Para discussão do conceito de representação da informação, adota-se uma perspectiva que expõe a tensão existente entre um modelo representacionista da realidade e um modelo aqui defendido e que denominamos de modelo linguageiro. O modelo representacionista que sustenta as abordagens cognitivistas vê a realidade como dada e exterior ao sujeito cognoscente, e o modelo linguageiro percebe a realidade como construída socialmente. A visão da realidade e, por consequência, da representação da informação é radicalmente distinta nos dois modelos.
O modelo representacionista7 pressupõe a existência de um mundo anterior à
experiência do indivíduo, cujos objetos e propriedades podem ser captados e representados em sua mente. O indivíduo, então, com as capacidades cognitivas adequadas, age com base nessas representações simbólicas de características ambientais extrínsecas, com vistas a resolver problemas que lhe são apresentados. A cognição é vista em termos representacionais e computacionais, ou, dito de outra forma, como a constituição e manipulação de modelos mentais que representam o mundo e medeiam, ou filtram, a informação (VARELA; THOMPSON; ROSCH, 1991). De maneira geral, quatro premissas caracterizam o modelo representacionista: (i) o mundo é predefinido e suas propriedades são independentes da percepção e da atividade cognitiva dos sujeitos, que se contentam em recuperar ou em reconstituir uma realidade extrínseca; (ii) acredita-se que exista uma separação clara e nítida entre as descrições e as representações, de um lado, e a realidade, do outro; (iii) a atividade cognitiva constitui a construção e a validação de representações adequadas das propriedades do mundo real predeterminado, seja com a ajuda da língua ou qualquer outro artefato; e (iv) decorrente da premissa anterior, sendo o mundo predefinido e independente de toda atividade linguística, a linguagem serve
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Os pressupostos desse modelo embasam a perspectiva cognitivista que serviu e ainda serve de orientação para as mais diversas áreas de pesquisa. A utilização de seus princípios foi tão intensa que ele é, por vezes, tomado como a própria ciência cognitiva. A partir da década de 70, algumas das direções mais produtivas dos estudos informacionais na ciência da informação foram (e ainda são) realizadas sob a perspectiva dessa abordagem, cujas expressões mais significativas são os estados anômalos do conhecimento de Belkin; Oddy e Brooks (1982, 1982a) e o mentalismo de Brookes (1980).
apenas para designar as entidades do mundo e para construir representações adequadas de suas propriedades.
O que está em jogo nesse modelo é a correspondência do esquema da representação a uma realidade extrínseca ao sujeito. Assim, baseado no modelo representacionista, a indexação constitui-se como um procedimento capaz de assegurar a estabilidade do referente – objetos de uma realidade exterior, durante sua transferência entre os autores e os leitores. Desta forma, a estabilidade referencial corresponde à estabilidade linguística, ou, dito de outra forma, como o mundo é estável, é suficiente identificar os objetos sempre pelos mesmos termos ou descritores (AMAR, 1997).
De maneira oposta, o modelo linguageiro, aqui defendido, compreende a realidade como um construto social. Quando se efetua essa mudança de perspectiva, a representação da informação não constitui mais um processo no qual os objetos de um mundo real predefinido tornam-se mutuamente manifestos, mas uma atividade conjunta de construção e modelagem de uma realidade comum, de um ponto de vista compartilhado, de uma configuração recíproca da linguagem que emerge na interação com os outros e com o mundo (BERGER; LUCKMANN, 2004; TUOMINEN; SAVOLAINEN, 1997; MATURANA, 1997, 1998, 2001). O querer dizer e aquilo a que se faz comumente referência são emergências; eles originam de uma ação coordenada, que é mediada pela situação, pelo espaço temporal, pelas conversações linguageiras, pelas práticas sociais, pela terminologia, pelos conceitos e pelas significações compartilhadas.
