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1- Uma unidade civilizacional múltipla
«Eventually, all things merge into one, and a river runs through it.» Norman Maclean
Distante no tempo e perdida no espaço, a civilização mesopotâmica apresenta- se como algo difícil de definir e caracterizar, não obstante os quase dois séculos de estudos contínuos e aprofundados, que cruzam o labor arqueológico, filológico e histórico1. A redescoberta desta civilização, no século XIX, proporcionou uma ligação tangível à sua essência, algo que até então só podia ser parca e parcialmente alcançado, através dos relatos produzidos por outros actores históricos que com esta, de alguma forma, contactaram2. No entanto, não devemos ingenuamente acreditar que o vasto e heterogéneo conjunto de fontes directas ao nosso dispor, a partir da centúria oitocentista, constituem uma via para um total entendimento ontológico do homem mesopotâmico. Pelo contrário, ao nosso alcance está apenas uma representação, um fragmento da sua existência.
1 Obviamente, outras disciplinas contribuíram e contribuem para o desenvolvimento dos estudos em
torno da civilização mesopotâmica, como foi explanado na introdução deste trabalho. A menção apenas destes três campos científicos não traduz, de forma alguma, uma negação ou uma hierarquização do contributo de um campo em detrimento de outro. Pretende-se apenas dar relevo às disciplinas, que a partir de Oitocentos, foram pioneiras no desenvolvimento do conhecimento da Mesopotâmia.
2 As fontes indirectas que permitiram que a civilização mesopotâmica escapasse ao oblívio histórico são,
em primeiro lugar, os textos clássicos e os da tradição vetero-testamentária, extremamente difundidos e objectos de uma profunda exegese no mundo ocidental, ab origene. No entanto, a este conjunto devemos acrescentar os relatos dos viajantes europeus que, durante a Idade Média e Moderna, percorreram a região tradicionalmente designada por Próximo e Médio Oriente. Estes homens, com diferentes motivações para a sua passagem por aquele território (políticas, religiosas, militares, comerciais, ou mesmo guiados por um espírito puramente aventureiro), foram registando nos seus diários os vestígios, maiores ou menores, que encontraram e identificaram como pertencentes a um passado longínquo e, sem dúvida, repleto de mistérios.
A primeira narrativa deste género, da qual temos conhecimento, é da autoria de Benjamín de Tudela, um rabi oriundo de Navarra, que durante cinco anos (1165-70) percorreu a Síria, a Mesopotâmia e o Egipto, e cujas descrições no seu Libro de viajes, apresentam ainda hoje dados interessantes para o investigador actual, nomeadamente no que diz respeito à localização de sítios e monumentos. Cf. Juan Luis Montero Fenollós, Breve Historia de Babilonia, Madrid, Ediciones Nowtilus, 2012, pp. 20-21.
A historiografia recente tem-se debruçado sobre estes relatos, existindo vários estudos publicados nos últimos anos. Veja-se, sobre a temática, e a título de exemplo: Joaquín Córdoba, «Viaje, hallazgos y fortuna de dos viajeros europeos del siglo XVII en Íran. Garcia de Silva y Pietro della Valle», Isimu-
Revista sobre Oriente Próximo y Egipto en la Antigüedad, nº 14-15, 2011-2012, pp.165-218; Rui Loureiro,
Vasco Resende (coords.), Estudos sobre Don García de Siva y Figueroa e os «Comentarios» da embaixada
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Sem nos alongarmos muito sobre a discussão em torno da crítica ao conhecimento da História, convém lembrar que esta, como qualquer outra ciência, constrói-se a partir de hipóteses, de questões que se colocam aos dados que, num determinado momento, estão disponíveis ao seu operário. Porém, aos mesmos dados podem ser colocadas diversas questões, e aqueles podem ser reconfigurados de diversas formas para responder a uma mesma hipótese, dependendo sempre do ponto de vista de cada historiador, que responde, inevitavelmente, às suas idiossincrasias. No limite, existe sempre uma forma alternativa de construir a história, como Wittgenstein tão bem resumiu, na sua crítica à proposta de hipóteses “evolucionárias” de Sir James Frazer: «an historical explanation, an explanation as an hypothesis of the development, is only one kind of summary the data - of their synopsis. We can equally well see the data in their relations to one another and make a summary of them in a general picture without putting it in the form of an hypothesis regarding the temporal development».3
No caso específico da história da Mesopotâmia, temos ainda de contar com os dados perdidos, destruídos pela acção do tempo e do homem; contar com os novos dados que podem surgir a qualquer momento, fruto de uma nova expedição arqueológica ou do trabalho filológico ainda em curso e, por isso, não publicado e indisponível ao investigador. A isto, devemos adicionar a cultura material do Neolítico, muito fragmentada e fragilizada4, cujo estudo se baseia, necessariamente, no encontro
