6.5 Konserninterne kjøp/salg og overføringer innenfor samme funksjon
6.5.2 Eksempler
Um indivíduo isolado não saberia ser inteligente, não apenas porque sua inteligência necessitaria ser desenvolvida (o que é uma trivialidade), mas mais fundamentalmente porque ele não teria acesso à maquinaria da inteligência96
.
Sylvain Auroux De acordo com Paveau (2006), durante a década de 1990, as Ciências Cognitivas passaram por uma espécie de “reviravolta social”, a qual foi responsável por possibilitar a conformação de distintos modelos teóricos sociais da cognição, tais como a cognição situada, a partilhada e a distribuída, que incorporaram questões epistemológicas desenvolvidas no âmbito das Ciências Humanas. Em decorrência disso, as pesquisas cognitivistas começaram a levar, cada vez mais, em consideração a construção e transmissão das representações, saberes, crenças e informações entre agentes humanos e não humanos nas sociedades. Por conseguinte, segundo pensa a autora, não é mais possível que tais domínios sejam, honestamente, acusados de não terem incorporado aos seus modelos teórico-explicativos questões referentes à relação entre a cognição e o discurso (evidentemente, nenhum desses conceitos é transparente, sendo necessário, por parte dos investigadores, definir adequadamente os seus sentidos).
Nesse viés, é cada vez mais improvável que se possa considerar o pensamento humano como um processo individual, autônomo e preexistente à vida social humana (ao que parece, as pesquisas desenvolvidas por Katz, Fodor e pelos herdeiros do Gerativismo chomskyano no âmbito do minimalismo estão entre as poucas exceções notáveis (CHOMSKY, 2010)). Como aponta Flahault: “a vida em sociedade precede à emergência dos indivíduos” (2005, p. 25 apud PAVEAU, 2006, p. 12) e a “coexistência precede à existência de si” (2005, p. 60 apud PAVEAU, 2006, p. 12)97.
96
Citação no original : «Un individu isolé ne saurait être intelligent, non pas simplement que son intelligence
manquerait à être développée (ce qui est une trivialité), mais plus fondamentalement parce qu’il n’aurait accès à la machinerie de l’intelligence » (AUROUX, 1998, p. 7).
97
Citações em francês : « la vie en société précède l’émergence des individus » (2005, p. 25 apud PAVEAU, 2006, p. 12) ; « la coexistence précède l’existence de soi » (2005, p. 60 apud PAVEAU, 2006, p. 12).
Esses avanços no âmbito dos estudos da cognição, consoante Paveau (2006), tornam necessário que a AD se mobilize no sentido de incorporar tais resultados no desenvolvimento dos seus trabalhos, de forma semelhante ao que ela tem feito desde as últimas décadas do século XX ao revisar seus pressupostos teórico-metodológicos e ao abandonar os corpora ideológicos e fechados para passar a se deter sobre praticamente todos os tipos de discursos sociais.
Dito isso, a “reviravolta social e cultural” nos domínios da cognição social parecem ter aberto amplas possibilidades para se incorporarem aos estudos discursivos algumas questões referentes aos processos cognitivos, em especial, no que concerne às discussões acerca da memória. Logo, se as Ciências Cognitivas parecem tem percebido o quão necessário é revisar os seus pressupostos teóricos, evitando reducionismos que ponham as complexas relações sociais como meros fenômenos externos aos sujeitos, relegando os processos cognitivos à ordem do biológico, parece ser cada vez mais desejável que as abordagens discursivas possam tratar dos fenômenos psíquicos na constituição das subjetividades. Em geral, no que toca as abordagens discursivas, essa tarefa tem sido assumida pelos Estudos Críticos do Discurso (VAN DIJK, 2008), comumente definida como pertencente à tradição anglo-saxã da AD, e pela Linguística Textual de Adam (2008).
Segundo Paveau (2006), o termo cognição distribuída passou a ser utilizado por Hutchins ao avaliar o funcionamento humano em um cockpit de avião. Nessa situação, as informações se apresentam não apenas por uma espécie de cooperação e de colaboração entre os recursos cognitivos, mas pela sua distribuição, de modo que elas não estão armazenadas por completo em nenhuma das instâncias em interação. Isso significa que o processo de construção e de transmissão de informações é fruto da complexa relação que supera o mero reconhecimento dos saberes e das competências presentes no “cérebro” dos indivíduos e daqueles presentes no seu ambiente sociocultural. Para além deles, é preciso levar em consideração as ferramentas cognitivas presentes e utilizadas em uma dada situação interativa, englobando tanto os componentes humanos como os não-humanos. Entre essas ferramentas, podemos destacar, por exemplo, artefatos como o bloco de notas, local onde está armazenado um conjunto de informações que vão além da capacidade humana de memorização e que pode ser utilizado de acordo com as necessidades específicas do piloto no cockpit do avião.
Auroux (1998) propõe uma abordagem específica da cognição distribuída, definida como Empirismo Cognitivo, o qual partilha do pressuposto do externalismo cognitivo. Para ele, a hipótese de que existem estruturas cognitivas externas aos indivíduos é uma das
principais responsáveis pela superação do modelo explicativo racionalista no âmbito das Ciências Cognitivas.