Superado o dualismo do modelo representacionista, a linguagem e a realidade deixam de se relacionar como duas ordens independentes. Contrariamente ao modelo anterior, o modelo linguageiro atribui à linguagem uma dimensão constitutiva, e não mais uma dimensão representativa. Em outros termos, compreender uma linguagem e representá-la não implica instituir as condições de estabilidade e de equivalência de representações linguísticas de uma realidade externa, mas sim compreender as atividades sociais que ela integra e como tal linguagem possibilita a articulação das práticas e das relações entre os sujeitos em uma determinada situação de uso.
Sob essa perspectiva, Amar (2004) ressalta a importância da dimensão discursiva na indexação8. Segundo a autora, a indexação pode ser vista como uma operação
de contextualização realizada em dois tempos: uma descontextualização do documento em relação ao seu contexto de produção, de um lado, e uma recontextualização em relação ao seu contexto de utilização, por outro. Neste sentido, o documento é compreendido como um enunciado que permite estabelecer um link entre a fonte de onde ele provém e a representação originada de uma atividade linguageira na situação onde ele é utilizado.
Neste momento, destaca-se a primordial importância da discussão do conceito de
documento na tentativa de fazer aproximações entre as diversas conceitualizações
e perspectivas sobre representação apresentadas até então. Sem objetivar uma discussão extensa sobre as inúmeras conceitualizações sobre o termo, que se distancia do objetivo desta tese, tomamos como ponto norteador o estudo colaborativo realizado por Roger T. Pedáuque9, que se propõe a investigar a noção de documento e sua transição para o formato eletrônico.
Na discussão apresentada por Pedáuque (2003), é sugerida uma tipologia para pesquisa de documentos que agrupa três coexistentes definições para o termo: (i) documento como forma, representado pela equação “documento = suporte + inscrição”, na qual o documento é visto principalmente como um objeto material ou imaterial, ou, dito de outra maneira, uma espécie de container que reúne e estrutura o conteúdo de forma a torná-lo mais fácil para a compreensão do leitor e que privilegia o formato e os aspectos estruturais e materiais do documento; (ii) documento como signo, expresso pela equação “documento = inscrição + sentido”, que considera o documento como portador de sentido, dependente do contexto de recepção e condições de interpretação. Nesta perspectiva, agrega-se um componente interacional, na qual o usuário interage com o documento, estabelecendo sua leitura e compreensão; e (iii) documento como meio, simbolizado pela equação “documento = inscrição + legitimidade”, que analisa o documento
8 Nas seções seguintes é apresentada a proposta da autora que diferencia a indexação lexical da indexação discursiva.
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Nome dado ao autor coletivo da obra “Le document à la lumière du numérique” e dos três textos incluídos na coletânea: “Document: forme, signe et médium, les re-formulations du numérique” (PÉDAUQUE, 2003); “Le texte
en jeu. Permanence et transformations du document”, (PÉDAUQUE, 2005) e “Document et modernités” (PÉDAUQUE, 2006).
como um fenômeno social, um vetor de comunicação entre pessoas e enfatiza o papel social que o documento exerce como “um traço construído ou encontrado, de uma comunicação que existe fora do tempo e do espaço” (PÉDAUQUE, 2003, p. 3). Segundo os autores, discutir sobre a noção de documento envolve, necessariamente, pensá-lo em termos de contratos de leitura a ele vinculado. Assim, no documento como forma, o contrato estabelecido entre o leitor e o produtor é o da legibilidade que estabelece o documento como um objeto de comunicação estruturado com certos elementos regulares suficientes para serem descritos por regras de formalização criadas para tal propósito. Por outro lado, o contrato da compreensão, estabelecido pelo documento como signo, é importante para compreender os documentos como objetos informativos. O terceiro contrato de leitura – da sociabilidade – preocupa-se com o documento como uma evidência da atividade humana e o insere nas relações sociais.
Atualmente, reivindica-se uma abordagem cada vez mais interpretativa, que integra a ideia de desmaterialização do documento, dada a sua relativização enquanto dispositivo informacional e sua inscrição em um dado tempo histórico, construído em comunidades discursivas em situações de uso.