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Posteriormente, Platão consolida a proposta utópica es- boçada por Sócrates, dando-lhe um suporte conceitual, uma sus- tentação no plano ontológico: o ser perfeito, eterno e imutável está no topos uranos, em um lugar celestial, em um mundo de ideias perfeitas, de paradigmas supratemporais e incorruptíveis. Assim, o i lósofo não se limita a oferecer um suporte ontológiά co ao projeto racionalista iniciado por Sócrates de conhecer e corrigir o ser. Ele vai além, fornecendo uma forma efetiva de cristalizar essa utopia através de um projeto social e político. Esse ideal que levaria a humanidade além do mundo, visan- do uma realidade mais perfeita, poderá ser concretizado atra- vés de uma estrutura social, totalmente planejada, ordenada e prevista até nos seus mínimos detalhes. 5

A república idealizada por Platão se apresenta como o primeiro e mais perfeito plano de transformação e correção do homem e da cidadeέ τ i lósofo grego acredita na existência de um mundo verdadeiro que não é este que habitamos – nele estamos apenas em trânsito, em prol de aceder ao lugar futuro e luminoso, onde não haverá falhas nem faltas. Por isso, esse mundo terres- tre, em que convivem o positivo e o negativo, a alegria e a dor, a vida e a morte, deverá ser ultrapassado. Assim nasce a revolução antitrágica e surge o projeto de transformar radicalmente a natu- reza. Eis a primeira transvaloração de todos os valores. Quais os valores transvalorados? Os valores homéricos, os valores trá- gicos; em suma, são deixados de lado os valores terrestres e ima- nentes. Conforme descreve Nietzsche em Como o “mundo verda-

deiro” acabou por se tornar uma fábula, dessa forma surge um

sonho metafísico que, durante séculos, iludiu a humanidade em uma caminhada em prol do impossível, de uma quimera. Trata- -se da história de um erro6: o erro de pretender salvar ou redimir aquilo que, por natureza, não precisa de salvação nem redenção, pois o mundo – como sustentavam os primeiros pensadores gre- gos – não precisa de nada para além deleέ Partindo desse “erro”, a metafísica denuncia uma suposta falha originária que macula a realidade: o universo manifestaria uma ausência, uma carência. A

razão deve tentar preencher essa carência; para tal, será mister en- contrar uma i nalidade que só poderia ser concretizada para além do mundo. A polis estará, então, em função da realização desse projeto quimérico e antinatural.

Pelos motivos apontados, o homo politicus platônico sur- ge na imaginação como um homem utópico. As palavras para- digmáticas do livro II de A república inauguram a teleologia, a escatologia em políticaμ “όundemos em imaginação uma cidade” (369c). É preciso se afastar da cidade e do homem real; será ne- cessário postular um homem e uma cidade ideais. Esta formula- ção platônica tornou-se a matriz das ideologias, a raiz de todas as concepções revolucionárias. Haverá que projetar e modelar um homem perfeito; será mister arquitetar uma sociedade a partir do nada. A polis deve ser gerada em um laboratório de ideias, a par- tir de um hipotético momento zero das relações humanas, fazen- do tábula rasa de todas as relações sociais conhecidas, em um suposto começo a partir do nada.

“όundemos em imaginação uma cidade”μ eis a fórmula política que traduz a pretensão metafísica de atingir o mundo verdadeiro das ideias. Porém, é importante assinalar que Platão, desde o desenho dos alicerces a partir dos quais ele projeta a sua cidade perfeita, parece não se desentender das necessidades reais do homem e da sociedadeέ σesse sentido, o i lósofo é claro e categórico: a polis deve estar a serviço das urgências vitais. Ele ai rmaμ “Serão, ao que parece, as nossas necessidades que hão de fundaάla” (γθλc)έ A república, criada na imaginação, no labo- ratório conceitual do diálogo platônico, começa justamente pro- curando satisfazer o mais urgente e elementar das necessidades humanas, isto é, a alimentação, a habitação, o vestuário dos cida- dãos. Parece paradoxal, mas de alguma forma Platão inauguraria

o realismo na política. A cidade da imaginação visa resolver as

urgências vitais mais prementes da sociedade. Para atender essas necessidades, surgem as diversas proi ssões, as numerosas funά ções, imprescindíveis para o adequado desenvolvimento da pólis. Mas, por que essa cidade e esse cidadão tornar-se-iam, no decor- rer da proposta platônica, utópicos e antinaturais? Porque, poste-

riormente, Platão deixa de lado a preocupação com as urgências do homem natural, postulando um homem quimérico. O cidadão participará da cidade apenas como um passageiro para o além; na verdade, ele, no fundo, seria um cidadão de outro mundo. A ci- dade deve, então, preparar o homem para atingir esse destino ul- tramundano. A política, mesmo sendo pensada inicialmente para atender às necessidades concretas da cidade, posteriormente será colocada ao serviço da utopia, como o meio para aceder a um pre- tenso futuro celestial. A cidade será o laboratório para criar o ci- dadão modelar: o homem além da caverna, além do mundo. Será preciso, então, modii car as tendências iniciais desse ser humaά no. O homem paradigmático deve ser moralizado, purifi cado dos sentidos, das emoções, dos instintos.

O que quer dizer que Platão abandona o seu programa inicial: partir das necessidades concretas do homem. O cidadão deverá ser esse homem paradigmático, melhorado, moralizado; os seus impulsos vitais serão cerceados; o seu corpo será rigida- mente controlado, treinado para atingir um destino escatológico só realizável no mundo verdadeiro. O essencial passa a ser o cui- dado com a perfeição da alma, protelando totalmente as neces- sidades do homem concreto. Essa postura concretiza no terreno político a primeira transmutação de todos os valores: são supri- midos os valores trágicos, impõem-se valores que cultuam um pretenso além-mundo. O homem, nessa proposta idealista, deve ser transformado, melhorado, para tornar-se digno do caminho de ascensão à verdade, para conseguir retornar a seu suposto lugar originário: esse mundo inteligível situado além-da-terra.

É importante frisar que, a partir da proposta do modelo ideal de cidade arquitetado por Platão, a maior parte das dou- trinas sociais e políticas posteriores visaram também arquitetar uma cidade inspirada em um modelo político teleológico e utó- pico. Parece que, desde A república platônica, a política – assim como a religião, a moral, a metafísica – visa melhorar a natureza humana. Parece que quase todos os revolucionários de todas as épocas e das mais diversas tendências, partem da premissa de que há no homem e na cidade uma falha, que só eles conseguiriam

corrigir, num momento futuro, que só poderá ser conquistado a duras penas, para chegar a um lugar ideal e paradigmático. Essa perspectiva poderia sintetizar-se através da seguinte fórmula: “Há algo errado no homem e na cidade, é preciso transformá-los para construirmos um homem e uma cidade ideaisέ”7