Volto então ao início do capítulo, abordando agora alguns pontos essenciais de Derrida (2003), em “Da Hospitalidade”, que me parecem afinados com as questões trazidas até o momento, em especial no que se refere à esfera da linguagem.
Derrida inicia com os diálogos de Platão, “Sofista” em especial, nos quais quem questiona e, portanto, traz o inédito, esse novo olhar, é justamente o estrangeiro (Ksénos). Trata-se de alguém que “não fala como os outros, alguém que fala uma língua engraçada”, desafia a lógica do pai Parmênides, afirmando que “o não-ser é, e que o ser, de certa maneira, não é”. O estrangeiro teme assim passar por louco, desequilibrado, por alguém que põe tudo de cabeça para baixo:
O Estrangeiro carrega e dispõe a temida questão, ele vê e prevê, ele sabe antecipadamente ser posto em questão pela autoridade paterna e razoável do logos [que seria o dito de Lévinas]. A instância paterna do logos se prepara a desarmá-lo, a tratá-lo como louco, e justo no momento em que sua questão, a questão do estrangeiro, parece apenas contestar o que deveria ser evidente mesmo aos cegos! (DERRIDA, 2003, pp. 07-11).
Ainda com Derrida (2003, p. 13) e Platão, agora em “O Político”, novamente é um estrangeiro que traz uma questão temida, mas, desta vez, é sim bem recebido, com direito à hospitalidade, marcada por Sócrates, que a acolhe, propondo-se a debatê-la: a questão do homem político. Mas, por vezes, o próprio Sócrates “tem feições do estrangeiro, ele representa, ele figura o estrangeiro, ele desempenha o papel do estrangeiro que não é”.
Sócrates (“Apologia de Sócrates”) se dirige a seus concidadãos e juízes atenienses, anunciando que pretende dizer o justo e o verdadeiro, “sem delicadeza de linguagem”, pois é “estrangeiro ao discurso dos tribunais, não sabe falar essa retórica do direito, da acusação, da defesa; ele não tem a
37 técnica, ele é como um estrangeiro”. Nas palavras de Derrida, trata-se de questão fundamental na discussão sobre hospitalidade:
Desajeitado ao falar a língua, [o estrangeiro] sempre se arrisca a ficar sem defesa diante do direito do país que o acolhe ou que o expulsa; o estrangeiro é, antes de tudo, estranho à língua do direito na qual está formulado o dever de hospitalidade, o direito ao asilo, seus limites, suas normas, sua polícia, etc. Ele deve pedir a hospitalidade numa língua que, por definição, não é a sua, aquela imposta pelo dono da casa, o hospedeiro, o rei, o senhor, o poder, a nação, o Estado, o pai, etc. Estes lhe impõem a tradução em sua própria língua, e esta é a primeira violência (DERRIDA, 2003, p. 15).
Derrida anuncia então um paradoxo inerente à hospitalidade: antes de acolher o estrangeiro entre nós, e para que possamos fazê-lo, pedimos a ele que nos compreenda e fale nossa língua, algo também presente no filme “Um cuento chino”. Mas, pergunta o autor: “Se ele já falasse a nossa língua, com tudo o que isso implica, se nós já compartilhássemos tudo o que se compartilha com uma língua, o estrangeiro continuaria sendo um estrangeiro e dir-se-ia, a propósito dele, em asilo e em hospitalidade?” (DERRIDA, 2003, p. 15).
Voltando a Sócrates, ele seria um estrangeiro acusado numa língua que afirma não usar, a erudita, dos juízes, devendo então justificar suas ações pela língua do outro – lembrando Lévinas, o dito se impõe, impedindo a criação do dizer. Sendo assim, usa do artifício de solicitar que o tratem com os cuidados comumente dispensados ao estrangeiro, tanto por causa de sua idade como de sua língua, a que tinha por hábito, a da filosofia ou a popular:
Venho ao tribunal pela primeira vez aos setenta anos de idade; sinto-me, assim, completamente estrangeiro à linguagem do local. Se eu fosse de fato um estrangeiro, sem dúvida me desculparíeis o sotaque e o linguajar de minha criação; peço-vos nesta ocasião a mesma tolerância, que é de justiça a meu ver, para minha linguagem – que poderia ser pior, talvez melhor – e que examineis com atenção se o que digo é justo ou não. Nisso reside o mérito de um juiz; o de um orador, em dizer a verdade (SÓCRATES apud DERRIDA, 2003, pp.17-19, grifo nosso).