3 L. Wittgenstein, Remarks on Frazer’s Golden Bough, Retford, Brynmill, 1979, p. 8.
4 Esta fragilidade está marcada tanto pela parca quantidade de dados disponíveis, como pela existência
diminuta de estudos realizados (variáveis que se interligam). Não devemos esquecer que, durante o século XIX e grande parte do século XX, as expedições arqueológicas desenvolvidas em território mesopotâmico e zonas adjacentes, eram norteadas para as descobertas monumentais e marcadas pelo roteiro bíblico, relegando para um plano infinitamente secundário, o interesse pelas comunidades pré- históricas na área. Por outro lado, a própria evolução da ciência arqueológica levou o seu tempo, no que toca ao aperfeiçoamento das suas metodologias e técnicas, para que fosse possível realizar um estudo mais elaborado para os estratos neolíticos. Obviamente, a tendência mudou nas últimas décadas do século XX, com a realização de expedições focalizadas neste período da história humana e, consequente, publicação de estudos. No entanto, a “destruição” dos arqueossítios efectivada nos inícios da Arqueologia, aliada à constante turbulência política e conflitos armados no Próximo e Médio Oriente, traduzem-se numa factura elevada no que aos dados e estudos do Neolítico dizem respeito.
Uma última nota prende-se com as reservas que sentimos quanto ao uso da expressão pré-história, pois aparenta negar história às sociedades prévias à invenção da escrita, assim como indicia uma certa hierarquização entre sociedades mais e menos evoluídas. Recorremos à mesma por uma questão de sensibilidade redaccional, recusando o peso negativo que acarreta.
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de paralelismos materiais e simbólicos. Devemos, ainda, somar o que se perdeu na oralidade, os actos e reflexões que nunca foram transpostos para o registo perene da escrita. E, como se o acima inumerado não detivesse já um peso desmedido, devemos ter em conta que os documentos mesopotâmicos estão redigidos em duas línguas mortas, o sumério e o acádico, e que como tal é impossível atingir o verdadeiro, o total significado que aquelas palavras detiveram para o homem de então. Jean Bottéro diz mesmo que não pode considerar que traduz um texto mesopotâmico, mas antes que transpõe, i.e., que procura na sua língua as palavras mais apropriadas para provocar no leitor actual um efeito o mais próximo possível àquele que as palavras originais provocaram nos leitores mesopotâmicos5. Em suma, ao estudar a civilização mesopotâmica, devemos adicionar aos limites próprios da ciência histórica, as restrições que advêm do imenso intervalo entre o seu fim e a sua redescoberta contemporânea.
Este intróito, que quase podemos apelidar de pessimista, serve o propósito de justificar, em termos gerais, o porquê de termos começado por mencionar a dificuldade em definir e caracterizar a civilização mesopotâmica, tarefa que nos propomos realizar, em primeiro lugar. Outros obstáculos, mais específicos, irão surgir, mas acreditamos que um quadro geral pode ser delineado, através de uma estratégia que se alicerça na decomposição da complexidade inerente a esta civilização, nas suas várias facetas. Não perdendo de vista o horizonte do presente trabalho, o objectivo desta primeira parte é o de apresentar as principais linhas condutoras da civilização mesopotâmica, a sua multiplicidade e unidade e a forma como este binómio se articulou para manter uma coesão civilizacional orgânica, ao longo de três mil anos. Esta avaliação será realizada em dois tempos, o primeiro focado nos aspectos geográficos, económicos e sociais; o segundo, centrado no sistema religioso mesopotâmico. Para iniciar esta jornada, afigura-se que o mais sensato é começar pelo básico: a que corresponde a expressão “Mesopotâmia”? Em que moldes essa definição dá sentido à sua história?
