b) Análise da nota (81)
(81) A COPA É NOSSA
E finalmente saiu o anúncio. Fortaleza é uma das 12 cidades brasileiras que terão a honra e o prazer de sediar a Copa do Mundo de 2014 no Brasil. As outras 11 escolhidas foram Belo Horizonte/MG, Brasília/DF, Cuiabá/MT, Curitiba/PR, Manaus/AM, Natal/RN, Porto Alegre/SC, Recife/PE, Rio de Janeiro/RJ, Salvador/BA e São Paulo/SP.
Agora, um lembrete: as subsedes ainda podem ser alteradas se não cumprirem com o planejamento da Fifa. Quem não respeitar o que foi entregue no caderno de encargos pode sair. (Diário do Nordeste, 01/06/2009)
Em correspondência aos elementos composicionais da construção da nota, fizemos nossa análise da seguinte forma:
- Move 1: Análise retórica: Identificar a nota
PASSO 2B: Identificar aspecto mais saliente (A COPA É NOSSA)
- Redes referenciais no movimento retórico 1
- Processos sociocognitivos de referenciação no move 1 Introdução referencial “A Copa” – predicação: nossa.
- Descrição das relações entre os referentes na apresentação de “Brasil”
A nota se inicia com uma relação entre os elementos preditivos “a Copa” (R1) e sua predicação de noção espacial “nossa”, envolvendo referentes implícitos: o Brasil e os brasileiros (R2), o que irá, um pouco adiante, especificar os lugares brasileiros nos quais se passará a Copa. Conforme já bastante frisado nos capítulos teóricos, o conhecimento
R1 (ELEMENTO DO FATO CENTRAL) - A Copa
R2 (ELEMENTO ESPACIAL LIGADO AO FATO CENTRAL) - nossa (no Brasil/os brasileiros) implícitos
sociocultural que os leitores dividem entre si e com os produtores do texto vem a ser fundamental para a coerência.34 Neste caso, o jornalista do Diário do Nordeste acima compartilha, de modo tácito, com seus leitores tanto as experiências sobre a Copa do Mundo quanto a sua localização geográfica no Brasil, vindo a enfatizar a cidade de Fortaleza como uma das cidades da Copa. O referente “Brasil”, embora não tenha sido mencionado já no título, evoca, de antemão, o conhecimento socializado sobre essa perspectiva de realização dos jogos da Copa neste país, o que evoca, por extensão, os brasileiros.
Convém apenas esclarecer que conhecermos previamente certos referentes dados no título da nota não nos garante prever sua função no plano retórico do texto. Isto porque se trata de duas noções diversas: uma é a de conhecimento prévio de determinado referente, por exemplo, o que é a Copa do Mundo, ou os Jogos Olímpicos. Outra noção é a de sua funcionalidade nos textos em uso, na medida em que não sabemos que categoria de rede referencial a Copa ou as Olimpíadas pode ocupar no texto, como por exemplo, o papel do desencadeador do fato central, ou de elemento afetado pelo fato. O que podemos realizar são inferências acerca de tais elementos que podem ser ou não corroboradas durante a leitura da nota. Temos como exemplo disso a expressão “A Copa é nossa”, a qual fornece indícios de que a nota tratará da Copa como temática, funcionando também como um elemento-síntese do fato central (R1). Com base nisso, a segunda rede (R2), também ligada ao fato central e objeto de discurso por nós tomado para análise, ocupa um posto de grande importância temática dentro da nota, além de atribuir ao fato uma informação geográfica, no desenrolar da notícia, consoante se verá na unidade retórica a seguir.
- Modo de apresentação de “Brasil” e “subsedes” no move 1
Aqui o referente Brasil é apenas sugerido indiretamente, por meio da menção ao fato da Copa acontecer no Brasil, iniciando-se, simultaneamente, a construção das subsedes da Copa. A introdução implícita de “Brasil” é feita por meio do elemento espacial “nossa” (dos brasileiros), que, implicitamente, remete ao Brasil e, por extensão, aos brasileiros e às subsedes onde serão realizados os jogos, com ênfase sobre a cidade de Fortaleza.
- Move 2 - Análise retórica: Sumarizar a nota
34 Essa estratégia de apresentar entidades de notícias como algo já conhecido ou esperado pelo interlocutor é bastante recorrente, segundo Van Dijk (2012).
(Passo 1: Citar o fato) E finalmente saiu o anúncio.
(Passo 2B: Citar o elemento afetado pelo fato) Fortaleza é uma das 12 cidades brasileiras que terão a honra e o prazer de sediar a Copa do Mundo
(Passo 2C: Situar o fato) de 2014 no Brasil.
