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Egenrisiko og fremmedrisiko

In document Risiko i veitrafikken 2013/14 (sider 34-38)

Quessada afirma que o “Outro é excluído pela mais radical exclusão: a

inclusão”. (Quessada, 2007, p. 58, tradução nossa) Segundo este autor, o

termo inclusão foi empregado por melhor expressar uma incorporação. Desta forma, o Outro não é simplesmente recalcado, ele é dissolvido e com sua volatização existe a destruição de toda forma de alteridade. O autor defende

188 que no atual contexto presenciamos uma espécie de “altericídio” (“altéricide”)78 ou “outrocídio generalizado”, como denominou Lebrun (2008).

De forma semelhante, Dufour afirma que a queda das definições ternárias leva à escalada das definições autorreferenciais. “O sujeito falante, na

pós-modernidade, não é mais definido hetero-referencialmente, mas auto- referencialmente(sic).” (Dufour, 2005, p. 88) É verdade que o cartesianismo

seguido pelo iluminismo iniciou o movimento de centramento do sujeito sobre si-mesmo, mas Dufour salienta que a configuração autorreferencial surgiu no momento em que as várias formas heterorreferenciais do sujeito, praticadas pelo ocidente, levaram à catástrofe nazista da definição pela raça, ao horror do

Shoah.79 Para o autor foram estes desastres e outras decepções que levaram a uma definição autorreferencial do sujeito. Existe desde então uma autonomia jurídica do sujeito e uma liberdade econômica que são congruentes com a definição de autorreferência.

Lebrun, de modo semelhante, afirma que com o não reconhecimento da alteridade “só resta então a mesmice a ser reconhecida”, processo fecundo para se manter a segregação ou se realizar uma inclusão hipócrita com a adaptação e a impotente busca por sujeitos iguais. Neste contexto, “a cada

inevitável encontro com o outro, tendermos a recuar para vacúolos identitários, um recuo que só vai se amplificar.” (Lebrun, 2008, p. 206) Não existe mais o

“outro outro”, o outro diferente, apenas o “outro mesmo”, afirma o psicanalista (Ibid., p. 235)

Para ele, a solidariedade está também em desvantagem e sem lugar nesta sociedade pós-moderna, pois para que haja solidariedade é necessário que o trajeto singular não implique em uma rejeição do laço social. Se o limite está sem valor, resta apenas o trajeto singular sem a possibilidade para a solidariedade, ou mesmo para o laço social.

A proliferação do individualismo leva à ampliação das diferenças, afirma Quessada (2007), que alega não existirem tantos outros depois que não existe mais o Outro; neste sentido, as diferenças podem proliferar pelo fato de o Outro

78 Tradução nossa do termo do autor.

79 Expressão que significa “catástrofe”, utilizada para designar o genocídio perpetrado pelos

189 não fazer mais barra globalmente. Interessante notar que nesta tese a marca da proliferação das diferenças é a própria destituição da alteridade, a lógica dessa ampliação é que produzimos as diferenças pelo individualismo e destruímos qualquer alteridade por vivermos voltados para o Si mesmo sem o Outro. Com o fracionamento da referência normativa percebe-se uma explosão das reivindicações do direito à diferença e, neste contexto, revela-se um cenário provável para o fortalecimento não só da segregação das pessoas com deficiência, como da inclusão como simples reivindicação à diferença pela deficiência e não pela singularidade. Neste caso, há uma afirmação da própria diferença pela deficiência e uma supervalorização tanto da deficiência quanto de si mesmo.

A questão da diferença deixou de ser abordada pela dialética clássica entre o Um e o Múltiplo, ou pela lógica exclusiva e limitada da diferença e da identidade para ser transportada para uma lógica aberta, inclusiva e expansiva da singularidade e do ser comum, afirma Quessada. Por isso presenciamos uma exacerbação do que o autor chamou de “sistema diferencialista”. (Quessada, 2007, p. 64, tradução nossa) Neste processo, a Deficiência (com D maiúsculo) pode assumir o lugar do Outro e constituir um Outro artificial. Esta elaboração teórica pode ilustrar o fato de que as pessoas portadoras de uma deficiência auditiva preferirem ser tratadas como “surdas” e identificadas como tal ao alegarem haver uma diferença “positiva” na surdez.

Nesta busca da diferenciação pela falta da alteridade, percebemos uma grande mudança na relação do sujeito com o próprio corpo, utilizando o corpo como um campo para inscrever a marca da diferença que não se produz mais no simbólico. Dufour (2005) afirma que presenciamos ao mesmo tempo novas formas sacrificiais para esse semblant de Outro e assinala a existência de sujeitos que buscam se fundar amputando a si mesmos. Assim, presenciamos atuações extremas na contemporaneidade como, por exemplo, algumas pessoas provocarem a própria deficiência ou a mutilação de um órgão para constituir a diferença.

Žižek se refere aos episódios desta ordem - contra o próprio corpo - como uma forma de afirmação da própria realidade e os diferencia do ato de se tatuar. Para o filósofo esloveno, as tatuagens simbolizam uma tentativa de

190 inscrição do sujeito em uma ordem simbólica. Já os cortes significam a afirmação da própria realidade, “é uma tentativa patológica de recuperar algum

tipo de normalidade, de evitar o total colapso psicótico”. (Žižek, 2003, p. 24) O

autor afirma que este ato significa uma defesa contra a fragilidade da consistência do simbólico, não representando apenas uma tentativa de fuga da “sensação de irrealidade da virtualidade artificial do mundo em que vivemos,

mas do próprio Real que explode sob a forma de alucinações descontroladas”.

(Ibid., p. 34) Trobas (2003) também defende que as passagens ao ato aumentaram na contemporaneidade, como reflexo do enfraquecimento do simbólico. Nas passagens ao ato, ele situa como uma decorrência da ampliação da instância do real frente a esse enfraquecimento do simbólico, já no caso de uma ampliação do imaginário, levaria ao aumento da inibição.

Como ressaltamos no capítulo anterior, a debilidade pode surgir como uma defesa da psicose, e também como uma resposta psíquica no imaginário. Nestas ações descritas por Dufour e Žižek, a escolha do sujeito se dá no registro do real. Podemos constatar que a figura do monstro ressaltada por Foucault na modernidade, como signo extremo de depreciação, torna-se, na atualidade, uma figura almejada por grupos de pessoas que querem ser reconhecidos pela diferença e pelo horror ou pelo extremo. Nestes casos, a exceção é buscada no real e no próprio corpo, já que não ocorre no simbólico.

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