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In document Verdsettelse av Gyldendal ASA (sider 87-96)

Se na canção Beija eu, Antunes adota o uso de linguagem infantil para tratar de temas não diretamente voltados para a criança, a Canção Saiba reforça outro ponto do diálogo com a infância, já que foi produzida com a finalidade de ser uma “canção para ninar adultos”. Para tanto, Antunes incorpora ao texto a melodia do acalanto, ritmo conhecido pela finalidade de adormecer, embalar os sonhos da criança.

No Dicionário Didático de Português, Biderman (1998, p. 37) registra alguns significados para o termo acalanto: “desejar algo”, “alimentar espiritualmente”, “dar um incentivo”, “aconchegar”. No domínio musical, Mário de Andrade (1989), no Dicionário Musical Brasileiro, além de descrever significados para o termo “acalanto”, descreve, também, significados para o verbete “cantiga de ninar”, cuja definição complementa o significado de “acalanto”. Resumidamente, “acalanto” configura-se como um tipo de cantiga destinada a adormecer crianças e é comum em todo o Brasil. É uma canção “ingênua”, conjugada a uma melodia simples, que busca “reproduzir” o movimento da “caminha ou do balanço da rede”. Além de uma melodia simples, boa parte do repertório das canções de ninar (Tutu-marambá/ Boi do curra/ Boi da cara preta/ Cantiga da Cuca) evoca o medo e/ou ameaça para fazer a criança dormir. No encarte do CD Contos, cantos e acalantos, José Mauro Brant traz algumas observações sobre as canções citadas e sobre o gênero “acalanto”. Segundo Brant (2006),

o acalanto é um gênero musical curioso; ao mesmo tempo em que faz adormecer, ele evoca em suas letras personagens assustadores que se alimentam do medo infantil. O tutu, provavelmente trazido para cá pelas amas africanas, vem da palavra ‘quitutu’, que no idioma quibungo ou angolês significa ‘ogre’ ou ‘papão’. O boi, desde a antiguidade (o Minotauro) é um dos mais fortes símbolos do medo. A cuca (que depois do

9 Esta informação está transcrita no encarte do CD de Adriana Calcanhoto, intitulado “Adriana Partimpim”, de

‘Sítio do picapau amarelo’ da tevê aprendemos a ver como um grande jacaré verde) é um ser sem forma, assim, como o tutu, possibilitando à criança nela projetar seus medos mais comuns.

Essa ambigüidade, explicitada por Brant e Andrade, materializa-se em grande parte das canções de ninar conhecidas no Brasil e, independentemente dos medos e/ou ameaças presentes nas letras, buscam cumprir um propósito: fazer a criança dormir. De forma mais usual, as canções de ninar destinam-se ao público infantil, seu alvo imediato. Fugindo ao modelo comum, Antunes propõe criar uma canção de ninar para adultos, com melodia suave e sem grandes recursos instrumentais. A harmonia melódica, obtida a partir da adoção do ritmo do “acalanto”, confere a canção Saiba uma sonoridade próxima dos “acalantos” direcionados ao público infantil. Feitas essas observações, vejamos o texto da canção.

Saiba: todo mundo foi neném Einstein, Freud e Platão também Hitler, Bush e Sadam Hussein Quem tem grana e quem não tem Saiba: todo mundo teve infância Maomé já foi criança

Arquimedes, Buda, Galileu e também você e eu

Saiba: todo mundo teve medo Mesmo que seja segredo

Nietzsche e Simone de Beauvoir Fernandinho Beira-Mar

Saiba: todo mundo vai morrer Presidente, general ou rei Anglo-saxão ou muçulmano Todo e qualquer ser humano Saiba: todo mundo teve pai Quem já foi e quem ainda vai Lao Tsé Moisés Ramsés Pelé Ghandi, Mike Tyson, Salomé Saiba: todo mundo teve mãe Índios, africanos e alemães Nero, Che Guevara, Pinochet e também eu e você

