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VEDLEGG 2. KONTRAKT

14. Eksemplar av kontrakten

Estava desamparada, desamparada. De repente caiu num vácuo. Maria Lysia Corrêa de Araujo, Os quatro lagartos brancos.

Em 1981, novamente Maria Lysia Corrêa de Araújo conquistou o 1º lugar no VII Prêmio Guimarães Rosa realizado pelo Governo do Estado de Minas Gerais com o livro de contos “Os quatro lagartos brancos”, possivelmente, formado por outro conjunto de textos escritos entre 1956 e 1980322. A premiação é noticiada no jornal O Globo em 28 de dezembro do referido ano da premiação e estampava a fotografia das três vencedoras no Concurso de Ficção, Poesia e História de Minas, promovido pela Coordenadoria de Cultura de Minas Gerais. Eram elas: a poeta Laís Corrêa de Araújo, a contista Maria Lysia Corrêa de Araújo e a historiadora Anamaria Cassanta. O noticiário traz os comentários das escritoras e neles Maria Lysia tece comentários sobre o ofício de escritora e a unidade de temas em seus contos:

Sou essencialmente indisciplinada, ao escrever. Quando crio, as ideias nascem aos borbotões, de uma maneira quase incontrolável. Não tenho aquela disciplina metódica e nem grandes momentos de inspiração, como os grandes escritores. Não me considero, portanto, uma escritora.

[...]

319 MELLO. Sobre um conto de Maria Lysia Corrêa de Araújo. In: Estado de Minas, 8 dez. 1987. 320 MELLO. Sobre um conto de Maria Lysia Corrêa de Araújo. In: Estado de Minas, 8 dez. 1987. 321 ALMEIDA. Gente, livros e bichos. Recorte sem indicação de data ou fonte.

322

Há quem diga que em meus trabalhos há uma tendência surrealista. Eu mesma não sei defini-los. Percebo, no entanto, que têm a unidade clara: uma unidade de dor, sofrida.323

Durante o decorrer da década de 1980, muitos dos contos inéditos da escritora foram publicados nos Suplementos Literários dos jornais O Estado de São Paulo e Estado de Minas. Curiosamente, os textos dessa época condensam um trabalho ainda mais próximo das tendências surrealistas da arte, mescladas ao mesmo universo trágico

e doloroso que marcam os contos de Maria Lysia. É interessante perceber o quanto “as situações surrealistas indicam a presença da artista, nos roteiros da autora”324

, como afirma Wolney Botelho no Estado de Minas, em 29 de abril de 1982. Em correspondência da Secretaria de Estado da Cultura de Minas Gerais, encontra-se em anexo o Relatório da comissão julgadora do Prêmio Guimarães Rosa. O grupo, formado por Lúcia Machado de Almeida, André Carvalho e João Etienne Filho, apontou os seguintes requisitos para que o livro alcançasse a premiação:

1. A extraordinária qualidade do texto, que mantém o leitor preso da primeira à última página;

2. O perfeito delineamento das personagens, analisadas com profunda psicologia;

3. A unidade dos temas, sem contudo deixar de serem variados os entrechos e as situações criadas.325

Os contos desse período multiplicam-se em temas. Há a exploração do insólito

em textos como “A ventania”, publicado em O Estado de São Paulo em 19 de junho de

1965, em que uma violenta lufada desintegra paredes, janelas e portas. A personagem principal, também consumida pelo vento que se acentua a cada momento, aceita conivente o esvaziamento de seu ser. O discurso indireto livre projeta a ação para um improvável tempo futuro: “Era preciso, urgente, urgente pôr um paradeiro naquela

voragem, mas como, como?”326

O desfecho para o vazio representa a desalentadora impossibilidade de existência. “Foi sentindo uma sensação boa, certeza de ficar sozinha para o seu desmoronamento total. Foi então quando tudo parou. E tudo desapareceu e

tudo se diluiu.”327

No mesmo caminho do realismo fantástico seguido pela conto “A

ventania”, o texto “ De coração”, publicado no Estado de Minas em 5 de fevereiro de

1978, narra a curiosa história de “um homem que todas as manhãs fazia o mesmo gesto.

323ARAÚJO. Entrevista veiculada na reportagem “Concurso de Ficção, Poesia e História" dá Cr$ 700 mil

em prêmios. In: O Globo, 28 dez. 1981.

