• No results found

5.3 Finansiering av sykepleiers aktivitet i honorarmodellen – Forskrift om forsøk med

5.3.5 Egenandeler

A inclusão da questão sobre as mudanças pessoais sentidas pelos reclusos justifica- se pelo facto de pretendermos observar mudanças pessoais decorrentes da quebra de uma vida em liberdade e a passagem para uma outra vida em prisão. De que forma os reclusos experimentam esse impacto e são influenciados por ele?

Se para alguns reclusos a vida na prisão não alterou em nada o seu eu (Goffman, 1987) outros há que aproveitam esse tempo para equacionarem a sua vida passada e esboçarem a sua vida futura. Goffman, na sua obra a apresentação do eu na vida de todos os dias diz que numa sociedade, um indivíduo é o actor e representa papéis de acordo com o momento, com o ―público‖ e com o cenário com o qual se depara. O sentido para a vida que alguns reclusos encontram nas suas meditações carcerárias contrasta com a assimilação de outros em relação à diferença de vida que a sua presença na prisão significa: isenta de liberdade e totalmente sujeita às regras ditadas pelos mandatados do poder prisional.

O nosso primeiro entrevistado pauta a sua sobrevivência na prisão em conformidade com aqueles que são os seus princípios de vida afirmando que a reclusão não alterou a sua maneira de ser:

―Eu sou a mesma pessoa mantenho-me nas calmas, encosto-me no meu canto que é para não ter problemas e lá fora também. Quer dizer, mantenho a mesma linha [de conduta] que eu usava lá fora…‖ (António, 30 anos)

61

Gaspar é a mesma pessoa, tranquila, dentro e fora da prisão e, por isso, não sente que a sua presente situação de recluso o tenha modificado “Lá fora era igual como cá dentro. Sossegado.” (Gaspar, 39 anos).

Várias são as razões que fazem com que David não sinta mudanças na sua vida prisional em relação à sua circunstância em liberdade. Realça o ambiente social prisional, o trabalho que realiza no estabelecimento carcerário e, sobretudo, o permanente contacto que David mantém com a sua mulher que, como já dissemos, representa o sustentáculo daquele recluso e que, aliás, David não cessa de referir ao longo de toda a entrevista.

“É a mesma a maneira de pensar as coisas aqui dentro e lá fora, estou na mesma. Trabalho e tudo, só foi pena me ter dado esta coisa que me deu…[este recluso teve um AVC recentemente]” (David, 48 anos)

Outros reclusos por via de reflexões que a vida reclusa e a abstinência alcoólica facultaram mostram-se arrependidos dos crimes praticados e sentem, agora, como um fardo o peso de uma vida sem liberdade.

“Arrependimento, quando eu cometia crimes que fazia era à base de remédios e de vinho…” (Bernardo, 65 anos)

―Desta vez arrependi-me muito que eu fiz o tratamento ao álcool e… como álcool [bate as

mãos insinuando que aí não custava nada] não me importava, dizia eu: - vou preso, quero lá saber, não falta vinho lá dentro da cadeia, já estive lá uma vez, já estive lá uma segunda vez, não me importo de ir para lá outra vez, mas agora não, desde que eu fiz o tratamento ao álcool está muito pesada para mim a cadeia.‖ (Joaquim, 39 anos)

Dois reclusos sentem uma mudança total na sua vida. Quando questionado sobre as mudanças pessoais sentidas, decorrentes da vida prisional e em relação à sua vida do exterior, Bernardo afirma a mudança profunda que a vida de reclusão representa: “Mudou tudo. Mudou a minha vida do que era lá fora” (Bernardo, 65 anos).

62

Por sua vez, a perda de liberdade e a permanente obediência às regras ditadas pelos mandatados do poder prisional alteraram completamente a vida de outro recluso. “É muita diferença. Não tem nada a ver uma coisa com outra. Eu aqui estou preso e só tenho que fazer aquilo que eles me mandam, os guardas, os chefes me mandam…” (Carlos, 39 anos)

Um outro entrevistado encontrou nas reflexões carcerárias uma mudança para a sua vida. Esses pensamentos que também se cristalizaram através da cura do consumo de drogas transformaram Eduardo num homem com responsabilidade.

“Sinto-me menos rebelde aqui. Antes, consumia drogas e agora não fumo [haxixe]. Desde que entrei, comecei a pensar muito no erro que cometi e sinto que tenho mais responsabilidade.” (Eduardo, 40 anos)

Outro recluso faz apelo ao seu estatuto de herói de guerra no Ultramar para assinalar a injustiça a que foi e é submetido pela justiça portuguesa.

“Sinto-me injustiçado, revoltado contra a… nação que dei tanto, tanto, dei tanto por ela, que fomos os, fomos os heróis (…) Fomos os heróis em Ultramar e hoje vemos que a justiça funciona, funciona, eu sei lá, a justiça não é justiça.” (Francisco, 68 anos)

Outros reclusos consideram que se transformaram porque a vida na prisão fez alterar os seus ímpetos nervosos. Agora são indivíduos mais calmos. Corpos mais dóceis (Foucault, 2009)?

A experiência prisional de Hugo e o respeito com que é tratado pelos guardas prisionais alterou a sua personalidade no sentido que agora é um homem mais calmo, isto é, já não age com tanta violência.

63

“Alterou, o que alterou é eu ficar mais…mais sem tanta violência, mais calmo (…) E mais calmo, os guardas respeitam-me muito, os de lá de fora, os GNR já não me respeitavam como me respeitavam como estes porque eles faziam coisas bem piores do que eu, pelo menos os da minha terra.” (Hugo, 60 anos). Até porque, Hugo, deixou de consumir álcool: ―Agora não bebo, não bato mais nada em ninguém…‖ (Hugo, 60 anos)

Quando questionado sobre as mudanças pessoais sentidas pelo facto de estar recluso, o que no caso do Ivo se mostra com grande relevância dado estar preso já lá vão 6 anos, este afirma que aquela teve implicações no seu comportamento uma vez que agora é um homem mais calmo ―O comportamento (…) [antes] Mais agressivo (…) Costumava, se alguém me chateasse envolvia-me em confrontos físicos. Mas também era devido à alteração de nervos‖ (Ivo, 52 anos)

Bernardo, recluso reincidente, a cumprir pena de vinte e cinco anos e cumpridos mais de onze quando lhe perguntamos quais as mudanças pessoais que sentiu desde a sua entrada na prisão refere, sem justificar, que tem vindo a assistir a uma intensificação dos silêncios.

―Cada vez mais ouço os silêncios. Há muitos silêncios…‖ (Bernardo, 65 anos)