A
natureza, em Galileu, é, como destaca Burtt (1991), um sistema simples e ordenado, no qual todos os procedimentos são absolutamente regulares e inexoravelmente necessários. Sendo assim, “não faz por muitos meios o que pode ser feito por poucos” (p.61). As suas leis nunca são transgredidas, sendo nesta perspectiva imutáveis. Não se preocupa, a natureza, em se fazer conhecida pelo homem, uma vez que sua trama transpõe, independente, perfis finalistas. Quando não a compreendemos, devemos, como afirma o próprio Galileu (1973) abster-nos de procurar explicações em termos de simpatias, antipatias e propriedades ocultas.Há falhas nos sentidos. As suas informações, antes de negadas, devem ser concebidas e reconstruídas em termos de uma codificação proporcionada pela matemática (BURTT, 1991), a
priori que, enquanto virtude racional, corrige as informações dos sentidos e, simultaneamente,
faz-se presente na atomística estrutura corpórea da matéria.
A percepção quantitativa, projeto de construção recente imbricada à nova estrutura sócio- econômica do Ocidente, incrusta-se no olhar galileano acerca da natureza, receptáculo de figuras geométricas, cada vez mais abstraídas na universalização do uso dos algarismos arábicos, ou indu-arábicos, como prefere chamá-los Crosby (1999).
Sem a matemática, a natureza é um labirinto escuro. São as suas demonstrações, não as da lógica escolástica, que proporcionam a chave para desvendar os segredos do mundo. A lógica constitui-se, fundamentalmente, em um instrumento de crítica, sendo a matemática um instrumento de descoberta. Neste sentido, o método da demonstração matemática, fundado na estrutura da natureza, apresenta-se, a Galileu, como independente da verificação sensorial (BURTT, 1992; KOYRÉ, 1991).
O método científico, para Galileu, implica, portanto, na predominância da razão sobre a simples experiência, na substituição de uma realidade empiricamente conhecida por modelos ideais (matemáticos). Há a primazia da razão sobre os fatos, codificando, na matemática dos a
fundamento que antecede e reconstrói a experiência (KOYRÉ, 1991). Em termos bem gerais, como aponta Crosby (1999), ocorre, fundamentalmente, a aplicação do arranjo matemático do mundo platônico sobre as realidades sensíveis de Aristóteles, agora não mais fins em si. Tais realidades sensíveis são aparências, o visível que advém de uma estrutura que escapa ao observador sempre confinado ao imediato da percepção sensível.
Há, com Galileu, de acordo com Koyré (2001), a instrumentalização da ciência, projeto que amplifica a razão para além das qualitativas aparências salvas no arcabouço aristotélico. O telescópio, neste caso, constitui-se em célebre exemplo: de desinteressada invenção holandesa, foi reconfigurado pelo próprio Galileu, que interveio na sua finalidade e consecução lógica, como ele próprio afirma:
E estamos de que o holandês, primeiro inventor do telescópio, era um simples fabricante de óculos comuns que, casualmente manuseando vários tipos de livros, encontrou, ao olhar ao mesmo tempo através de dois deles, um convexo e outro côncavo, colocados a distâncias diferentes do olho, e desta forma, verificou e observou o efeito derivado, e inventou o óculo. Eu, porém, empolgado por este invento, encontrei a mesma coisa, mas por continuidade lógica – e, porque esta continuidade de lógica é bastante difícil, quero explicá-la a V.E. Ilustríssima para que relatando-a, se for o caso, ela possa com a sua facilidade tornar mais crédulos aqueles que, como Sarsi, querer privar-me daquele louvor, qualquer que ele seja, que me pertence (GALILEU, 1973, p.142).
Sarsi, o opositor de Galileu, diria que o telescópio prende-se às aparências, ilude os espíritos com falsas imagens. Tais falsas imagens seriam, justamente, àquelas que poriam fim à imutabilidade do céu medieval, aparecendo, todas irradiantes, na amplificação da visão, vinculada à nova racionalidade, que o telescópio proporcionou. O sentido puro, íntegro da visão é contestado. A parábola de São Paulo, tornado cego para que elevasse a sua compreensão, fazia-se inoperante frente à amplificação do olho, da observação que, antes de uma função biológica da retina, deveria reconduzir à reconstrução da realidade sob o prisma de uma nova metafísica de valores. Nesta perspectiva, o cientista depende, sim, da instrumentalização da visão levada à diante por Galileu, sendo, os limites dos sentidos, contestados.
Sarsi confia tanto no sentido da visão que considera ser impossível ser enganado todas as vezes que tentamos fazer uma comparação entre um objeto falso e um real. Eu confesso não ter a visão tão perfeita, pelo contrário,
confesso ser como aquele macaco que acredita firmemente ver no espelho um outro macaco e não reconhece seu erro se quatro ou seis vezes não tenha ido atrás do espelho para agarrar a imagem, tanto aquela imagem se lhe apresente viva e verdadeira (GALILEU, 1973, p.157).
Poderíamos, através do telescópio, discorrer sobre o céu com muito mais propriedade do que Aristóteles, preso que foi às condições de percepção sensível do homem. É este o argumento da personagem Salviati, no Diálogo de Galileu.
Acrescentai que nós podemos muito melhor do que Aristóteles discorrer sobre as coisas do céu, porque, tendo ele confessado que lhe era difícil tal conhecimento pelo distanciamento dos sentidos, acaba por conceder que aquele a quem os sentidos pudessem melhor representá-lo com, com maior segurança, poderia filosofar sobre o assunto: ora nós, graças ao telescópio, aproximamo-lo trinta ou quarenta vezes mais do que o era para Aristóteles, tal que podemos discernir nele cem coisas que ele não podia ver, entre outras, estas manchas do Sol, que eram par ele absolutamente invisíveis: portanto, podemos tratar do céu e do Sol com maior segurança que Aristóteles (GALILEU, 2000, p.137). Várias são as implicâncias surgidas pelo uso do telescópio. Em um primeiro plano, temos a amplificação de um sentido humano, operante pela junção de teoria científica e o saber técnico de um fabricante de óculo. Instrumento tecnológico, o telescópio potencializa a transposição das aparências, interrogando a natureza em um nível até então desconhecido. Em um segundo plano, dada confiabilidade para as informações trazidas pelo telescópio, verdadeiramente se recria a aparência da realidade, trazendo, nisso tudo, sérios problemas: no entrechoque entre o novo e o velho, a hierarquia cósmica fundada na fusão dos legados aristotélicos e ptolomaicos, tende a ruir, com a agora aparência profunda, geométrica de um espaço de proporções indefinidas e de corpos até então não vistos pela falha de nossos sentidos. Galileu, em carta endereçada a Kepler, explicita, com ironia, os teores deste entrechoque:
Oh, meu claro Kepler, como eu gostaria de que pudéssemos gargalhar juntos! Aqui em Pádua está o professor principal de filosofia, a quem tenho repetida e enfaticamente convidado, a que contemple a lua e os planetas através de minha luneta, mas que se recusa pertinazmente a fazê-lo. Por que não estás aqui? Que explosões de riso teríamos, ante tão gloriosa loucura! E ver também o professor de filosofia de Pisa empenhar-se diante do Grão-Duque com argumentos lógicos, como se fossem passes de mágica, para, por encanto, fazer desaparecer dos céus novos planetas (GALILEU apud BURTT, 1991, p. 63).