324 BOTELHO. Silêncios e palavras. In: Estado de Minas, 16 dez. 1978. 325 Correspondência Passiva – Acervo Maria Lysia Corrêa de Araújo. 326 ARAÚJO. A ventania. In: o Estado de São Paulo, 19 jun. 1965. 327

Antes de sair, abria o peito, tirava o coração e o colocava no cofre.”328

Em meio a uma vida sem sentido, acompanhado de uma mulher colérica, pouco afeito aos filhos, o homem é descoberto pela sociedade e passa a figurar como estrela para a mídia

televisiva. “Passados muitos e muitos anos – talvez quinhentos, não se tem noção exata – as crianças se tinham transformado nos maiores desajustados de todos os tempos”329

, vítimas de uma infância problemática psicologicamente. “Um dia, abriram o cofre – a única herança – e os desajustados morreram de susto quando viram o coração dando

gargalhadas, as mais espalhafatosas possíveis.”330

Os desfechos contundentes e as imagens simbólicas passam a intensificar a literatura da escritora.

O conto homônimo à antologia premiada, “Os quatro lagartos brancos”, possui

duas versões diferentes. Através de uma ação insólita, quatro répteis visitam o quarto frio de uma personagem feminina, prometendo-lhe trazer como presente a morte. Amedrontada e ao mesmo tempo fascinada pela morte, a mulher passa a se imbuir de uma coragem avassaladora para receber a oferta aterradora. No entanto, ao abrir o embrulho trazido pelos animais, nada está lá dentro e a personagem enche-se de fúria.

“Esperava há tanto tempo, tudo numa obsessão doentia e agora para nada? Precisava do

embrulho, precisava daquele presente, precisava da morte. Quanto mais gritava, maior a

confusão no quarto.”331

Na primeira versão, publicada em 13 de fevereiro de 1960, o final do conto é bastante diverso da que será publicada posteriormente, em 1987. O primeiro final terminava em um diálogo confuso, como se o quarto estivesse dentro de um hospital e uma conversa médica encerrasse o devaneio da personagem. O desfecho porvindouro, além de acentuar a concisão do conto, trazia novamente a tônica da desolação, do abandono e do vazio dos personagens: “Começou a chorar baixinho, era um choro assim meio de criança quando começa a dormir, manhoso, triste. Estava desamparada, desamparada. De repente caiu num vácuo.” 332

Outros contos do período trazem temáticas cotidianas como o amor e o adultério (“A rosa na laje”) e as novas paisagens da industrialização (“Sem identidade”). Essas temáticas vêm frequentemente sobrepostas por um olhar interior dos personagens, pautadas no discurso indireto livre e nos monólogos interiores, amplamente utilizados

328

ARAÚJO. De coração. In: Estado de Minas, 5 fev. 1978.

329 ARAÚJO. De coração. In: Estado de Minas, 5 fev. 1978. 330 ARAÚJO. De coração. In: Estado de Minas, 5 fev. 1978.

331 ARAÚJO. Os quatro lagartos brancos. In: Estado de Minas, 7 nov. 1987. 332

pela escritora. Em dezembro de 1987, a “University of Colorado” lançou uma antologia de Literatura Brasileira com quatro escritores mineiros: Oswaldo França Jr., Rui Mourão, Duílio Gomes e Maria Lysia Corrêa de Araújo. O crítico Wolney Botelho assim pontua acerca dessa composição literária:

Em Maria Lysia Corrêa de Araújo, os contrastes do mundo interior com o mundo exterior –, comum, e com as pessoas comuns que nele habitam – é gerador de ambientes irreais, que dão forma aos absurdos. E esse confronto permite à autora desenvolver os seus magníficos exercícios de introspecção, em que a realidade se constitui de superpostos planos de irrealidade. Uma realidade fortemente impregnada de irrealidade?333

O questionamento inconcluso de Botelho deixa perceptível a dificuldade de inserir Maria Lysia Corrêa de Araújo em uma composição determinada. O próprio gênero literário do conto vinha passando por profundas transformações, muitas delas ligadas à experimentação no campo do realismo fantástico. Em 30 de julho de 1986,

Nádia Batela Gotlib escreve o artigo “E o conto mineiro, como vai?” no jornal Estado

de Minas e aponta a coletânea Contos da terra do conto, publicado pela Editora Mercado Aberto no referido ano, como um livro de referência para medir a atmosfera literária do conto em Minas Gerais. Entre os escritores que compõem a obra estão Murilo Rubião, Duílio Gomes, Manoel Lobato, Elias José, Oswaldo França Júnior,

Wander Pirolli, Maria Lysia Corrêa de Araújo, entre outros. Para a crítica literária, “em

alguns momentos, a coletânea privilegia a construção de uma profunda intimidade psíquica, de estados interiores de crise, nascidos das pulsões da fome, do lúdico, da

timidez, do desejo”334

. Para Murilo Rubião, “a literatura mineira sempre esteve na

vanguarda no país, uma tradição que vem desde o século XVIII”335

. Nádia Gotlib

destaca ainda “a boa qualidade do conto fantástico, adotado, no entanto, pela quase total

minoria dos escritores aqui presentes”336. Entre eles, Maria Lysia.

