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Neste movimento estão reunidas as descrições dos docentes frente à convocação da nova prática educativa, envolvendo formas inautênticas vivenciadas. Elas expressam a pouca abertura para a decisão e o trabalho, distanciando-se da execução da obra de educar.

Heidegger (1997) refere que o constante movimento de autenticidade e inautenticidade é próprio do existir humano. A descrição da vida cotidiana do homem sinaliza para uma existência inautêntica, significando que o homem se distancia do seu projeto essencial em favor de ocupações cotidianas. Com isso, muitas vezes, o homem acaba agindo e confundindo-se com o coletivo, dificultando o tornar-se si mesmo, distanciando do cuidado, enquanto o ser-aí se deixa absorver pela mesmice, ou seja, não busca a verdade e vive no impessoal, na própria inautenticidade. No entanto, para este autor, estas formas inautênticas podem significar a possibilidade de transcender e alcançar a própria essência, a própria verdade.

Não existe apenas uma só forma de agir ou um só conhecimento válido e, às vezes, a legitimidade da verdade encontra-se dividida no mundo repleto de muitas incertezas. Cada um, inserido em seu mundo, abarca muitas contradições factuais, que podem não ter sido criadas por ele mesmo. Assim, o sentido da verdade de cada um encontra-se relacionado à sua própria vivência à interpretação que faz sobre o seu próprio mundo.

O modo como o ser-docente vive o seu dia implica no próprio modo de ser, que pode ou não ser autêntico. Nessa condição, muitas vezes, se

vê diante de limites, distanciando-se da possibilidade de abrir-se para sair da mesmice, tentando posicionar-se fora daquilo que se repete, a fim de buscar o próprio modo de ser.

Para o ser-docente, a implantação do Currículo Integrado pode significar um momento de escuta diante de algo ainda não compreendido:

Eu me lembro também de ter participado da reunião de departamento, em que foi feita a apresentação dele (currículo integrado). E muitos dos termos, da terminologia, eram estranhos para mim. Então foi um momento de eu me aquietar, de ouvir. Tentar entender, e percebi que era uma coisa muito grande. Eu percebi que era uma mudança significativa. Eu estava tentando apreender o que significava essa mudança. E, tentando situar-me em relação aquilo que eu era, aquilo que eu sabia de enfermagem, aquilo que tinha sido o meu papel como enfermeiro e como professor. E, o que eu teria que mudar. Então, o primeiro momento foi assim de muita quietude e de muito ouvir, de ver aquilo que era passado para mim. Eu senti naquela época o quanto era expectadora do processo, porque eu não me sentia no direito de estar opinando. (d-1)

Poder ouvir conduz à de-cisão mais própria citada em Heidegger (1997). O ser-aí reconhece e aceita a condição de estar fora, de estar vivendo de forma inautêntica e é esta condição que possibilita a busca da sua autenticidade.

O fato o ser-docente ouvir o outro nas falas emergentes dos encontros pedagógicos, em relação ao seu próprio existir, cria na condição da existencialidade a posssibilidade de identificar-se com as mudanças, descobrindo o ser-docente a partir daquilo que já cuida, dando abertura para aproximar-se de si mesmo.

O ser-docente expressa também a ansiedade vivenciada pelo desenvolvimento da nova prática educativa, onde todos tinham que, ao mesmo

tempo, adquirir o novo conhecimento, conseguir praticar uma nova abordagem de educação.

Eu me lembro de muitas oficinas que você tinha que dar conta, de manhã de um assunto, no período da tarde de outro, na manhã seguinte já tinha que dar conta de outra coisa. Então essas oficinas altamente intensas, em que, às vezes, eu chegava no final da manhã e falava assim: Meu Deus do céu, é só isso que eu vou ter que dar conta. E textos e mais textos. E que ansiedade em relação a isso. (d-1)

Desde que a gente começou as oficinas lá em 2000 foi um crescimento muito duro, porque foi muito conhecimento adquirido. (d-9)

Estava dada, de forma implícita, uma urgência na apropriação dos novos conhecimentos e, desta maneira, trazia incoerências com os próprios princípios estabelecidos pela concepção que estava sendo discutida. Como problematizar, de forma natural e espontânea, se isto não era uma coisa cotidiana até então? Como ensinar de uma forma que não tinha sido vivenciada? O desafio assumido era grande, pois um grupo de professores, em sua grande maioria formado pela concepção tradicional de ensino, propunha-se a educar sob outra concepção.

Neste momento o ser-docente tenta acumular rapidamente conhecimentos, quase de forma mecânica, sem ter contato com os significados destes conhecimentos. Esta imersão em estudos e discussões coletivas mostra um distanciamento da convocação à obra de educar. Um momento de dificuldade em olhar ao redor de si mesmo, um momento em que se perde no coletivo, não consegue estabelecer sua própria direção, não encontra sentido no novo que se apresenta.

