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VIL Eix de les relacions amb la societat de les Illes Balears

Nas entrevistas se apresenta uma “filosofia do autor”, seu posicionamento teórico, e acontece uma “(re)configuração do público – orientação, explicação, ajusto dos “pactos” ou acordos de leitura –, em suma, para uma intervenção – imaginária – no horizonte de expectativas.” (2010, p. 229). Intervir junto ao público leitor poderia lembrar a atitude do mestre ou pedagogo que ensina a seus discípulos o melhor caminho:

a entrevista é também de educação, aspecto modélico por antonomásia. O “retrato” que a entrevista brinda irá, então, para além de si mesmo, dos detalhes admirativos e identificatórios, em direção a uma conclusão suscetível de ser apropriada em termos de aprendizagem. (2010, p. 153)

Como escreve Barilli, a retórica não se limita a apresentar um certo tema, tem uma faceta “transformativa, prática”, “pretende também arrastar aqueles que as recebem, exercer uma acção sobre eles, plasmá-los, deixá-los diferentes, depois de terem sofrido a sua influência.” (1979, p. 11).

Além de considerar Barros um pregador, deveríamos considerá-lo um pedagogo, papel em que se investe em seus metapoemas e em seus paratextos didáticos. A exemplo de um “mestre ignorante”102 que igualando-se ao seu discípulo, reconhece que nada tem a ensinar, que antes é preciso "dessaber" e "desaprender". Neste sentido atua com simulada negação da pedagogia e dos valores que na verdade prega, e caminha

102 Em seu livro O mestre ignorante, sobre o pedagogo francês Joseph Jacotot, Jacques Rancière expõe os

principais aspectos de uma doutrina pedagógica baseada na igualdade entre mestre e discípulo, buscando a emancipação do aprendiz por meio da liberdade de aprendizado. Escreve Rancière: “pode-se ensinar o que se ignora, desde que se emancipe o aluno; isso é, que se force o aluno a usar sua própria inteligência (...) Para emancipar um ignorante, é preciso e suficiente que sejamos, nós mesmos, emancipados; isso é, conscientes do verdadeiro poder do espírito humano.” (2002, p.34)

para um conhecimento que está nas origens do humano e para um aprendizado que se baseia na “liberdade” de seus leitores.

Outro fator retórico importante, presente em sua obra poética, é a construção de um conceito próprio do Belo. Em seu tratado de retórica, intitulado Sublime, Dionísio Longino elogia o silêncio e “uma palavra simples ou pobre, ou vulgar, que às vezes pode ser veículo do sublime bastante melhor do que a grandiloquência”. (Barilli, 1979, p. 35). Segundo Barilli esta anti-retórica seria utilizada pela Patrística103 para engrandecer as Sagradas Escrituras. Como escreve Pascal “la vraie éloquence se moque de l’éloquence” (1977, p. 330)104, um texto simples pode atingir o sublime. Esta simplicidade que transcende é um dos principais argumentos de Barros, na defesa de sua poesia.

O sermo simplex diz respeito, em sua argumentação, tanto à maneira como deve ser conduzida a produção poética, isto é, a elaboração da linguagem quanto à constituição da figura autoral. São elementos da simplicidade: as coisas inúteis, os seres rasteiros, a borra, os andarilhos e outros homens desúteis, dentre outros materiais, tratados segundo uma ótica da ilogicidade, do “sem pensa”:

Escrevo o idioleto manoelês archaico (Idioleto é o dialeto que os idiotas usam para falar com as paredes e com as moscas) [...] (2004, p. 75)

Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos. (2004, p. 70) A expressão reta não sonha” (2004, p. 75)

O argumento da ilogicidade é associado à fala infantil, ao “criançamento” da linguagem. Dessa forma fica assegurado o estilo simples da escrita que esconde verdadeiros enigmas de linguagem. Barros admite em entrevistas e poemas que sua poesia é complexa e que sua base são os paradoxos e antíteses, mas à primeira vista destaca-se a simplicidade aparente.

Segundo Traube (apud Curtius, 1996, p. 202) no discurso de escritores as “incriminações e desprezos aparentes ou rejeições da gramática não passam de artifícios retóricos.” O texto que aparenta simplicidade só é alcançado por meio de uma elaboração cuidadosa do estilo. O que acontece na poesia de Barros é uma aparente

103 Patrística foi o nome dado à filosofia cristã, surgida no início do calendário cristão (por volta de 200

d.C.) e criada por padres, daí o nome. Os teóricos da Patrística são os responsáveis pelo estabelecimento das verdades e dos dogmas da fé cristã e pela defesa desta frente a outras religiões e concepções filosóficas da época. Seu principal representante foi Santo Agostinho (354 - 430 d.C.).

