O teste do reconto escrito objetivou verificar a capacidade do sujeito para reproduzir por escrito o conto lido por mim, bem como verificar se ele era capaz de manter ou não os elementos do enredo e a macroestrutura do texto narrativo. O quadro 23 expressa os aspectos observados na reescrita textual.
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Quadro 23 - Características analisadas no reconto escrito de um conto lido pela pesquisadora
Legenda: 1= Desempenho baixo; 2= Desempenho mediano; 3= Desempenho alto Fonte: Elaboração própria.
Tomando como referência os resultados do quadro 23, não há dados suficientes que possam explicar a regressão de alguns desempenhos da maioria dos sujeitos. Para a realização do teste do recontro escrito, no entanto, os sujeitos deveriam demonstrar, principalmente, a capacidade de uso de habilidades de compreensão textual, assim como de evocar e registrar as informações relevantes do texto. Essa última capacidade tem relação com o uso da memória, e no caso de pessoas com deficiência intelectual, elas deparam dificuldades de abstração, generalização e memorização. Essas pessoas também demonstram dificuldades de evocar e de representar a realidade, bem como de atingirem espontaneamente as estruturas operatórias mais avançadas (FIGUEIREDO; POULIN, 2008).
Importante é relembrar que, no outro teste (ditado), dos quatro sujeitos, apenas Karla permaneceu no mesmo nível conceitual de escrita, pois os demais avançaram para um nível de escrita mais elaborado.
Ao analisar a frequência dos desempenhos, foi observado o fato de que, dos quatro sujeitos, um deles, Renata ampliou sua pontuação entre o pré e pós- teste, um- Jéssica- manteve a mesma pontuação, enquanto os outros três diminuíram o quantitativo (Tereza, Joana e Karla). O aumento do quantitativo tem relação direta com a melhoria de desempenho dos quatro aspectos avaliados (reescreve o texto considerando as ideias principais e personagens, reescreve o texto considerando as ideias secundárias, mantém no texto escrito a organização temporal dos eventos de acordo com a história ouvida, produz o texto, incluindo
Aspectos observados Tereza Joana Jéssica Karla Renata
Pré Pós Pré Pós Pré Pós Pré Pós Pré Pós
1 Reescreve o texto considerando
as ideias principais e personagens 3 2 3 2 3 3 3 1 2 3 2.Reescreve o texto considerando
as ideias secundárias 3 2 2 1 3 3 1 1 1 3
2 Mantém no texto escrito a organização temporal dos eventos de acordo com a história ouvida
3 2 3 3 3 3 2 1 3 3
3 Produz o texto incluindo elementos pertencentes à história
lida pela pesquisadora 3 3 3 3 3 3 3 3 3 3
4 Reescreve o texto mantendo o encadeamento entre as sequencias com uso de conectores textuais
2 1 2 2 3 3 2 1 2 3
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elementos pertencentes à história lida por mim, reescreve o texto mantendo o encadeamento entre as sequências com uso de conectores textuais). Enquanto a diminuição da frequência desses aspectos mencionados vincula-se com a regressão dos sujeitos.
Comparando o desempenho entre o pré e o pós-teste, na fase inicial da avaliação (Pré), Tereza, Joana e Karla tiveram melhor desempenho no reconto escrito. Importante destacar que, no pós-teste, todas elas, incluindo as demais duas alunas (Jéssica e Renata), mostrou resultados semelhantes em um dos aspectos avaliados do recontro (produz o texto incluindo elementos não pertencentes à história lida por mim), porque mantiveram o alto desempenho. Esse resultado atesta que elas já demonstravam capacidade de produzir um texto, atentando para os elementos pertinentes à narrativa lida por mim e mantiveram essa competência no pós-teste.
No pós-teste, relevo evidência a considerar outros aspectos para a análise do reconto escrito, que a aluna Tereza apresentou avanços qualitativos na escrita, bem como em suas atitudes na qualidade de escritora de textos. Tereza tentou manter maior controle sobre sua escrita, utilizando estratégias de escrita conquistadas, em parte, nas atividades de revisão e reescrita textual na sala de aula comum. No reconto escrito, Tereza se utilizou da silabação das palavras, bem como conseguiu, em algumas ocasiões, identificar a necessidade da segmentação gráfica. As imagens a seguir ilustram o comparativo entre pré e pós-teste do reconto escrito da aluna Tereza.
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Imagem 56 - Reconto escrito do pré-teste/ Tereza
Legenda: O João e o pé de feijão/ A mãe pediu pra
comprar a comida/ Aí o homem segurou o pé de feijão/ Aí o menino viu/ Aí o menino subiu no pé de feijão/ Apareceu o gigante e a gigante/ A gigante segurou o menino/ E a gigante escondeu o menino/ Aí o gigante sentiu o cheiro do menino/ Aí pegou a galinha e a harpa/ Aí o menino escorregou no pé de feijão aí gigante foi atrás/ Aí o menino cortou a árvore
Fonte: Dados da pesquisa. Imagem 57 - Reconto escrito do pós-teste- Tereza
Legenda: O João pé de feijão a mãe (dele) pediu pra ele comprar comida para a gente comer me
dê a sua vaquinha que eu te dou pé de feijão subiu na árvore a mãe dele viu subiu a mãe dele foi chamar pra (ele) descer
Fonte: Dados da pesquisa
É evidente que, nas duas fases (pré e pós-teste – imagens 56 e 57), o reconto escrito da primeira denota maior riqueza de detalhes do conto lido por mim do que o da segunda. Provavelmente, o melhor desempenho no pré-teste pode estar relacionado com a maior preocupação de Tereza com a representação gráfica das palavras na etapa do pós-teste. Na imagem do pós-teste, é possível inferir que
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Tereza não se arriscou tanto na escrita, porque ela demonstrava preocupação com seu texto, para que todos compreendessem suas ideias. Interessante também destacar, a própria estrutura textual do pré-teste, que difere do pós-teste. No primeiro, Tereza, na sua escrita, não sugeria a ideia de texto, em algumas partes, pareciam frases fragmentadas sem um contínuo. Enquanto isso, no pós-teste, havia uma intenção clara de escrever um texto, com indicações de uma sequência linear.