A habilidade com o gênero literário do conto rende a escritora lugares de destaque em antologias diversas dentro e fora do Brasil. O Jornal da Tarde de São Paulo, em 23 de novembro de 1991, trazia, entre os livros indicados, o volume cinco da coletânea de contos intitulada Setecontos Setecantos que apresentava obras de autores

“acima de qualquer suspeita.”337

Entre os escritores: Carlos Herculano Lopes, Ivan

333

BOTELHO. Silêncios e palavras. In: Estado de Minas, 16 dez. 1978.

334 GOTLIB. E o conto mineiro, como vai? In: Estado de Minas, 30 jul. 1986. 335 RUBIÃO. A Bienal e os escritores. In: Estado de Minas, 20 mai.; 1986. 336 GOTLIB. E o conto mineiro, como vai? In: Estado de Minas, 30 jul. 1986. 337

Ângelo, Jaime Pedro Gouvêa, Maria Lysia Corrêa de Araújo, Moreira Campos, Ricardo

Ramos e Sérgio Sant’Ana.

A qualidade da produção literária da escritora é confirmada por sua presença em antologias ao lado de grandes escritores, sendo referenciada diversas vezes por seu talento. No decorrer da década de 1980, seus contos primaram também pela exploração

dos sentidos diversos das palavras e discursos. O conto “Logomaquia” possui uma

construção pautada na invasão de seres estranhos, os hematófagos. Ao habitar o apartamento da personagem, eles disputam seus pensamentos por meio das palavras. Os hematófagos passam a incomodá-la a ponto de enlouquecê-la; entretanto, o que acontece entre os personagens é a constituição de um diálogo poético cujo desfecho desemboca na solidão de paredes brancas. Ainda na exploração da linguagem, o discurso jurídico dos artigos dos códigos penais encontra na trilogia de contos “Código Penal, Artigo 122”, “Código Penal, Artigo 229” e “Código Penal, Artigo 241” uma transformação surreal na qual os personagens realizam pequenos delitos, repletos de amor e loucura, numa escrita da aflição alheia.

A própria escritora foi assim adjetivada por um artigo: “uma mulher aflita. Assim Maria Lysia diz que é. O importante é que ela consegue transmutar a aflição em criatividade. Está sempre escrevendo alguma coisa para publicar em jornais.” 338 Em 20 de maio de 1990, o jornal Estado de Minas estampava uma página inteira com fotografias de escritoras mineiras, entre elas: Alaíde Lisboa, Adélia Prado, Lúcia Machado e Maria Lysia Corrêa de Araújo. O artigo intitulado “A escrita da mulher” trazia os depoimentos das escritoras sobre a escrita de autoria feminina. Contrária ao determinismo de uma escrita de gênero, para a escritora, uma literatura poderia ser boa

ou má, “independente de ser feita por homens ou mulheres”339

. Acerca do trabalho com a escrita, durante a década de 1980, seu labor com o conto será um prazer pacientemente vivido aos domingos, sem pressa. Sobre seu processo de criação, a escritora descreveu em entrevista sua rotina:

Maria Lysia gosta de escrever mais aos domingos – dia em que ela não vai cumprir o seu ritual dos 600 metros rasos no Minas Tênis Clube – e sempre pela manhã pensa num conto, senta em sua mesa de trabalho e escreve todas as ideias à mão: “depois, isto bem depois, eu passo à máquina e corrijo

338 Recorte de jornal, sem indicação de autoria ou título, fonte contida no jornal: Estado de Minas, 26 abr.

1981.