5 Cf. Jean Bottéro, Samuel Noah Kramer, Lorsque les dieux faisant l’homme, Paris, Éditions Gallimard,
1989, p. 17. Embora esta obra seja o produto de um trabalho conjunto de Bottéro e Kramer, devido à morte deste, Bottéro assume-se como responsável final pelas conclusões apresentadas, sendo por isso o seu nome o que irá figurar no presente trabalho, quando a evocarmos. Idem, p. 18.
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Figura 1: Mapa do território do Médio Oriente nos alvores do II milénio a.C. 6.
Para além dos acidentes geográficos, que balizam o «território de entre-os-rios», é possível identificar alguns dos centros urbanos que se distinguiram ao longo da história da civilização mesopotâmica.
6 Cf. Annie Caubet (coord.), «Le Code de Hammurabi et les trésors du Louvre», Dossier d’Archeologie, n.º
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1.1- A geografia como determinante no processo de neolitização
Mesopotâmia é, em primeiro lugar, um conceito geográfico. A sua raiz etimológica vem do grego e significa literalmente “entre os rios”, ou seja, por Mesopotâmia, em sentido estrito, entende-se a região delimitada pelos rios Tigre e Eufrates. No entanto, o conceito é mais amplo, significando toda a região banhada e marcada por estes dois cursos fluviais e seus principais afluentes (Dyala e Zab Superior e Inferior para o Tigre, Khabur e Balikh para o Eufrates), que corresponde, grosso
modo, ao actual Iraque e à parte norte e oriental da actual Síria. De sublinhar que os
seus habitantes nunca denominaram o seu território desta forma, tendo este termo sido cunhado, mais tarde, pelos eruditos helenísticos7. As populações que habitaram a área, ao longo do tempo, identificaram-se de variadas formas, umas seguindo uma ligação familiar e/ou de afinidade social, outras através de uma união político- ideológica, ou ainda cultural, para citar algumas categorias 8 . A expressão correspondente a “país” existia tanto em sumério (kalam) como em acádico (mâtu) e
7 Cf. Juan Luis Montero Fenollós, op. cit., p. 32.
8 Note-se que esta categorização é artificial, pois um grupo populacional poderia identificar-se sob o
signo das várias formas de ligação acima enunciadas. Explicitando, um dos grupos de populações nómadas que viviam na região nordeste da Síria, pelo menos a partir III milénio a.C., identificava-se como bensimalitas. Estes formavam uma tribo que se reconhecia por laços familiares, mas também por afinidades socioeconómicas, culturais e mesmo políticas. Anne Porter mostra reservas quanto ao uso do termo “tribo”, pois este conceito implica, tradicionalmente, uma ligação política e familiar, quando a realidade pode ser mais estrita ou abrangente que isso. Cf. Anne Porter, «Beyond dimorphism: ideologies and materialities of kinship as time-space distanciation», in Jeffrey Szchuman (ed.), Nomads,
Tribes, and the State in the Ancient Near east - cross disciplinar perspectives, Chicago, The Oriental
Institute of the University of Chicago, 2009, pp. 202-203.
Jeffrey Szuchman, seguindo uma linha de raciocínio semelhante, considera que, tendo o conceito de tribo já sido entendido tanto como sistema cultural, político, económico, e de tantas outras formas, talvez fosse mais eficaz defini-lo por aquilo que não é. Sublinha ainda a posição de uma corrente forte entre os antropólogos e arqueólogos que se inibem de usar este termo, preferindo antes utilizar a expressão “heterárquia comunal”, quando se referem a tribo no sentido de sistema social. Cf. J. Szchuman, «Integrating approaches to Nomads, Tribes and the State in the Ancient Near East», in J. Szchuman (ed.), op. cit., p. 4.
A escolha de um exemplo nómada para explicitar a forma como as populações se poderiam identificar na Mesopotâmia foi intencional, pois, como veremos, a presença de grupos com cariz nomádico será uma constante no território mesopotâmico, sendo que se assumem como forças integrantes e motrizes do processo civilizacional ali desenvolvido.
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temos registos de que ambas eram usadas amiúde nos textos, para designar o espaço geográfico delimitado pelos dois rios9.