Continuando com a análise dos dados no quadro 23, divisa-se que a aluna Jéssica manteve o mesmo desempenho no reconto escrito no pré e pós- teste. Apesar de ela ter obtido em ambos os testes o desempenho alto, foram identificadas, no pós-teste diferenças qualitativas quanto à representação gráfica das palavras.
Imagem 58 - Reconto escrito do pré-teste/ Jéssica
Legenda: O João e o pé de feijão/ Era uma vez a mãe
do João e ele/ Ela tava conversando com ele e mandou ele vender o boi/ Ele encontrou um homem no meio da estrada o homem deu feijão a ele/ Ele foi pra casa quando ele chegou lá a mãe dele jogou o feijão pela janela/ Ele ficou espantado por ter visto uma árvore subindo até o céu / Ele viu um castelo ele queria ver mais de perto/ Ele viu uma mulher gigante/ Depois o gigante chegou sentindo cheiro de criança/ Ela falou que era cheiro da comida/ Mandou sentar na mesa que ela ia servir/ Ele tava curiando o homem dormindo/ Ele fugiu/ E ele chegou em casa
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Imagem 59 -: Reconto escrito do pré-teste/ Jéssica
Legenda: Sua mãe mandou você vender a sua vaca para uma semente de
feijão/ Chegando na estrada viu um senhor a semente de feijão na mão/ Sua mãe pegou feijão jogou pela janela de manhã João acordou com muita fome sua mãe jogou o feijão/ Quando o João acordou foi até a janela ficou espantado quando viu o castelo queria ver castelo de perto/ Chegando no castelo apareceu a mulher do gigante ela escondeu o João no armário falou que o gigante não podia saber/ O gigante chegou disse que tava sentindo cheiro de criança ela falou é o cheiro da comida sente que eu vou servi-lo esperou a galinha botar ovos/ João ficou de trás da harpa João pegou a harpa e a galinha e saiu correndo ia escorregando chegou em casa sua mãe/ Disse se ele comprou ele não respondeu a harpa cantou para ele e para a mãe dele
Fonte: Dados da pesquisa.
Ao comparar os textos do pré e pós-teste do reconto escrito, viu-se que, no pós-teste, Jéssica também demonstrou maior capacidade de identificar a necessidade de segmentação entre as palavras. Além desse aspecto, a aluna demonstrou melhor qualidade na sua escrita quanto ao avanço conceitual, dado semelhante também conquistado na aplicação do pós-teste do ditado.
Quanto à aluna Renata, esta obteve melhor desempenho, ao se comparar os dados do pré e pós-teste. No pós-teste, ela conseguiu incluir em seu texto o nome da personagem central do conto lido, e de uma personagem secundária,
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assim como inseriu mais ideias secundárias ao seu texto, conferindo maior textualidade e qualidade quanto à progressão textual.
Foi comprovado neste estudo resultado semelhante ao apontado no ensaio de Silva (2013) sobre a omissão da escrita do título dos recontos escritos do sujeitos. Nesta pesquisa, três das cinco alunas omitiram o título da história no pós- teste e duas não o inseriram em nenhuma das distintas etapas de avaliação. Como aspecto relevante, houve a omissão de personagens e acontecimentos em ambas as etapas avaliativas. A omissão desses elementos textuais, no entanto, não sucedeu na totalidade das produções escritas. A omissão de alguns detalhes dos textos, como personagens, acontecimentos etc, pode ser explicada pela fragilidade na capacidade da memória de curto prazo identificada nos alunos com deficiência intelectual (FIGUEIREDO, POULIN, GOMES, 2010).
No pós-teste, outro aspecto relevante diz respeito ao uso eficaz de estratégias de escrita anteriormente utilizadas nas atividades de revisão e reescrita textual em duplas propostas na sala de aula comum. O emprego dessas mesmas estratégias sugere que esses alunos foram capazes de transferir conhecimentos de uma situação anterior para uma nova em outro contexto de aprendizagem. Avalio isto como um dado relevante, considerando a fragilidade metacognitiva desses sujeitos e as dificuldades que eles denotam para transferir conhecimentos anteriores para novas situações (FIGUEIREDO; POULIN; GOMES, 2010).
Concluo com essa análise comparativa entre pré-teste e pós-teste do reconto escrito, ao exprimir a ideia de que a mediação desenvolvida pelos alunos sem deficiência intelectual durante as atividades de revisão e reescrita textual evidenciou-se como um recurso propulsor para a qualidade da escrita de alunos com deficiência intelectual.
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