4.2 Implementation of Automatic Differentiation
4.2.5 Efficient Versus Readable and Elegant Code
Para a realização das traduções do Dicionário do Folclore Brasileiro levamos em consideração as teorias abordadas anteriormente. Entre elas, destacamos o estudo da Terminologia, que inicialmente se preocupava apenas com as áreas de especialidade consideradas técnicas e/ou científicas. No entanto, a partir de Barbosa (2006) vimos também que a Terminologia pode abranger as unidades terminológicas provindas dos discursos etnoliterários.
Por fim, vimos também a tradução etnográfica proposta por Ferreira (2014) e realizada a partir da descrição etnográfica apresentada por Lévi-Strauss (1955) e Laplantine (2004), onde buscamos descrever essas unidades etnoterminológicas a fim de poder traduzi-las para o outro, neste caso, as línguas espanhola, francesa e inglesa.
Veremos nessa sessão quais estratégias foram utilizadas para a realização das traduções e demonstrar, através das teorias já apresentadas, exemplos de aplicação da descrição etnográfica.
3.2.1 Das unidades etnoterminológicas ao etnotermo
Conforme mencionado anteriormente, uma nova área da terminologia se ocupa em estudar unidades terminológicas provindas do discurso etnoliterário. Barbosa (2006) apresenta um estudo feito a partir da literatura de cordel onde ela busca demonstrar dentro deste discurso as unidades terminológicas que fazem parte de uma área de especialidade, neste caso, a literatura de cordel. Anteriormente a esse trabalho os autores Pais e Barbosa (2004) já haviam iniciado os estudos do tema com o propósito de delimitar o que seria esse discurso etnoliterário. Nesse estudo os autores afirmam que:
Assim, os discursos etno-literários, de modo geral, e, particularmente, a literatura oral, a assim chamada literatura popular, os contos populares regionais não se submetem exatamente aos critérios que permitem tipificar os discursos literários, da literatura formal, escrita, ou os discursos sociais não- literários. (PAIS e BARBOSA, 2004, pp. 82 e 83)
Desta forma vemos que os autores buscaram, através dos discursos literários formais, demonstrar que não há espaço para certos tipos de literatura, neste caso, a literatura popular. No entanto, eles mais adiante afirmam a importância do estudo deste tipo de discurso para a preservação de uma identidade cultural.
Assim, os discursos etno-literários sustentam importantes facetas dos sistemas
de valores, dos sistemas de crenças, que integram o imaginário coletivo de uma comunidade humana. Mostram uma visão do mundo, apresentam as grandes linhas de um mundo semioticamente construído. Nesse sentido, constituem documentos altamente significativos, reveladores de uma cultura e do seu processo histórico. (PAIS e BARBOSA, 2004, p. 84)
A importância dos estudos destes discursos etnoliterários faz-se então crucial, não só para a divulgação das tradições desses sistemas de valores e sistemas de crenças, como também para a sua preservação. Dentro disto encaixamos o folclore brasileiro, que se encontra aqui registrado pelo autor Câmara Cascudo, mas que anteriormente a essa documentação já era parte da literatura popular oral.
Da mesma forma, Costa e Gomes (2011) também apresentaram a etnoterminologia como área da Terminologia que pauta seus estudos sob uma perspectiva das tradições populares. Estes autores, contudo, deram um enfoque diferente que a trazida por Pais e Barbosa (2004), direcionando seu trabalho para o estudo da língua Mundurukú e seus processos de cura.
Esse enfoque diferenciado parte da importância da manutenção e valorização das tradições; essa importância é reconhecida não só por nós, mas também pelos alunos e sábios do povo; logo, fez-se necessária a expansão da ideia inicial de terminologia, pois, se antes um dos objetivos centrais do dicionário era mostrar que se pode falar sobre práticas e saberes científicos externos à comunidade, utilizando-se da língua Mundurukú, e assim evitar o uso indiscriminado de termos em Português, hoje faz parte do desafio da etnoterminologia auxiliar na manutenção e difusão dos conhecimentos tradicionais junto ao próprio povo mundurukú. (COSTA e GOMES, 2011, p. 3414)
Os próprios autores destacaram que a natureza dos dois estudos, apesar de terem objetos de análise distintos, partem do mesmo objetivo, que é a manutenção e valorização das tradições, e acrescentam: “A principal diferença entre o nosso estudo e o de Barbosa é o objeto de análise: nela, foca-se os discursos etno-literários; em nós, os discursos de cuidado e cura tradicionais de uma dada etnia brasileira. Em essência, nossos objetivos e
epistemologia são muito, muito próximos”. (Costa e Gomes, 2011, p. 3414). Os autores confirmam assim que ambos os estudos possuem um viés em comum.
Em trabalho posterior, os mesmos autores, Costa e Gomes, apresentam então o que chamam de etnotermos. Até então, esses termos eram chamados de unidades etnoterminológicas, termo cunhado por Pais e Barbosa (2004). Como apresentado anteriormente, a autora chama essas unidades deste modo, pois as mesmas são advindas dos discursos etnoliterários, porém, em Costa e Gomes (2013) os autores os diferenciam novamente de Pais e Barbosa (2004) e de Barbosa (2006), conforme abaixo transcrito:
Portanto, apesar de em ambos os casos a proposta estar voltada para o estudo de uma terminologia mais cultural, no nosso caso o registro não parte de termos da literatura, mas de termos presentes nos discursos de especialidade com alto grau de tecnicidade e cientificidade, considerados os parâmetros de cada povo. Por isso, os denominamos de etnotermos. (COSTA e GOMES, 2013, p. 257) Vemos então que os autores também se voltam para uma terminologia cultural, mas que partem de discursos com elevado grau de tecnicidade e cientificidade presente nos processos de cura da medicina Mundurukú. Deste modo, ficam delimitados seus objetos de estudo diferenciados, que, no entanto, partem de pressupostos semelhantes.
No presente trabalho, tratamos do folclore brasileiro, em especial a tradução de verbetes nos quais estão contidas unidades etnoterminológicas. Também reconhecemos a importância desse estudo e que estes referentes não possuem equivalentes pois só estão presentes em uma cultura, neste caso, o folclore brasileiro.
Não se tratam de fenômenos naturais que podem ocorrer em outros locais, mas sim de uma cultura especifica. Todos os termos destacados por nós como unidades etnoterminológicas são referentes construídos pelo homem, e consideramos que a cultura está ligada ao homem.
Partindo então de ambos os estudos supracitados: Pais e Barbosa (2004) e Costa e Gomes (2013), definimos o termo etnotermo como uma metaforização do natural, isto é, visualizar o natural a partir de uma perspectiva mais abrangente no que concerne os estudos etnoterminológicos. E, portanto, compreendemos essas unidades como pertencentes a um discurso especializado, o do folclore brasileiro, mas que provém de um gênero textual distinto dos demais apresentados pelos autores acima, que neste caso é um dicionário de folclore.
No fundo, frente as particularidades e à aplicação das estratégias que serão apresentadas a seguir, percebemos que de alguma forma haviam pontos em comum às três línguas no que diz respeito a tradução etnográfica. Elas têm especificidades estruturais próprias, mas apresentam aqui objetivos em comum. Quanto ao tratamento das unidades etnoterminológicas, estas foram tratadas de maneira igual na tradução, apenas com descrição distinta e trazendo uma metaforização do natural para a tradução, portanto, essas unidades a partir de agora como etnotermos.