A melodia dessa canção mantém uma linha melódica repetitiva, estrutura similar às melodias das cantigas de ninar. Soma-se a repetição melódica, repetições na escritura do texto, evidentes no primeiro verso de cada estrofe. O verbo no tempo imperativo (“saiba”), seguido de um enunciado de teor generalizante (“todo mundo”), ecoa em toda a canção, mantendo, basicamente, a mesma estrutura sintática. Os paralelismos sintáticos construídos reforçam o tom generalizante dos versos iniciais de cada estrofe: (“saiba: todo mundo foi nenén”/ “saiba: todo mundo teve infância”/ “saiba: todo mundo teve medo”/ “saiba: todo mundo vai morrer”/ “saiba: todo mundo teve pai ”/ “saiba: todo mundo teve mãe”). Mudam apenas as terminações de cada verso. Diante desses versos, a sensação de obviedade apresenta-se de imediato, pois defrontamos com questões inerentes a qualquer ser humano (nascimento, infância, medo e filiação). Será que todos sabem disso? Essa é a questão que paira sobre o texto, deixando ao leitor/ouvinte certo estranhamento diante daquilo do que lê ou ouve.

Se causa estranheza dizer/cantar que todo mundo teve mãe/ pai/ infância/ medo/ ou vai morrer/, seja pelo teor de verdade inquestionável ou pela obviedade enunciada, mais estranho torna-se colocar nomes e personalidades históricas lado a lado nas estrofes da canção. Que correlação há entre os nomes do segundo verso (Einstein, Freud e Platão) com os do terceiro verso (Hitler, Bush e Sadan Hussen) todos da primeira estrofe? A resposta está no primeiro verso: todos foram nenén. Poderia continuar: todos tiveram infância, medo, pai/mãe e vão morrer. Tais questões remetem para uma condição humana que é igual para todos os homens. Porém, muda a subjetividade de cada sujeito, ou formas de sujeito, uma vez que variam no tempo e no espaço em relação aos mecanismos de controle e com os jogos do poder. Problematiza-se o sujeito não como essência universal, mas como “formas de ser e modos de vidas plurais, quando não, marginais” (PRADO FILHO, 2005, p. 45). O caráter universal de algumas questões enunciadas no texto da canção Saiba (nascimento, medo, morte, etc.) não

aponta para uma concepção de subjetividade como essência, mas como diferença que separa os sujeitos descritos no texto (Bush e Freud, Che Guevara e Pinochet, por exemplo). Personalidades históricas díspares são colocadas lado a lado, apesar (ou justamente por isso?) dos interesses defendidos por cada um.

Retomando o ponto inicial da discussão, resta-nos levantar algumas questões: se esta canção tem o propósito de ser uma canção para ninar adultos, quais recursos ela mobiliza? Conforta-me saber que tive uma condição (fui nenén, tive infância, tive pai e mãe, tive medo e vou morrer) igual a Freud ou Fernandinho Beira-Mar? Por outro lado, que interesse tem ou teria em saber disso? Não se deve esquecer que o medo ou a convivência com o trágico está na base de muitas canções de ninar destinadas as crianças. Portanto, Saiba não foge disso, nela coexistem o acolhimento e o lado trágico da vida. O medo, a infância e a morte, apontam para uma condição humana inevitável, da qual ninguém escapa. Dessa maneira, a canção propõe uma abertura para acolher o trágico e afirma a vida incondicionalmente, independente do que cada sujeito assume para si e para o mundo.

De forma parecida com o que vimos discutidos até o momento, há nessa canção, um certo jogo lúdico com o qual Antunes “brinca” com a linguagem e as possibilidades de combinação, tanto textuais quanto melódicas. E é nesse brincar com a linguagem que o devir- criança pode ser compreendido como junção com o elemento lúdico, com o desejo, o prazer e com o espontaneísmo característico da arte como micropolítica (Rolnik,2000).

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