As fronteiras naturais desta vasta área eram pouco precisas: os desertos arábico e sírio, a ocidente, demarcavam a Mesopotâmia da costa siro-palestinense; os montes Zagros, a oriente, separavam o território do planalto iraniano; a norte, as montanhas do Taurus delimitavam a fronteira com a Anatólia; e, por fim, a sul, o Golfo Pérsico surgia como uma divisão com os territórios costeiros desta região marítima. Estas fronteiras não constituíam obstáculos intransponíveis, muito pelo contrário, eram bastante permeáveis à passagem de populações, ao invés do que se passava no Egipto, que se via quase que enclausurado pelos desertos, a este e oeste, e pelas Cataratas de Assuão a Sul, tendo como único mas grande ponto de saída/entrada o delta do Nilo, a norte.
O seu significado primeiro apresenta a Mesopotâmia como um conceito geográfico, definido por dois grandes cursos fluviais e seus afluentes, com fronteiras permeáveis, que proporcionavam o contacto fácil com as regiões vizinhas. Daqui podemos partir para uma definição dupla, uma de cariz mais ecológico, outra de cariz comercial.
As mudanças climatéricas que se deram a partir de 10.000 a.C., data que marca o final da última glaciação, originaram mudanças no ecossistema mundial, tendo acelerado o processo de neolitização, em várias regiões. No que diz respeito à Mesopotâmia, estas mudanças permitiram que o caudal dos rios aumentasse, que as temperaturas se tornassem mais amenas e que a precipitação fosse abundante, o que proporcionou a existência de uma flora e fauna autóctone rica, além de uma forte irrigação dos solos, tornando-os propícios à prática agrícola e à criação de gado10. Estas
9 Cf. Juan Luis Montero Fenollos, op. cit., pp. 32-33; Joaquín Sanmartín, José Miguel Serrano, Historia
Antigua del Próximo Oriente: Mesopotamia y Egipto, Madrid, Adiciones Akkal, 1998, p. 11.
10 Jacques Cauvin, centrando-se na região do Próximo Oriente, que identifica como a península da
Anatólia e o Levante (Síria, Líbano, Israel e Jordânia), evoca estas mudanças climatéricas como suaves e como um dos motivos para o desenvolvimento do processo de neolitização na área, quando em comparação com a Europa, onde a subida agressiva do nível do mar e as temperaturas ainda muito baixas, impediram uma tão “rápida” passagem para o Neolítico. «At that time, 12,000 years ago, the people of Near East as far as their neolithization is concerned, had already known for several millennia exceptionally clement natural conditions: they were sheltered from the most severe variations of temperature, from destructive marine transgressions which elsewhere accompanied the ruse in sea-
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condições climatéricas e ecológicas excepcionais tornaram o território mesopotâmico atractivo para a fixação dos grupos humanos, que ali poderiam encontrar os meios necessários a uma subsistência tranquila e autónoma.
O facto do Tigre e do Eufrates serem navegáveis permitia, ainda, um fluxo constante entre as áreas meridionais e setentrionais, facilitando o contacto interno, mas também o externo, pois através dos rios chegava-se aos territórios mais a norte, onde passavam rotas comerciais, que cruzavam regiões tão longínquas como as do actual Paquistão e Afeganistão, com a costa siro-palestinense, e que comercializavam produtos em défice na região mesopotâmica (como metais, pedras preciosas, madeiras de qualidade, para evocar apenas alguns exemplos). De notar que estes contactos também eram efectuados a sul, por via marítima, desde o vale do Indo, através do Golfo Pérsico11. Ou seja, o território mesopotâmico, desde muito cedo, reuniu as condições necessárias para se afirmar como uma plataforma giratória comercial, que não só colocava em contacto as regiões imediatamente vizinhas, como as mais longínquas12. Se pensarmos em grande escala, podemos claramente observar que a sua posição privilegiada permitia um contacto desde o vale do Indo ao
levels, because the coastal chain of hills of the Levant protected the hinterland (…)». Cf. Jacques Cauvin,
The birth of the Gods and the origins of Agriculture, Cambridge, Cambridge University Press, 2000, pp.
XV, 11-12.