(Passo 2B: Citar o elemento afetado pelo fato) As outras 11 escolhidas foram Belo Horizonte/MG, Brasília/DF, Cuiabá/MT, Curitiba/PR, Manaus/AM, Natal/RN, Porto Alegre/SC, Recife/PE, Rio de Janeiro/RJ, Salvador/BA e São Paulo/SP.
- Redes referenciais no move 2
Redes referenciais no movimento retórico 2:
- Processos sociocognitivos de referenciação no move 2
Anáfora direta (encapsuladora) do referente do fato: “o anúncio” (R1);
Anáfora indireta de Brasil pela anáfora “Fortaleza”, junto à sua predicação “uma das12 cidades brasileiras que terão a honra e o prazer de sediar a Copa do Mundo” (R2) E (R3);
Anáfora indireta de Brasil pela predicação de Fortaleza: “uma das 12 cidades brasileiras que terão a honra e o prazer de sediar a Copa do Mundo” - (R2) E (R3);
Anáfora direta da Copa: “a Copa do Mundo” (R1); Anáfora indireta do fato “(o ano de) 2014” (R4); R1 (FATO CENTRAL) O anúncio (sobre a Copa do Mundo)
R2 (ELEMENTO ESPACIAL) e R3 (ELEMENTO AFETADO PELO FATO) Fortaleza - uma das 12 cidades brasileiras que terão a honra e o prazer de sediar a Copa do Mundo R4 (ELEMENTO TEMPORAL) (o ano de) 2014
R2 e R3- (ELEMENTO ESPACIAL E ELEMENTO AFETADO PELO FATO) O Brasil R2 e R3- (ELEMENTO ESPACIAL E ELEMENTO AFETADO PELO FATO) As outras 11 cidades escolhidas – Belo Horizonte/MG, Brasília/DF, Cuiabá/MT, Curitiba/PR, Manaus/AM, Natal/RN, Porto Alegre/SC, Recife/PE, Rio de Janeiro/RJ, Salvador/BA e São Paulo/SP.
Anáfora direta de “o Brasil” (R2) E (R3);
Anáfora indireta de Brasil: As outras 11 escolhidas - Belo Horizonte/MG, Brasília/DF, Cuiabá/MT, Curitiba/PR, Manaus/AM, Natal/RN, Porto Alegre/SC, Recife/PE, Rio de Janeiro/RJ, Salvador/BA e São Paulo/SP - (R2) E (R3).
- Descrição das relações entre os referentes na continuidade de “Brasil”
O move 2, responsável por enunciar o conteúdo central do fato da nota (R1), apresenta referentes que, em sua maioria, convergem para a noção de espaço. Com exceção de “o anúncio” (R1), cujo encapsulamento refere-se ao fato comunicado, e “(o ano de) 2014”, reportando-se ao momento em que se situa o fato (R4), os demais elementos especificam, mais uma vez, o traço de lugar tematicamente associado ao fato (R2), o que tende a modificar o referente Brasil e subsedes (com realce em Fortaleza), introduzido implicitamente na nota, no movimento retórico 1. Queremos chamar a atenção para a questão de que o elemento de espaço aqui passa a ocupar, da mesma forma, o posto de elemento que é afetado pelo fato, porque é neste ponto do texto que tal elemento começa a ser implicado como paciente do fato, a nosso ver. Portanto, interpretamos isso como uma fusão de funções desempenhadas pelo mesmo conjunto de referentes em R2 e R3.
Com isso, o referente Brasil, âncora para a enumeração das anáforas indiretas envolvendo as cidades e estados brasileiros, acaba por se desenvolver aos poucos, recategorizando-se por acréscimo, inicialmente por “Fortaleza”, acompanhado da predicação “uma das 12 cidades que terão a honra e o prazer de sediar a Copa do Mundo”; em seguida, da anáfora direta, “as outras 11 cidades escolhidas”, a qual consideramos como parcial, juntamente com sua predicação “Belo Horizonte/MG, Brasília/DF, Cuiabá/MT, Curitiba/PR, Manaus/AM, Natal/RN, Porto Alegre/SC, Recife/PE, Rio de Janeiro/RJ, Salvador/BA e São Paulo/SP”, as quais nominalizam, dessa forma, todas as cidades brasileiras que foram escolhidas para serem as sediadoras da Copa do Mundo. Julgamos que a modificação de Brasil acontece por causa da ampliação de seu sentido provocada por todos estes referentes apontados, ainda que estes o retomem indiretamente. Há que se apontar os indícios de que o fato central esteja sendo caracterizado como algo positivo em virtude dessa localização geográfica. Dentre outras pistas, destacamos que o modalizador “finalmente” faz emergir a ideia de que este anúncio é, na verdade, muito esperado pelos brasileiros, sinalizando a própria proveniência do jornal, que é o “Diário do Nordeste”, que se situa no Brasil e na
região Nordeste, mais precisamente em Fortaleza, local privilegiado pelo redator no texto, ao mencioná-la destacadamente. Portanto, as modificações desse referente se devem a dados que se encaixam tanto nos propósitos do gênero quanto nos do produtor do texto.
