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5. EKSPORT AV SILD
Esta subseção tem o intuito de apresentar os grafemas encontrados na coleta de dados das CSM, a fim de saber se podiam alternar graficamente ou rimar entre si ou não, estabelecendo se, naquela época, havia ou não oposição entre os fonemas representados por esses grafemas, nos contextos de início e de final de sílaba. Ou seja, podemos observar se, naquele momento, os processos de neutralização das fricativas
existiam ou não no português, para estabelecer se esses grafemas representavam sons de caráter distintivo ou não no contexto de início e de travamento silábico.
Nas CSM, encontram-se as seguintes realizações gráficas na posição final de palavras:
as es is os us
az ez iz oz uz
-- -- ix -- --
Quadro 13. Realizações gráficas na posição final de palavra.
No quadro acima, a única ocorrência da letra <x> em final de palavras ocorre depois da vogal <i> - exemplo (46), palavra fix. Como se argumenta mais adiante, muito provavelmente esse <x> não representa uma fricativa alveopalatal, mas uma fricativa alveolar. A diferença entre as letras <s> e <z> poderia lembrar uma oposição do tipo /s/ e /z/, ou seja, uma oposição de sonoridade com as fricativas alveolares. Essa hipótese fica mais reforçada quando se observa que o escriba costuma escrever as rimas nas estrofes, mantendo o final com <s> ou com o <z>, ou mesmo com <x>, para representar o mesmo som fricativo (já que, afinal, as palavras rimam entre si), como foi observado no exemplo (46).
A partir desses exemplos, encontramos diferentes grafias para uma mesma sequência sonora: fis, fiz, fix. Pudemos verificar que, apesar de o significa se alterar, não há oposição fonológica. As diferentes realizações escritas (<s>, <z> e <x>) poderiam indicar algumas variantes fonéticas. Por exemplo, poderíamos achar uma diferença de sonoridade entre (<s> e <z>); ou uma diferença de articulação entre <s>/ <z> (fricativa alveolar) e <x> (fricativa alveopalatal). Podemos levantar a hipótese inicial de que as letras correspondem a um arquifonema fricativo /S/. Como no corpus não aparece qualquer fricativa alveopalatal em posição de coda, podemos concluir que a letra <x> não corresponde a uma fricativa alveopalatal. A diferença de sonoridade entre <s> e <z> só tem sido atestada em posição de onset e não de coda, portanto, a pronúncia mais provável é [fis] e a representação fonológica é /fiS/.
Ainda em relação às palavras fis, fiz, fix, observamos que as diferentes realizações gráficas dessas palavras devem-se também ao contexto em que estão inseridas, ou seja, em um contexto de coda final em que todos os versos da estrofe
apresentam o grafema <s>, a palavra fis também foi escrita com <s>, como em quis, Denis, gris, Paris, para ressaltar a rima. O mesmo ocorre com o grafema <z>, como em diz, Enperadriz, Beatriz, joyz, e com o grafema <x>, como em prix, quix. Notamos, portanto, que a realização gráfica das palavras que apresentam os grafemas <s>, <x> ou <z> em posição de coda final depende do contexto em que está inserida para compor a rima da estrofe.
Outro exemplo em que ocorre esse mesmo caso é das palavras pres e prez, como podemos notar nas cantigas abaixo:
(47)
Cantiga 5
A Emperadriz, que non vos era de coraçon refez, 124 com´ aquela que tanto mal sofrera e nin hua vez, 125 tornou, com coita do mar e de fame, negra como pez 126 mas en dormindo a Madre de Deus direi-vos que lle fez: 127
tolleu-ll´a fam´e deu-ll´hua erva de tal prez39, 128
con que podesse os gaffos todos guarecer. 129 Quenas coitas deste mundo ben quiser sofrer… 130
Cantiga 5
Muitos gafos saou a Emperadriz en aquele mês; 159 mas de grand´algo que poren lle davan ela ren non pres40 160
mas andou en muitas romarias, e depois ben a três 161 meses entrou na cidade de Roma, u er´o cortes 162
Emperador, que a chamou e disso-lle: “Ves? 163 Guari-m´est´irmão gaff´, e dar-che-ei grand´aver.” 164
Quenas coitas deste mundo ben quiser soffrer 165
No exemplo (48), abaixo, as palavras dias/romarias/vigias/vias trazem grafemas relativos a fricativas sibilantes em posição de coda silábica, todos grafados da
39 Segundo Mettmann (1972, p. 246), a palavra prez, escrita com o grafema <z>, significa preço,
substantivo masculino.
40 Segundo Mettmann (1972, p. 247), a palavra pres, escrita com o grafema <s>, refere-se ao verbo
mesma maneira e rimando entre si, o que indica que soavam da mesma forma, naquela época.
(48)
Cantiga 15
Demais fez-lles gejuar três dias 77 e levar gran marteir´e afan, 78 andando per muitas romarias, 79 bevend´agua, comendo mal pan; 80
de noite lles fez teer vigias 81 na eigreja da do bom talan, 82 Santa Maria, que désse vias 83 per que saissen daquel pavor 84
Todo-los Santos que son no Ceo | de servir muito na gran sabor… 85
Portanto, analisando os dados das CSM, podemos afirmar que os grafemas <s>, <x> e <z> aparecem em posição de coda simples, porém não há como comprovar se todos representam uma fricativa alveolar surda, já que não há registros fonográficos da época. Consideremos os seguintes exemplos: dias, romarias, vigias vias, fix, fez, fiz. A hipótese apresentada mostra que houve uma neutralização entre os fonemas /s/ e /z/ na posição de coda final de palavra, seguindo o mesmo modelo de neutralização desses sons em posição medial de palavras. A oposição ocorre em posição de onset, como mostrado anteriormente. Por isso, pode-se representá-los através do arquifonema /S/, assim como fez Câmara Jr. (1989[1970]) para o PB.
Na posição de onset, os segmentos representados pelos grafemas <s>, <z>, <c>, <ç> e <ss> podem ou não estar em oposição fonológica. No caso, o grafema <ss> está em oposição com <s> no contexto intervocálico, já os grafemas <c> e <ç> representam o mesmo som, não estando em oposição. Exemplo disso é a configuração das rimas da vigésima CSM.41
(49)
Cantiga 20