Derrida faz uma digressão a respeito do uso do termo completamente nesse enunciado, destacando que também remete à ideia de simplesmente
38 estrangeiro, que seria: “sem artifício, sem tekné... inexperiente, sem técnica, desajeitado, sem perícia: eu sou simplesmente estrangeiro, pura e simplesmente um estrangeiro sem habilidade, sem recursos, sem riquezas” (DERRIDA, 2003, p. 17).
Outro aspecto trazido pelo autor diz respeito ao pacto estabelecido na hospitalidade, em que o estrangeiro tem seus direitos, mas também deveres, e que só pode ser legitimado com quem traz um nome próprio, que significa ter uma família: “não se oferece hospitalidade ao que chega anônimo”, um bárbaro, desconhecido. Este outro absoluto requereria, também, uma hospitalidade absoluta, aquela que rompe com a condicional, a de direito, ou a que implica no estabelecimento do pacto.
Então, para receber o outro, o estrangeiro, iniciamos querendo saber seu nome; ao enunciá-lo, ele se torna responsável diante da lei e dos que o hospedam, uma pessoa de direito, portanto – por isso, voltando ao filme, a preocupação de Roberto em legalizar a situação do estrangeiro, procurando o consulado ou ainda seus parentes no bairro chinês. Algo semelhante ocorre com crianças ou entre pessoas que se amam – são recebidas com perguntas sobre seus nomes ou como gostariam de ser tratadas.
Continua Derrida, ressaltando mais uma vez o paradoxo presente no tema: oferece-se hospitalidade a um sujeito identificável pelo nome, um sujeito de direito? “Ou a hospitalidade se torna, se dá ao outro antes que ele se identifique, antes mesmo que ele seja sujeito, sujeito de direito e sujeito nominável por seu nome de família, etc.?” (DERRIDA, 2003, p. 27, grifos do autor).
A resposta parece ser que não há estrangeiro antes ou fora do pacto da hospitalidade, que, como vimos, implica reciprocidade, troca de presentes, de dons, sacrifício, oferta de provisões, perpetuação da dinâmica dar-receber- retribuir.
Mas o que quer dizer exatamente estrangeiro, este que constantemente busca, ou buscamos, hospitalidade, ainda que incerta, temendo o não reconhecimento de si ou a hostilidade?
A discussão proposta até aqui implica questões de ética, presentes em inúmeras situações, e não apenas, obviamente, naquelas vividas quando nos arriscamos em terras estrangeiras, fora de nosso país de origem,
39 concretamente. Por isso a cronicidade de nossa condição, apontada no início do capítulo – cabem aqui inúmeras analogias, metáforas, viagens...
Pensando no tema desta tese, pergunto: aquele que chega ao universo acadêmico, de certa forma, um estrangeiro, não viveria algo muito similar, temores e expectativas, tanto da ordem da dinâmica dar-receber-retribuir, como, em especial, da ordem do idioma pessoal, ou confusão de línguas15, tão
bem circunscrito na referência de Derrida a Sócrates?
Uso o aposto “de certa forma” para marcar que esse estrangeiro teria sim alguma intimidade com a “língua da academia”, pelo fato de já tê-la experimentado ao longo da vida; mas, ainda assim, há algo novo, específico que configura a exigência do discurso nessa esfera de atividade humana que, sim, causa certo estranhamento e, me parece, pode atualizar experiências muito primitivas, memórias de fracassos, inclusive, no que diz respeito à comunicação, aqui entendida como lugar em que ser e aparecer coincidem (ARENDT, 1993). Pode surgir então o sentimento de não ser alojado ao expressar-se em uma língua com a qual não se tem familiaridade, ou de não ter acolhido o algo novo que se tem a dizer (a questão de pesquisa a ser emoldurada) no campo das identidades já constituídas no dito (LÉVINAS apud SNIKER, 2009).
Nesse contexto, cabe a questão: diante de experiências de hostilidade nesse campo específico, quais funções de cuidado a serem exercidas no contexto terapêutico, de modo a resgatar potenciais de expressão de si diante do outro?
Para explorar o tema, inicio pela base de tudo, voltando aos primórdios, ao modo como somos recebidos quando chegamos ao mundo, primeira experiência constituinte como estrangeiros, e o papel dos vários ambientes, educacional, familiar, cultural, que nos ofertam, ou não, hospitalidade.
1.2 Primeira situação como estrangeiro: inserção no mundo humano