11 Sanmartín faz ainda alusão a uma rota terrestre que partia do vale do Indo e que passava por vários
entrepostos da costa oriental do Golfo Pérsico, até chegar ao sul da Mesopotâmia. Cf. Joaquín Sanmartín, Jose Miguel Serrano, op. cit., p. 127.
12 Embora estas rotas comerciais já estejam atestadas para o V milénio a.C., várias outras evidências
indicam-nos o desenvolvimento contínuo destes contactos comerciais. A título de exemplo, para o III milénio a.C., evocamos uma estatueta de um touro e um friso em cobre, ambos encontrados em Tell el- ‘Ubaid, no templo dedicado à deusa Ninhursag, datado de c. 2600 a.C., e estantes no British Museum. Os investigadores apontam que o cobre, metal escasso no território, seria proveniente do actual Omã ou do actual Irão. O Louvre, por seu lado, exibe a estatueta de Ebhib II, um superintendente da cidade de Mari, encontrada no templo dedicado a Ištar, naquela urbe, e datada de c. 2400 a.C. Note-se que os olhos da estatueta são de lápis-lazúli, pedra preciosa que não se encontrava no território mesopotâmico, sendo importada da região do actual Afeganistão.
Cf. http://www.britishmuseum.org/explore e http://www.louvre.fr/ [Junho 2015].
Por outro lado, temos dados que atestam o contacto com o Egipto, em busca do ouro africano; ou com a ilha do Chipre, para receber o seu cobre. Este comércio era realizado através das cidades da costa siro- palestinense, como por exemplo Ugarit ou Biblos. Cf. Michael Hudson, «Entrepeneurs: From the Near East takeoff to the Roman Collapse», in, David S. Landes et al. (eds.), The Invention of
Enterprise: Entrepreneurship from Ancient Mesopotamia to Modern Times, Princeton, Princeton
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Mediterrâneo, podendo funcionar como uma espécie de economia-mundo13. Esta posição favorecia, sem dúvida, o fluxo comercial, mas de igual modo tornava favorável a sociabilidade entre os diversos grupos populacionais. Assim, à facilidade em efectuar trocas de bens, aliava-se a facilidade de realizar trocas tecnológicas, sociais e culturais, promovendo o enriquecimento ontológico de uns e de outros.
Tendo em conta estas condições geográficas e ecológicas, que propiciam o desenvolvimento comercial, não é de estranhar que o território mesopotâmico se tenha tornado, desde muito cedo, um pólo atractivo para o estabelecimento de grupos populacionais, como atrás foi referido, e que estes tenham caminhado a passos largos para um processo de neolitização. Para Cauvin, a transição entre uma forma de vida pautada pela recolecção para uma forma de vida baseada na agricultura aconteceu, primeiramente, na região do Próximo e Médio Oriente, entre 12.500 e 6700 a.C. O autor enfatiza o papel pivot da cultura material Natufiense, presente ao longo do Eufrates, Levante e Sinai, entre 12.500 e 10.000 a.C. Embora o cão fosse o seu único animal domesticado, estabeleciam-se já em pequenas comunidades nas faixas costeiras ou junto aos rios, sendo que as suas necrópoles apresentavam uma certa elaboração no que diz respeito à deposição de ornamentos. Sendo o estilo de vida predominante o nomádico, o autor encontra aqui as raízes da revolução neolítica protagonizada, mais tarde, por grupos sedentários14.
13 A expressão economia-mundo ou sistema-mundo foi utilizada por Fernand Braudel na sua explanação
em torno da evolução económica, material e capitalista do mundo europeu, desde o século XV ao século XVIII. Em termos gerais, Braudel entendia que quando uma região autónoma passava a funcionar como um centro de trocas comerciais, relacionando-se economicamente com regiões periféricas, estaríamos perante uma economia-mundo. Estas suceder-se-iam, tendo por isso um tempo contado de existência. Nesta perspectiva, Lisboa, durante o século XVI funcionou como uma economia-mundo; tendo substituído o protagonismo de Veneza, no século precedente, e sendo substituída por Amesterdão e Londres, nas centúrias seguintes. Obviamente que a utilização da expressão cunhada por Braudel é um pouco anacrónica quando aplicada à Mesopotâmia, embora o autor tenha referido o sistema de trocas das cidades fenícias ao longo do Mediterrâneo, durante o I milénio a.C., como uma primeira economia-