Avaliando o desenvolvimento da linguagem humana em paralelo ao desenvolvimento da metalinguagem que institui o campo das Ciências da Linguagem, o autor sugere que o desenvolvimento dessas estruturas cognitivas externas foi potencializado pelo que intitula de “tecnologia intelectual da escrita”, a qual depende tanto do desenvolvimento de instrumentos externos como livros, bibliotecas, instrumentos de cálculo e de observação, como das estruturas sociais de produção e acumulação de conhecimentos, compostas por enciclopédias, sociedades do saber e redes culturais de produção e reprodução do saber. Nesse sentido, o autor aponta que: “o processo cognitivo depende da estruturação social da mesma forma que a produção de riquezas” (AUROUX, 1998, p. 6)98. No seu dizer:
O homem é antes de tudo uma estrutura biológica (um corpo) que interage com um ambiente e outros corpos. O fenômeno fundamental é a constituição de ferramentas, o que implica a instrumentalização tanto ambiente como do próprio corpo. É bastante equivocado conceder demais à interioridade. É provável que a capacidade de calcular não tenha começado simplesmente na cabeça das pessoas e que ela não teria nascido sem a manipulação de objetos externos (seixos, ábacos, etc.)99.
Desse modo, sua perspectiva externalista supõe o entendimento de que a inteligência se origina como um artifício e que as suas manifestações dependem de instrumentos externos. Isso implica considerar que a inteligência humana funciona através de uma espécie de organização do mundo, no qual os próprios homens preenchem apenas uma parcela. Cumpre- nos destacar, contudo, que tais pressupostos não representam a negação da capacidade humana para internalizar certos procedimentos, meio pelo qual podemos adquirir alguns sistemas simbólicos, como são os casos do cálculo mental e da própria língua. Para Auroux (1998), deve-se entender apenas que nem tudo está alocado na mente humana, embora ela possa armazenar muitas informações.
Assim, segundo o pesquisador, parte das estruturas cognitivas humanas estão distribuídas em diferentes tecnologias e dispositivos artificiais de produção e acumulação do saber, (re)utilizados nas interações cotidianas entre os sujeitos e o ambiente. Diferentemente
98
Citação no original : « Le processus cognitif dépend de la structuration sociale tout comme en dépend la production des richesses » (AUROUX, 1998, p. 6).
99
Citação no original : « L’homme est avant tout une structure biologique (un corps) qui interagit avec un environnement et d’autres corps. Le phénomène fondamental est la constitution d’outils, ce qui implique
l’instrumentalisation autant de l’environnement que du corps propre. On a tort de trop concéder à l’intériorité. Il est vraisemblable que la capacité de calculer n’a pas commencé simplement dans la tête des gens et qu’elle ne serait pas née sans des manipulations d’objets externes (cailloux, abaques, etc.) » (AUROUX, 1998, p. 7).
das perspectivas substancialistas da linguagem, que se ancoram no pressuposto de que a linguagem seria herdada filogeneticamente pela espécie humana (ou seja, seria inata), a história das ideias linguísticas, com foco na análise dos mecanismos de padronização dos saberes linguísticos decorrentes da gramatização das sociedades, aponta para o fato de que as regras, assim como quaisquer outros conceitos nos sistemas simbólicos humanos, são adquiridas empiricamente.
O acúmulo de saberes em diferentes dispositivos artificiais possibilita que estes funcionem também como estruturas cognitivas, de modo que a cognição estaria distribuída nas relações que os sujeitos estabelecem entre si e com as ferramentas linguísticas em um dado ambiente social. Dessa ótica, gramáticas, dicionários e outras ferramentas modificam a própria ecologia da comunicação humana.
O fato de os sistemas simbólicos humanos possuírem estruturas próprias não subverte a possibilidade de se conjecturar sobre a linguagem como fruto de um processo histórico e social “adquirido/interiorizado” pelas experiências sociais dos indivíduos, que, sendo aptos a representar, são capazes também de pensar (historicamente). Isso significa que a singularidade do sujeito decorre seja das experiências sociais idiossincráticas dos mesmos, que lhe possibilitaram “adentrar” no mundo da linguagem, seja da não-repetitividade de cada situação de enunciação na qual é “chamado” a enunciar. A esse respeito Auroux (1998, p. 297. Grifos nossos) destaca:
Não há nenhuma razão para se pensar que a linguagem não nasce na instrumentalização do próprio corpo e do ambiente. Ainda que a emergência da linguagem humana suponha sistemas simbólicos possuindo estruturas próprias, nada impõe de pensar que devamos imaginar que a realização dessas estruturas depende de uma representação prévia na interioridade. A possibilidade do pensamento
simbólico provém mais provavelmente da capacidade de se representar essas estruturas100. Não há interioridade sem interiorização. A tese última do
externalismo é que o próprio pensamento é de essência histórica e empírica.
Nesse sentido, um sujeito individuado (sujeito com tendências ao singular) não é o mesmo que sujeito individualizado (sujeito reduzido ao indivíduo). Essa não-determinação é fundamental para o entendimento de que a linguagem é histórica. Se o primeiro é uma posição
100
Passagem no original : « Il n’y a aucune raison de penser que le langage ne naît pas dans l’instrumentalisation
du corps propre et de l’environnement. Quand bien même l’émergence du langage humain suppose des systèmes symboliques possédant des structures propres, rien n’impose de penser qu’il faille imaginer que la réalisation de
ces structures dépende d’une représentation préalable dans l’intériorité. La possibilité de la pensée symbolique
provient plus probablement de la capacité de se représenter ces structures. Il n’y a pas d’intériorité sans intériorisation. La thèse ultime de l’externalisme, c’est que l’esprit lui-même est d’essence historique et empirique » (1998, p. 297. Grifos nossos).
emergente em uma dada situação de interação, tendo por funcionamento uma causalidade imanente à própria linguagem, o segundo se configura como o ser orgânico/biológico formado por parte das capacidades cognitivas oriundas da história evolutiva humana. Se a relação entre ambos nos parece indiscutível, a redução de um ao outro se apresenta como insustentável. Tendo isso por pressuposto, Auroux (1998) organiza a sua proposta teórica a partir dos seguintes fundamentos: i) as ferramentas linguísticas; ii) a subdeterminação gramatical; iii) a hipótese da história; iv) a conjectura sociológica.