104 Barilli escreve que “é tanta, precisamente, a força da verdade das Sagradas Escrituras, que não é

simplicidade, atingida por meio de uma linguagem exaustivamente trabalhada, gerando um texto que parecendo simples, após uma leitura mais cuidadosa revela-se paradoxalmente hermético e complexo105.

Em suas entrevistas os sujeitos também são apresentados com a máscara da simplicidade: “simples”, “modesto”, “esquivo”, “primitivo”, “bugre”, dentre outros epítetos, são denominações que o poeta confere indistintamente ao eu lírico e ao autor, de maneira que se confundem em suas características. Vejamos um exemplo:

Tem mais presença em mim o que me falta. (BARROS, 2004, p.65) Poeta em mim é pois um sujeito que quer remendar. Ele quer remendar-se, ele quer redimir-se através dessas pobres coisas do chão. (BARROS, 1990m, p. 333).

Cada coisa ordinária é um elemento de estima (BARROS, 2001, p. 11) O que eu descubro ao fim de minha estética da ordinariedade é que eu gostaria de redimir as pobres coisas do chão. Me parece que olhando para os cacos, pelos destroços, pela escória eu estaria tentando juntar fragmentos de mim mesmo espalhados por aí - . Estaria me dando a unidade perdida. E que obtendo a redenção das pobres coisas eu estaria obtendo a minha redenção. (BARROS, 1990m, p. 328)

Não saio de dentro de mim nem pra pescar. (BARROS, 2004, p. 65) Ele quer dizer assim: eu sou esquivo porque posso ser esquivo; porque não quero estar à mão de ninguém e não dependo de ninguém- sendo esse o orgulhar-se mais refinado. Que se disfarça com a máscara da virtude oposta, ou seja, da humildade. Então, em verdade, esse negócio de dizer, “eu só agüento o esquecimento” é maneira de se exaltar. Esse desejo de apagar-se é, no fundo, um incêndio de orgulho.106

Observa-se, no conjunto de textos sobre poesia (poema e entrevistas), que o poeta instaura uma retórica artística, um discurso que lança reflexões sobre a criação da arte e os vários elementos que nela estão envolvidos. Barros estabelece, dessa maneira, um receituário do fazer poético que enfatiza aquelas que consideram as características da grande poesia. Assim, escreve:

105 “Faço uma poesia difícil. Depois, cair no mundo das imagens não é para qualquer um. Ainda mais para

adolescentes. Adolescentes querem as coisas retas, senão não aceitam. E minha poesia é torta.” (BARROS, M. Manoel de Barros faz do absurdo sensatez. Disponível em: http://www.revista.agulha.nom.br/castel11.html. Acesso em 22 de fevereiro de 2012. Entrevista concedida a José Castello.)

106 BARROS, M. de. Manoel de Barros: Caminhando para as origens. Disponível em:

http://www.douradosinforma.com.br/entrevistas.php?id_ent=33. Acesso em: 22 de fevereiro de 2012. Entrevista concedida a Bosco, Cláudia Trimarco e Douglas Diegues.

Porque a poesia não é um fenômeno de idéias, mas de linguagens. E Rimbaud usava a poesia como fenômeno de linguagem, o Baudelaire também, o Valery também, e também o Mallarmé, que falava que poesia não se faz com sentimentos, poesia se faz com

palavras.107

O Dalton é um escritor da linguagem, que modifica sempre, que enxuga cada vez mais. Para o Dalton, a linguagem é mais importante que o personagem. O Dalton lembra-me aquele personagem do Giovanni Papini que aparece em Gog, aquele literato que enxugou tanto seu livro que, um dia, descobriu que só lhe restava uma palavra.108

Nas duas entrevistas pode-se observar a defesa de um mesmo argumento, a poesia deve centrar-se na linguagem, reafirmando a prática de uma poética cujo principal objetivo é realizar um jogo com as palavras. Tal jogo, empregado aqui no sentido barthesiano do termo109, é elogiado naqueles escritores que o poeta admira, como é o caso de Dalton Trevisan.