subida podem se contemplar os belos altares das casas do horto, já que é uma prática local cada casa ter seu próprio altar. Nestes altares podem ser visto uma intensa mistura de santos e de entidades que nos faz pensar na religiosidade local, por exemplo, em um só altar vi imagens do: Padre Cícero, Frei Damião, São Francisco, Zé Pilintra, tranca-rua, Maria Padilha, Exus variados, Oxum, Pomba Gíria, Preto Velho, São Jorge, Iemanjá, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, Sagrado Coração de Jesus, Santo Antônio, imagem da beata Maria de Araújo, todos dividindo democraticamente o espaço, seguindo a tradição que vem do tempo da resistência imposta pela população local ao comando eclesiástico.
Durante a subida vamos passando pelas estações que representam o martírio de Cristo são catorze ao todo, cada uma representando um dos momentos finais da via crucis do Salvador. Os romeiros rezam aí, acendem velas, depositam santos quebrados, deixam flores, amarram terços quebrados aos santos e pedem proteção na subida. Conosco não foi diferente, Maria deixou um Frei Damião decapitado e me disse que este era muito cultivado em sua terra, inclusive, cantando uma pequena oração a Frei Damiao: “Ó que grande alegria/ O Padre Frei Damião/ Quando encontrou lá no céu o Padre Cícero Romão/ foi grande a emoção quando ele foi chegando/ meu padinho disse a ele/ eu já estava te esperando/nós vamos morar juntinhos no pé de Nosso Senhor/“. Para muitos romeiros Frei Damião era uma espécie de reencarnação do Padre Cícero ou, de outra forma, era a representação mais próxima que se teve após a morte do Padre Cïcero, já que seguia os passos herdados por Padre Ibiapina e Padre Cícero evangelizando os sertões. Ainda na estação, acendeu uma vela de sete dias e rezamos junto um Pai Nosso e uma Ave Maria, depois prosseguimos nossa subida.
É incessante o número de pessoas subindo e descendo o horto em período de romaria, sobe só, em grupo, vestido de Padre Cícero, vestido de franciscano, vestido de noiva, carregando pedras na cabeça, alguns carregam cruzes, outros levam roupa e comida para dar a população, enfim, a subida é bem rica, principalmente, quando paramos para falar com os moradores que, na sua maior parte, é constituída de migrantes romeiros. São muitas as histórias e algumas muito curiosas. Uma coisa que me chamou a atenção nessas narrativas é o fato da maior parte ser permeadas por visões, sonhos, avisos de que teriam que ir a Juazeiro, como me relatou o Agricultor Sebastião, que afirmou o pai ter ido e voltado a Juazeiro atendendo um chamado do Padre Cícero
Meu pai vinha para Juazeiro. Aí veio e gostou. Aí quando voltou deu vontade de vir morar aqui. Aí os homi disseram: - Dudu vai não. Tu vai matar teus filhos de fome lá. Nem milho lá dá. Meu pai disse que ia porque o padim ciço tava chamando. Oia os mio era cada lapada que dava mais de palmo cada e feijão dá a granel, quando o inverno é bom.
A maioria do povo que mora aí no Horto é composta de agricultores que cultivam uma pequena fatia de terra de propriedade da Igreja em um sistema de arrendamento, no qual se dá uma parcela da produção em troca do uso da terra. É um povo que tira sua subsistência do plantio e do comércio da romaria, já que nessa época vendem artigos de religiosos a lanches, sem falar nas doações que recebem de romeiros. Alguns pedintes me confidenciaram que depois de uma romaria grande como de finados, passam mais de um mês se alimentando apenas com os alimentos que recebem dos romeiros: arroz, feijão, milho, farinha, entre outros. A maioria das casas aí é bem rústica e seus moradores bem humildes. A sujeira aí é intensa, com esgoto a céu aberto e porcos convivendo harmoniosamente entre velhos e crianças, deparar-se com essa realidade chocou Cícera, que apesar de seus pais serem devotos e irem todos os anos a Juazeiro há pelo menos três décadas, era sua primeira vez aí. Tinha migrado ainda adolescente com Carlos para São Paulo, buscando melhor condição de vida e estava ali por propaganda “familiar” e para agradecer a boa vida que estava tendo em São Paulo. No entanto, diante de tudo aquilo que estava presenciando na subida do Horto, desabafou:
Estava conversando com as crianças ali. E o nosso sonho (dela e, provavelmente, estava se referindo a mim também) é ter uma casa, um carro importado e o delas é ter um almoço, comer bem, ter um prato de comida. Isso é revoltante porque tanto político, tanto empresário forte, tanto turista vem aqui e tanta pobreza. É muita pobreza, a cidade é imunda, muita criança carente, passando fome, não tem sequer uma roupa para vestir. Aí você veste uma roupa e vai pagar promessa, como você vai se sentir pagando promessa desse jeito? Se você for olhar as crianças, você nem anda, você não consegue nem andar!
O desabafo de Cícera é procedente, realmente, parece que a intensa pobreza desse lugar faz parte do roteiro religioso, sendo parte do seu convincente cenário. Em todo o tempo que fiquei em campo não vi uma política pública ou ação por parte da Igreja (responsável legal pelo local) para mudar essa situação.