Aos inquiridos que mostraram ter como planos futuros a permanência até 2019 e optaram pela abordagem wait and see (Lulle et al., 2017), aguardando novos desenvolvimentos nas negociações, foi novamente questionado acerca dos planos futuros até março de 202144. Para este período, 77% da amostra revela que pretende permanecer definitivamente no RU e os restantes 23% desejam sair do país. São os inquiridos menos jovens (35 ou mais anos) os mais favoráveis a permanecer no RU e os mais jovens (25-34 anos) os mais propensos a sair do país neste período (Tabela 26). Os planos futuros dos respondentes para este período coincidem com aqueles apresentados no estudo da consultora KPMG (2017), cujos resultados apontam para a saída do RU, em maior número, de jovens europeus em consequência do brexit. Estes jovens, quando instruídos e com altos rendimentos, são característica da mobilidade líquida apresentada por Lulle
et al. (2017) e facilmente têm outras oportunidades de emprego noutros países com economias
concorrentes à do RU (KPMG, 2017). Não foram encontradas relações estatisticamente significativas entre os planos futuros até 2021 e os rendimentos anuais45 e tempo de residência dos respondentes no RU46.
Tabela 26 - Planos futuros até março de 2021, por faixa etária dos inquiridos (%)
n=951. Chi square=20,726, df=4, p=0.00036
44 A questão relativa aos planos futuros dos respondentes até março de 2021 apenas foi direcionada aos
inquiridos que, na questão anterior equivalente aos planos até março de 2019, responderam positivamente à permanência no país (“ficar no RU” e/ou “aguardar pelo fim das negociações e, posteriormente, tomar uma decisão”), excluindo assim os respondentes que optaram pela resposta “sair do RU” e que, efetivamente, para este segundo período
66% 23% 8% 3% Regressar a Portugal EU Fora da EU
Ainda não sei
Faix etária Ficar no Reino Unido Sair do Reino Unido Total
[18 - 24] 84,7 15,3 100,0 [25 - 34] 70,1 29,9 100,0 [35 - 44] 78,0 22,0 100,0 [45 - 54] 86,7 13,3 100,0 [55 +[ 82,5 17,5 100,0 Total 77,4 22,6 100,0
Relativamente à adoção de estratégias de integração47, é de realçar que, até 2021, 60,4% dos inquiridos prevê adotar alguma medida de integração. À semelhança do período aferido anteriormente até março de 2019, este, até março de 2021, apresenta resultados idênticos mas que evidenciam um crescimento do número de respondentes que pretende adotar este género de táticas. São os inquiridos que auferem rendimentos anuais inferiores os mais favoráveis à adoção de estratégias de integração (66,4%) (Tabela 27), assim como aqueles que não têm cidadania britânica são mais suscetíveis de adotar estratégias de integração (61,7%) (Tabela 28). Não foram encontradas relações estatisticamente significativas entre a adoção de estratégias de integração e a faixa etária48, os respondentes que possuem PR49 e o tempo de residência50.
Tabela 27 - Adoção de estratégias de integração até março de 2021, por rendimentos anuais dos inquiridos (%)
n=656. Chi square=10,9, df=4, p=0.0277
Tabela 28 - Adoção de estratégias de integração até março de 2021, por respondentes com cidadania britânica (%)
n=736. Chi square=12,682, df=1, p=0.0004
As diferenças observadas entre o desejo mostrado pelos inquiridos em adotar estratégias de integração nos dois períodos analisados – até 2019 (51,9%) e até 2021 (60,4%) – podem estar relacionadas com o facto de o segundo período ser mais distante e coincidir com o fim do período transitório depois do brexit (altura que se espera que seja menos incerta relativamente aos estatutos e direitos dos europeus no RU), onde as restrições à imigração serão maiores, bem como a seleção de imigrantes com base nas suas qualificações e rendimentos (Vargas-Silva, 2016) e, por essa razão, os respondentes considerem que, contrariamente ao primeiro período, seja mais necessário adotar estratégias de integração de forma a garantir a sua permanência no país depois do brexit .
47 A questão relativa à adoção de estratégias de integração até março de 2021 apenas foi direcionada aos
inquiridos que responderam positivamente (Ficar no RU) à questão anterior acerca dos Planos futuros até esta mesma data, excluindo assim os respondentes que optaram pela resposta “sair do RU”, tanto até março de 2019 como 2021.
48 Chi square=5,193, df=4, p=0.268. 49 Chi square=2,281, df=1, p=0.130988149. 50 Chi square=3,050, df=4, p=0.5495.
Rendimentos Não estratégias de integração Sim estratégias de integração Total Até £20,000 33,6 66,4 100,0 £20,001 - £30,000 45,9 54,1 100,0 £30,001 - £40,000 38,7 61,3 100,0 £40,001- £50,000 39,5 60,5 100,0 Igual ou superior a £50,001 53,8 46,2 100,0 Total 39,8 60,2 100,0 Tem cidadania britânica Não estratégias de integração Sim estratégias de integração Total Não 38,3 61,7 100,0 Sim 73,1 26,9 100,0 Total 39,5 60,5 100,0
À semelhança do que foi apurado da análise do período anterior até março de 2019, as razões de ordem económica são as que mais justificam a saída do RU até março de 2021, com 49,3% dos inquiridos a considerar que a perda de valor da libra reduz a atratividade do país, que o estado da economia vai piorar e o desemprego aumentar (44,2%), que os respondentes são a favor da UE e da livre circulação e contra ao brexit (41,4%), que o RU perdeu atratividade com o brexit (21,4%), que não se sentem bem-vindos e valorizados (20,5%), que não sabem se a sua permanência vai ser autorizada (19,1%), que o processo de adquirir PR é muito complexo (16,7%) e que vai ser muito mais complicado arranjar emprego enquanto cidadão europeu/estrangeiro (19,7%). Para além destes, alguns inquiridos referem como razões da saída motivos extrínsecos ao brexit como o facto de já planearem sair e o desejo de regressar a Portugal, sendo que, nestes casos, o brexit não teve qualquer influência nas decisões respeitantes aos planos futuros, realçando a representatividade da mobilidade líquida na amostra, cujas migrações são temporárias e imprevisíveis (Lulle et al., 2017).
Desses 77% dos inquiridos que ambicionam ficar até 2021 no RU, 52,3% pretendem adotar como estratégias de integração a aquisição do PR, 19,8% a obtenção de cidadania britânica e 16,3% pensam registar-se no consulado. Mais uma vez, na Figura 32, os padrões de resposta repetem-se com 66% dos inquiridos a referir que desejam regressar a Portugal e 18% a optar por outro país europeu, destacando a Holanda, a Suíça, a Espanha, a França e o Luxemburgo. A Espanha e a Suíça, enquanto países apresentados como alternativas de residência ao RU, coincidem com os que Peixoto et al. (2015) referem como sendo, para além do RU, países que têm registado um grande crescimento rápido de emigrantes portugueses. Dentro do grupo de inquiridos que planeia emigrar para países fora da UE destacam-se a Austrália, os EUA e o Canadá.
Figura 32 – Destino migratório dos inquiridos que vão sair o Reino Unido até março de 2021 (%)