Tudo o que aparece é visto, ainda, como uma totalidade que esconde algo que necessita desocultar, para que novas possibilidades apareçam no transcorrer do novo currículo.

O desenvolvimento do processo de avaliação é outro momento em que o ser-docente se distancia da sua obra, restringindo suas possibilidades.

Porque no currículo tradicional a gente avaliava muito a questão técnica. Pelo menos a gente não avaliava tanto a questão das atitudes, daquelas três áreas cognitiva, afetiva, psicomotora... E eu vejo que a gente hoje vê a aluno muito além da parte técnica, você consegue englobar as três áreas, embora com um pouco de dificuldade, porque o processo de avaliação tem alguns problemas. É muito difícil selecionar dentro daqueles desempenhos que nós traçamos nos módulos, o que realmente é importante estar avaliando para a formação do enfermeiro, porque são muitos desempenhos que são escritos, muitas competências e a gente percebe que nem tudo que a gente escreveu é alcançado por causa do tempo, por causa do próprio número de docentes que é insuficiente e essa questão toda. (d-6)

O ser-docente, vivenciando a prática de avaliação desenvolvida, experiencia o prazer e a dificuldade de trabalhar as questões das atitudes dos alunos.

O acompanhamento do aluno é complicado. Primeiro porque tenho que me basear em comportamentos observáveis. Por exemplo, como é que ele está hoje na sala de aula?... Bom, isso traz um perigo porque na medida que você percebe a repetição do comportamento, você corre o risco de rotular o aluno... É mais complicado ainda porque você tem que atribuir valor e dizer para o aluno como ele está. Eu tenho uma dificuldade enorme para fazer isso. Eu gostaria muito de não precisar atribuir nota. Eu me julgo sempre fazendo injustiça, porque primeiro eu queria dar conta de observar tudo, e eu não dei. (d-4)

Surgem também as relações de poder, estabelecidas dentro do grupo:

Havia determinado grupo de pessoas que era carregador de pedras. Então, onde era determinado a gente ia. Só que comecei a me questionar, como é a minha profissão? Não era importante a minha posição enquanto ser pensante. Não era mais importante nessa altura. Era importante que eu executasse as tarefas que eram determinadas. Eu senti isso de algumas maneiras. (d-1)

É uma coisa assim que toda instituição tem, todo lugar que você trabalha tem e eu sempre digo isso, você carrega o piano, mas você tem pouca chance de tocar o piano. Nosso departamento tem que saber trabalhar limite, sabe, um reconhecer o outro sem tripudiar. É, sem querer subir nas costas do outro, sem pisar no outro. (d-9)

Referem-se ao grupo dos que carregam pedras ou carregam o piano, mas que nunca tocarão este mesmo piano. Expressam o sentimento de anulação, de distanciamento da possibilidade de opção e escolha de seu caminho, sentem-se excluídos enquanto pessoas. Sentem-se des-cuidados pelo grupo. Esse desgaste ora evidencia-se física, ora emocionalmente:

Foi muito extenuante fisicamente... Eu me lembro de ter ficado muito cansada no fim do módulo. Eu já estava muito cansada, um cansaço físico muito grande. (d-1)

Estou emocionalmente mais cansada... Cansada de falar... Mas as pessoas já estão também cansadas de ouvir. Acham que eu sempre falo a mesma coisa. Tem vezes que eu falo diferente e as pessoas acham que eu falo sempre a mesma coisa. Então, acho que as pessoas também estão cansadas de mim... Então, sinto que sou destratada também. (d-5)

Esta experiência vivenciada faz com que o ser-docente sinalize para a necessidade de ter um apoio psicológico, que seja realmente eficaz no sentido de proporcionar um suporte ao professor para o enfrentamento de todas estas situações novas.

Então quando cheguei no fim desse módulo chorei no dia da avaliação. Nesse dia coloquei que eu achava que deveria ter tido um profissional que tivesse acompanhando nesses primeiros 4 anos, tivesse acompanhando o corpo docente, é, justamente para auxiliar nesse processo de mudança. Se teria feito diferença, eu não sei, talvez não tivesse feito, mas acho que talvez pudesse ter facilitado a gente olhar de frente algumas questões que estavam incomodado. Eu sei que agora tem uma pessoa, mas eu não vejo ela fazendo trabalho com o corpo docente de maneira regular, da maneira como eu sentia necessidade.

(d-1)

Nada aparece para o homem sem um significado, o que depende de um nexo de relações. Nenhum projeto é isolado, e isso implica necessariamente, a presença do outro, mesmo que à distância, distância esta, onde permanece a presença do cuidar-com.

Assim, evidencia-se o quanto uma situação nova pode mobilizar questões existenciais e gerar diferentes necessidades. Os docentes vivem a cotidianidade de diferentes modos, que podem ou não serem autênticos. No entanto, nessa condição, mesmo distanciando-se da obra de educar, podem abrir uma possibilidade para alcançarem a autenticidade. A busca da autenticidade é uma construção da verdade de cada um em sua existência.