Na subjacência do texto, reconhecemos também a hierarquia semântico-cognitiva subjacente aos objetos “(a Copa do) “Mundo”, “o Brasil”, “(os estados) MG, PE, AM, RN etc.” e “as 12 cidades brasileiras”, na composição de uma rede espacial ligada ao contexto do fato. O fato de terem sido os locais escolhidos para os jogos faz com que, além de ser um elemento da rede de espaço (R2), “Fortaleza” funde-se com uma nova rede, a do elemento afetado pelo fato (R3). Recordemos que este, segundo o modelo de Figueiredo e Bonini (2007), é o elemento sobre o qual uma ação, processo ou fenômeno incide. Neste caso, a escolha das cidades sediadoras da Copa recai sobre Fortaleza e as demais cidades. Consequentemente, o referente “Brasil” e seus elementos passarão também a pertencer a essa rede. Assim se verifica a possibilidade de certos elementos pertencerem a mais de uma rede referencial. A nosso ver, isso resulta do acúmulo de informações relacionadas ao espaço e a quem sofreu o fato atribuídas aos mesmos elementos (de R2 e R3), numa implicação semântico-pragmática de que “as subsedes brasileiras” são mentalmente recuperadas pelo leitor como as cidades escolhidas a quem se imputou a responsabilidade de serem as “anfitriões” do evento, o que pode incluir mais referentes em implicitude, como a população, as autoridades administrativas das subsedes ou outros referentes contíguos, que se associem ao fato.
Portanto, essas informações de espaço são cruciais nesse contexto e funcionam não só como meros circunstanciais de lugar, mas também como elementos afetados pelo fato, uma vez que dele assim participam. Propomos, então, que todos esses elementos do move 2 sejam componentes básicos da rede do fato central encapsulado como “o anúncio”.
Quanto às figuras do elemento desencadeador do fato, da causa/ motivo e do desdobramento do fato não ocorrem nesta construção, comprovando-nos aquilo que se alegou sobre a provável inexistência da totalidade dos componentes do acontecimento principal em certos textos.
Neste move, explicita-se que o fato envolverá as cidades brasileiras que irão sediar a Copa do Mundo. Para tanto, geram-se mais elementos sob o eixo do referente Brasil, acarretando:
Recategorização de Brasil por confirmação: a Copa é do Brasil;
Recategorização de Brasil por acréscimo: As 12 cidades (e estados) brasileiros que sediarão a Copa são Fortaleza/CE, Belo Horizonte/MG, Brasília/DF, Cuiabá/MT, Curitiba/PR, Manaus/AM, Natal/RN, Porto Alegre/SC, Recife/PE, Rio de Janeiro/RJ, Salvador/BA e São Paulo/SP.
- Move 3 - Análise retórica: Agregar informação complementar
(Passo 1I: Apresentar perspectiva de desdobramento do fato) Agora, um lembrete: as subsedes ainda podem ser alteradas se não cumprirem com o planejamento da Fifa. Quem não respeitar o que foi entregue no caderno de encargos pode sair.
- Redes referenciais no movimento retórico 3
Q
- Processos sociocognitivos de referenciação no move 3
R5 (REDE DE PERSPECTIVA DE DESDOBRAMENTO DO FATO CENTRAL) um lembrete;
R2 (ELEMENTO ESPACIAL) E R3 (ELEMENTO AFETADO PELO FATO CENTRAL) as subsedes (alteradas);
R6 (ELEMENTO LIGADO À PERSPECTIVA DE DESDOBRAMENTO DO FATO) O planejamento da Fifa;
R2 (ELEMENTO ESPACIAL) E R7 (ELEMENTO LIGADO À PERSPECTIVA DE DESDOBRAMENTO DO FATO) Outras possíveis subsedes (implícito);
R2 (ELEMENTO ESPACIAL) E R3 (ELEMENTO AFETADO PELO FATO) Quem não respeitar (= administrações das subsedes) o que foi entregue no caderno de encargos;
R6 (ELEMENTO LIGADO À PERSPECTIVA DE DESDOBRAMENTO DO FATO) O caderno de encargos (no planejamento da Fifa).
