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2. kunnskapsstatus:

5.4 Eiga køyreevne:

Conclui-se então que o impulso trabalha continuamente em busca de satisfação. O desejo é sua ocasião, e a percepção seu motivo. Distinguem-se, de acordo com Schopenhauer, duas molas ou motivos perceptíveis que levam o corpo à ação: o desejo, que busca o agradável, e a aversão, que foge do desagradável.

Outra espécie de afecção, involuntária, porém constatável como representação do querer, deduzida por analogia com os próprios atos espontâneos do corpo, é a que compreende as funções orgânicas animais em geral, que manifestam na saúde o poder invisível da Vontade e na doença a sua autodiscórdia. 397

Em Schopenhauer, cada órgão do corpo tem o seu próprio querer, mas igualmente expressa a Vontade como um todo, em resposta ao anseio de vida da espécie, em termos gerais, e em resposta à necessidade de afirmação do desejo peculiar e de conservação da existência individual, em termos particulares. Do ponto de vista da Vontade, a conservação da vida do próprio corpo é ainda um grau muito “humilde”, pois não implica em continuidade da espécie. Por outro lado, a satisfação da necessidade sexual ultrapassa a afirmação da existência particular, afirmando o querer-viver em toda sua amplitude, pois tem como consequência a geração de um novo ser. A adesão à vida, isto é, a procriação, perpetua, porém, o padecimento humano: 398

396

Idem, p. 426. VR, p. 400.

397

Como veremos no capítulo seguinte, a consideração desses fatores é importantíssima também para Nietzsche, ainda que com uma ênfase diferente.

398

É uma peculiaridade da interpretação schopenhauereana do desejo esta extensão do fisiológico- comportamental para o moral. Depois, veremos que Nietzsche perceberá nisto apenas um sintoma, uma

Como coisa-em-si, a Vontade do procriador e a do procriado não são diferentes (nicht verschieden), pois apenas o fenômeno, não a coisa-em-si, está submetido ao principio individuationis. Ora, naquela afirmação, que vai além do próprio corpo até a exposição de um novo, também co-afirma-se sofrimento e morte como pertencentes ao fenômeno da vida. 399

Schopenhauer considera então que a sexualidade é o assunto mais sério 400 da humanidade, a característica mais decisiva da animalidade em geral. Em concordância com isto, os órgãos genitais são considerados o “foco” 401 da Vontade:

Todo se enamorar, por mais etéreo que possa parecer, enraíza-se unicamente no impulso sexual

(Geschlechtstriebe), e é apenas um impulso sexual melhor determinado (ein näher bestimmter), mais

bem especializado (spezialisierter) e mais bem individualizado (individualisierter) no sentido rigoroso do termo. Quando, então, sem esquecermos disso, consideramos o papel importante que o impulso sexual desempenha, em todas as suas gradações e nuances (Abstufungen und Nuancen), não só nas peças de teatro e romances, mas também no mundo real (wirklichen Welt), onde ele, ao lado do amor à vida (Liebe zum Leben), mostra-se como a mais forte e ativa das molas propulsoras (stärkste und

tästigte aller Triebfedern), absorvendo ininterruptamente a metade das forças e pensamentos (Kräfte und Gedanken) da parte mais jovem da humanidade. É ele a meta final de quase todo esforço humano

(das letzte Ziel fast jedes menschlichen Bestrebens ist). 402

Para Schopenhauer, a importância do amor é correlativa “à seriedade e ao ardor dos impulsos” (Erns und Eifer des Treibens). 403 Desse modo, fica esclarecida a importância dramática que a sexualidade assume para o autor, pois o filósofo amplia o conceito para os mais variados interesses das pessoas, 404 antecipando as noções freudianas de sublimação e a de destinos do impulso.

Vida e sexualidade aparecem aqui unificadas, como nunca se viu antes na história da filosofia. A atividade sexual é a mais importante finalidade da vida humana, e como que uma síntese desta, especialmente devido à interdependência entre a existência individual e a vida da espécie. Ressalte-se que toda linguagem, toda cultura, no fundo giram em torno do interesse sexual. 405

idiossincrasia do “caso Schopenhauer”. Por outro lado, a estrutura do pensamento do filósofo de Danzig é indelével sob as máscaras do Trieb de Nietzsche.

399

WWV, SW I, p. 450. VR, p. 422.

400

WWV, SW II, Metaphysik der Geschlechtsliebe, § 44, p. 682. VR II, p. 7.