339 ARAÚJO. Depoimento dado no artigo “A escrita da mulher” do “CADERNO f”. In: Estado de Minas,

quatro, cinco, quantas vezes eu achar necessário. Faço uma emenda aqui, outra ali, até que o conto fica exatamente do meu jeito”. 340

O processo de incansável reelaboração pode ser percebido nas constantes correções manuscritas presentes em seus livros, em datiloscritos, reformando imagens e ideias de textos seus e de textos alheios. Na segunda metade da década de 1980, as lembranças de familiares e as datas festivas aparecem redesenhadas em tramas que mesclam o mundo onírico, o espaço da lembrança e a imaginação fantástica. Os contos

“Memorial 1” e “Memorial 2” trazem de maneira muito especial as lembranças dos pais

da escritora, distantes dezenas de anos no tempo. As frases curtas aparecem como flashes do tempo em imagens rápidas do passado: “Meu pai foi um homem calmo, triste. Minha mãe, uma mulher neurótica. Não me esqueço de muita coisa. Não perdi meu pai no tempo.”341 Do outro lado, “minha mãe, também não a perdi no tempo. Vejo-

a com os olhos brilhando, colérica sempre.” 342

Na descrição das conversas à mesa do jantar, de cidades barrocas, de muitos irmãos e da morte, a escritora recria o passado e confessa seu intento em sua literatura: “eu os vou desenhando na minha memória.”343 Nas centenas de anos percorridos por sua alma, sozinha, pensando o passado, Maria

Lysia divaga: “Eu, espectadora, expectante, olhos bem abertos, pensando nos dias-

séculos que se passaram sobre nós, malogradas tantas aspirações, perguntando a cada

um o que foi feito do seu sonho”344

. O espaço de seus questionamentos é justamente o onírico, onde aparecem fantasmas do passado, irmãos, primos. Junto a eles, a imagem de um caixão pousa como instância da morte, temática frequente nos contos da escritora.

Em 23 de dezembro de 1989, o jornal O Estado de São Paulo publica o último conto da escritora dentro da estética do realismo fantástico. Intitulado “A Espectadora”, o texto volta-se apropriadamente para as festividades natalícias, de maneira crítica. Os fatos narrados giram em torno da comemoração de uma família rica composta por pai, mãe e filho. A criança que ainda nem havia gasto os brinquedos do ano anterior, esperava ansiosamente o bom velhinho, até que, vencido pelo cansaço e pedidos da mãe, vai dormir. No entanto, o barulho do quebrar de louças despertou o menino. “Deu um salto da cama e abriu de leve a porta, com medo. Lá estava Papai Noel com um

340ARAÚJO. Depoimento dado no artigo “A escrita da mulher” do “CADERNO f”. In: Estado de Minas,

20 mai. 1990.

341 ARAÚJO. Memorial 1. In: Suplemento Literário do Minas Gerais, 1º ago. 1987. 342 ARAÚJO. Memorial 1. In: Suplemento Literário do Minas Gerais, 1º ago. 1987. 343 ARAÚJO. Memorial 1. In: Suplemento Literário do Minas Gerais, 1º ago. 1987. 344

revólver na mão, enquanto os pais jaziam inertes na poltrona.”345

No entanto, sua reação é de extrema delicadeza, abraça o homem que, em lágrimas, abandona a arma e a agressão. Os fatos que se seguem são de festa e conversas, uma ceia de natal entre pessoas amistosas e ficou o delito esquecido. A inovação da técnica narrativa dá-se por

intermédio da fantasia de uma sábia espectadora que desfecha a história. “- Vivo há

muito tempo e nunca vi cena mais comovente e edificante – sentenciou, ironicamente, uma barata que, num vão da parede, a tudo assistia e aguardava sua vez de participar do

festim.” 346

Em 22 de setembro de 1990, o último conto da escritora, publicado no jornal O Estado de São Paulo, já citado anteriormente, traz aspectos autobiográficos: uma rotineira viagem a Ouro Preto, em comemoração ao aniversário de casamento. Na Vila

Rica de igrejas frequentadas “no século dezoito pela aristocracia”347

, um casal de enamorados subia e descia as ladeiras de pedras seculares. No correr do dia, a narradora-escritora-personagem enlaça palavras de guias à sua literatura, “os meninos, contando uma história local”348. O desfecho dá-se numa aterrorizante noite entre fantasmas do passado. Ao acordarem, acabam por descobrir que haviam sido vítimas de um roubo. Ao partir, o casal é surpreendido por “vozes que não vinham de longe, vozes sufocadas em arcas no porão, pedindo que não os deixássemos sozinhos.” 349 No entanto, o casal prossegue em sua partida e “o choro deles e o barulho das correntes se

arrastando ainda nos acompanharam até a saída da cidade.” 350

Dois anos depois, Maria Lysia perdeu o grande amor de sua vida e as viagens tornaram-se matéria do passado. Intensa e bela matéria do passado.