Anáfora direta (encapsuladora) da perspectiva de desdobramento do fato: um lembrete (R5);
Anáfora direta das 12 cidades brasileiras: “as subsedes” (R2) E (R3);
A predicação “alteradas” negocia a ideia de uma possível substituição destas subsedes por outras; neste caso, “outras possíveis subsedes brasileiras” (R7) é uma anáfora indireta e implícita das subsedes escolhidas (R2 e R3);
Anáfora indireta de “a Copa”: o planejamento da Fifa (R6);
Anáfora direta de “as subsedes”: Quem não respeitar o que foi entregue no caderno de encargos (R2) E (R3);
Anáfora indireta de “a Fifa”: o caderno de encargos (R6).
- Descrição das relações entre os referentes na continuidade de “Brasil”
Nesta última parte da nota, destinada ao adicionamento de informações suplementares ao fato central - as quais permanecem ligadas a ele – abre-se uma nova rede da perspectiva de desdobramento do fato (R5), que contém em si as redes de elementos advindos da rede do fato central. Esta nova estrutura retórica vem encapsulada como “um lembrete”, que se ancora no fato a respeito do referente em análise, “as subsedes da Copa”, expressão que vem a homologar as informações repassadas sobre as 12 cidades brasileiras. A mudança por acréscimo sobre elas se dá por conta de sua possível condição de “alteradas”, pela possibilidade de não respeitarem o cumprimento dos encargos impostos pela Fifa, o que acaba por alterar, de certa forma, o anúncio sobre quais seriam as cidades escolhidas para serem as subsedes da Copa do Mundo no Brasil, no ano de 2014. Tal recategorização é proporcionada pela condição a elas imposta pela “Fifa”, cujos elementos “o planejamento da Fifa” (R6) e “o caderno de encargos da Fifa” (R6) colaboram para tal sentido. Tal condição expressa “as subsedes ainda podem ser alteradas se não cumprirem com o planejamento da Fifa. Quem não respeitar o que foi entregue no caderno de encargos pode sair” acaba por redesenhar para o leitor um novo referente implicitado, corolário de um provável fato novo, que são “outras possíveis subsedes” no Brasil em substituição às que foram anunciadas.
O início deste movimento retórico pressupõe as predicações anteriores das cidades brasileiras, as quais são retomadas como “subsedes”, sendo-lhes atribuídas uma recategorização que confirma essa significação. Porém, a continuação desta unidade retórica acrescenta às subsedes novas significações advindas, dentre outros fatores, pelas redes de elementos que compõem a estrutura da perspectiva de desdobramento do fato. Logo, entendemos que esta alteração referencial se dá por acréscimo, na medida em que essa nova predicação, junto a novas informações, levam o leitor a processar a possibilidade de perda desse estatuto e a consequente implicação de novas cidades a substituírem-nas. Por outro lado, neste acréscimo, tais significações têm também outra perspectiva que não necessariamente confirma a predicação anterior, na medida em que se abre a possibilidade das cidades não serem mais subsedes da Copa. Sugerimos que se trate de uma recategorização por desconfirmação, já diversas vezes mencionada na presente tese, fenômeno do qual voltaremos a falar neste mesmo capítulo. Em síntese:
Recategorização de “Brasil” por confirmação: as subsedes;
Recategorização de “Brasil” por acréscimo: as subsedes brasileiras poderão ser alteradas;
Recategorização por desconfirmação: as subsedes poderão deixar de sê-las.
Em suma, aplicamos o modelo de representação das redes decorrente de sua organização no gênero, a partir do fato central:
Esquema 15: As redes referenciais no subgênero noticioso (nota 81)
R1 rede do fato central A Copa - O anúncio R4 elemento temporal (O ano de) 2014 R2 elemento espacial ligado ao fato e R3- Elemento
afetado pelo fato Nossa (do Brasil)
-Fortaleza – uma das 12 cidades ...
(R2), (R3) E (R7) Elemento espacial ligado
à perspectiva de desdobramento do fato: Outras subsedes (implícito) (R5) Perspectiva de desdobramento do fato: um lembrete (R2) e (R3) -As subsedes (alteradas) - Quem não respeitar o que foi entregue no caderno
Fonte: Nota extraída de nosso corpus
Neste exemplo, temos a perspectiva de desdobramento do fato (R5) como estrutura de elementos decorrente do fato central. Esta estrutura acaba por subsumir os elementos da rede do fato central (R1, R2,, R3, R4), já que os toma como pressuposto para o porvir dos novos fatos, ao mesmo tempo que propicia o surgimento de novas redes (R6 e R7), as quais, ainda que permaneçam originárias do fato central - na medida em que se verifica a interligação discursiva entre as redes – nascem especificamente por ocasião da perspectiva de um fato futuro com relação ao acontecimento principal da nota.
Por conseguinte, as recategorizações que nascem dessa nova expectativa de fato (R5) não acontecem sozinhas, mas em dependência com os demais fatores sociocognitivos, com as porções cotextuais e com outras redes referenciais que, em alguma medida, ampliam seus sentidos.