401 Idem , LG, § 42, p. 656. 402 Idem , § 44, p. 682. VR, p. 7. 403 WWV, E. SW II, p. 682. VR II, p. 8. 404 Idem ibidem. 405

É essa a reflexão mais importante acerca do Geschlechtstrieb e aquela que fornecerá as armas a Nietzsche (e também Freud) para extrair consequências e estruturar um pensamento muitas vezes aparentemente oposto ao de Schopenhauer, sem, no entanto, escapar dessa interpretação do psiquismo humano fundamentado no querer inconsciente e do qual a vida consciente é um reflexo.

A existência das gerações futuras é condicionada pela satisfação do impulso sexual em relação a um objeto determinado do sexo oposto, fruto de uma escolha particular. O que resulta do conjunto de escolhas possíveis é a própria composição da espécie, não apenas atual, mas também a dos tempos vindouros. É nesse único elemento, segundo o filósofo, que repousa “o patético e o sublime das questões amorosas” (das Pathetische und Erhabene der Liebesangelegenheiten).406

Desse modo, ele vê no querer-viver, e no desejo sexual que a expressa, a possibilidade de estabelecer uma passagem do gênero para o individual, no âmbito da sucessão de inúmeras gerações, que, se por um lado estão submetidas à causalidade das escolhas por motivos, por outro expressam, em seu conjunto, o interesse maior da própria espécie, espelhando a Vontade mesma. Isso quer dizer que a perpetuação da espécie humana depende sempre do enamoramento dos indivíduos uns pelos outros. Esse interesse determinado de um indivíduo, que transcende à necessidade de conservação da própria vida, é capital para a manutenção da espécie.

Daqui se desdobram dois pontos de vista distintos: em primeiro lugar, o que se anuncia na consciência individual (individuellen Bewuβtsein) como “impulso sexual em geral” (Geschlechtstriebe überhaupt) 407 que não se dirige especificamente a um determinado indivíduo do outro sexo, é considerado um correlato da “Vontade-de-vida em si mesma (Wille zum Leben schlechtin)”, e, portanto, “fora do fenômeno (auβer der Erscheinung).” 408 Por outro lado, o que aparece na consciência como impulso sexual já orientado para um indivíduo determinado é a Vontade “enquanto querer viver de um indivíduo determinado”. 409 Schopenhauer não diz simplesmente que a Vontade quer viver através do surgimento de um novo indivíduo da espécie; o que ele diz é que no próprio enamoramento do casal já está prefigurada a Vontade de um novo ser, que anseia por

nascer, pois a Vontade se afirma já ali. Uma vontade sem conhecimento e que se estende entre as gerações.

Assim, a reprodução é a finalidade mais importante de todo organismo e seu instinto

410

mais forte. Porém, apenas a espécie, como ato originário da Vontade, possui continuidade dentro da infinita sucessão de indivíduos possíveis. Desse modo, a morte não

406 Idem, p. 683. VR II, p. 8. 407 Idem, p. 684. VR II, p. 10. 408 Idem ibidem. 409 Idem ibidem. 410

O termo instinto aqui é bem aplicado, pois se trata de uma vontade da espécie expressa no indivíduo. Não é o enamoramento peculiar por um indivíduo determinado, mas um imperativo à reprodução.

atinge a Vontade, que em sua unidade dispõe de todos os seres possíveis: o fim atinge meramente o indivíduo fenomênico. É para assegurar a reprodução e, consequentemente, a manutenção da espécie, que o impulso sexual está colocado quase inteiramente fora do

controle da mente e do raciocínio individual, muitas vezes iludindo a consciência: “pois a

natureza precisa desse estratagema para atingir seus fins” (Denn die Natur bedarf dieses Strategems zu ihren Zwecken). 411 O indivíduo pensa no ato sexual como um bem para si, quando é, de fato, um bem para a espécie, “de modo que ele a serve enquanto pensa servir a si mesmo”. 412 Essa ilusão é precisamente o instinto, o sentido implacável da conduta da espécie, que, diante da vontade individualizada, utiliza “a máscara de uma admiração objetiva” (Maske einer objektiven Bewunderung), muito embora o impulso sexual seja uma “necessidade subjetiva” (sujektives Bedürfnis): “O arrebatamento vertiginoso que toma o homem quando ele vê uma mulher cuja beleza é para ele das mais adequadas, e lhe preludia a união com ela como supremo bem, é justamente o sentido da espécie” (der sinn der Gattung). 413 Por mais “objetivo e sublime” que pareça o enamoramento, ele tem em mira apenas a “procriação de um indivíduo de uma determinada índole”, o que faz com que o essencial não seja a correspondência amorosa, mas sim a posse física, o gozo. 414