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A princípio, a frente pioneira ajuizava que a maior região produtora de borracha estava na baixa Bacia do Rio Amazonas (atual estado do Pará). Posteriormente, em 1887, a região do médio rio (atual estado do Amazonas) tomava o primeiro lugar de produção. Conforme o avanço gradativo dos grupos de extração, na busca pelo ‘precioso leite’, há uma expansão das fronteiras até o alto dos rios Purus e Acre, regiões então ignoradas pela cartografia sul-americana (GONÇALVES, 1991; PRADO JR, 1973). Apesar das incertezas cartográficas, legalmente, o território explorado era apontado como boliviano devido ao Tratado de Ayacucho, de 1867, que estabelecia o limite entre os dois países “[...] em uma paralela traçada desde a confluência do Rio Beni com o Madeira, a 10º 20’, até as nascentes do rio Javari” (SILVA, 2006, p. 07).

Ao penetrar no interior da floresta amazônica, o movimento dos exploradores brasileiros encontrou uma região opulenta em seringueiras, habitada somente por índios. Ao se fixar nesse território, acabou por iniciar o conflito com os grupos autóctones que, devido à mortalidade decorrente de conflitos com fogo e às epidemias trazidas pelo invasor, morreram ou embrenharam mata adentro, numa tentativa de fuga (GONÇALVES, 1991).

Depois de dizimar e/ou subjugar grande parte das populações indígenas, o confronto seguinte dos homens que comandavam a empresa extrativista foi com os bolivianos e peruanos na disputa pelo domínio político-administrativo do território (PAULA, 2005, p. 42), convocando litígio sobre a propriedade da região mais rica que, em 1899, correspondia a 60% de toda borracha amazonense com uma produção de mais de 12.000 toneladas (COSTA, 1998, p. 40).

A possibilidade de perda dessa porção territorial para o Brasil precipita os problemas de fronteira. Os principais países envolvidos com o litígio pela “fatia mais ‘emborrachada’ do território” são o Brasil e a Bolívia (GONÇALVES, 1991, p. 25). Segundo Gonçalves (1991), o posicionamento dos dois países parece reavivar os litígios da época colonial, quando eram possessões de Portugal e Espanha. Nesse passo, Craveiro Costa (1998) recupera alguns artigos de periódicos bolivianos que bradavam contra o ‘imperialismo brasileiro’ diante dos países vizinhos:

(...) o Brasil teima em impor o seu sistema de não aceitar senão o utis possidetis: de fato, assim tem conseguido aumentar seu território, com menoscabo dos países que herdaram da mãe-pátria os direitos reconhecidos em Santo Ildefonso. Em geral, todos os países americanos têm procedido de outro modo; só o Brasil é cúpido e

22 absorvente e tem usurpado territórios de todos os seus vizinhos (COSTA, 1998, p. 114).

O mesmo discurso de protesto era proferido nos periódicos no Peru, para quem o Brasil desenvolvia “[...] uma política de anexação [...] sem respeito pela moralidade internacional, prosseguindo no fito de usurpar sempre” (idem).

Para reverter a situação de conflito, em 1895, o governo brasileiro concordou em reconhecer as áreas em litígio como pertencentes à Bolívia, de forma a reiterar o Tratado de Ayacucho, de 1867. A partir de então, o governo boliviano iniciou a cobrança de impostos dos seringalistas brasileiros sobre a borracha explorada, que passou a ser exportada para o Brasil. Sob as leis do país andino impostas à região, iniciaram-se as revoltas que, contrariamente aos termos do tratado, alcunharam os bolivianos como usurpadores de terras brasileiras. Cresceu, daí, uma onda de patriotismo na Amazônia contra “[...] a invasão boliviana no Acre”, consolidando o movimento que ficou conhecido como “a Revolução Acreana” (SILVA, 2006, p. 07).

Os vários focos de insurreição contavam com a ajuda financeira do governo do Estado do Amazonas, e fracassaram, principalmente, pela falta de apoio do poder central do Brasil. Porém, em 1901, a constituição de um consórcio de capitalistas ingleses e estadunidenses, denominado Bolivian Syndicate, que passou a controlar as atividades econômicas, fiscais, bem como de segurança das áreas dos seringais, causou um mal estar quanto à soberania sobre os rios da região, tema sensível às áreas diplomática e militar, demandando a intervenção federal brasileiro no conflito (BANDEIRA, 2000).

Para dar fim à série de conflitos na região, que poderiam derivar potencialmente para uma guerra entre os dois países, a diplomacia brasileira propôs a discussão do caso, culminando, em 1903, no Tratado de Petrópolis, que estabelecia a anexação e posse de uma área aproximada de 181 Km2 ao Brasil, mediante indenização de dois milhões de libras esterlinas e o compromisso brasileiro da construção da ferrovia Madeira-Mamoré no intuito de facilitar o escoamento de produtos bolivianos (SILVA, 2006).

Porém, ainda existia o imbróglio quanto às fronteiras com o Peru, na parte norte, na região de Juruá, que foi igualmente turbulenta. Entre outras questões confrontadas, havia a cobrança de impostos por parte das autoridades peruanas. O clímax acontece com a prisão de um tenente peruano, Severo Ramirez, e no combate de uma expedição brasileira com soldados peruanos comandados pelo Coronel José Suarez, o que fez a diplomacia dos dois países entrar em ação, viabilizando a assinatura do Tratado do Rio de Janeiro, em 08 de setembro de 1909, e de protocolos demarcatórios na década seguinte (idem).

23 Para Paula (1991, p. 22), tal contexto forjou um falso sentimento de união entre seringueiros e seringalistas brasileiros no confronto contra o outro, seja a Bolívia ou o Peru, dissimulando as contradições e os conflitos dos interesses presentes no contexto social brasileiro. Ainda para o autor, esse artifício foi “[...] instrumentalizado pelos ‘patrões’ e, conjugado a um forte esquema coercitivo, constituindo-se no principal sustentáculo do regime de dominação engendrado no território acriano, na primeira fase de ocupação econômica”.

Nessa esteira, segundo Ronald Polanco Ribeiro15, neto de Manoel Ferreira Lima, pioneiro cearense da frente da borracha e filho de escravos, a incorporação das novas terras não alterou a vida dos seringueiros, só restando-lhes uma medalha com menção honrosa à Revolução Acreana e ao seu líder, Plácido de Castro, ou seja, “o mérito, mais nada”.