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A teoria das representações sociais, utilizada nos estudos dos fenômenos que se apresentam como problematizadores em contextos hospitalares e saúde, possibilita ao pesquisador captar a interpretação dos participantes quando da apreensão da realidade que se almeja pesquisar, e, também, compreende a percepção, atitudes e comportamentos do grupo que integra a equipe hospitalar, considerado o grupo social frente a um objeto psicossocial.

A teoria das representações sociais tem sido amplamente empregada com a intenção da promoção da qualidade de vida, por meio da utilização de conhecimentos especializados passou a considerar o conhecimento não especializado, o conhecimento leigo de diversos grupos sociais com a intenção de lidar com a complexidade do problema.

Os estudos, na área da saúde, pela perspectiva da teoria das representações sociais possibilita à aquisição de um conhecimento socialmente compartilhado e vinculado às construções sociais a partir de um saber específico do senso comum, influenciado pelos comportamentos e atitudes dos grupos sociais envolvendo as perspectivas hospitalares. As representações sociais enfatizam a construção social, a maneira como a pessoa pensa o seu universo, ocasionando um conhecimento socialmente construído por meio de discurso nos grupos.

Considerando que a representação social favorece conhecer a prática de um determinado grupo, ela permite aos profissionais realizarem intervenções que, por

respeitarem as características específicas de cada segmento social, poderão ser mais eficientes. As representações sociais são reconhecidas como sistemas de interpretação que dirigem nossa relação com o mundo e com os outros. Elas norteiam e estabelecem as condutas e as comunicações sociais. Da mesma forma, elas intervêm em processos variados, tais como difusão e assimilação dos conhecimentos, desenvolvimento individual e coletivo, definição das identidades pessoais e sociais, expressão de grupos e transformações sociais (Jodelet, 2001).

Nesse contexto, se faz necessário compreender como se estabeleceu o conceito de hospital ao longo de sua história. A palavra hospital vem do latim “hospes”, significando hóspede, que originou “hospitalis”. Historicamente, o hospital surgiu no ano 360 d.C. com o objetivo de restaurar a saúde e prestar assistência. Os hospitais inicialmente se constituíram como locais de isolamento onde a caridade se exercia como prática do cristianismo (Calvo, 2002). No final do século XVIII, passou ser uma instituição que intervinha sobre a doença e o doente, buscando produzir a cura, numa nova perspectiva de atuação. Com o desenvolvimento da sociedade viu-se a necessidade de não apenas cuidar da doença, atendendo a necessidade física, mas, em meados do século XX percebeu-se o hospital como um centro de investigação e pesquisa biopsicossocial, passando a ser compreendido como um todo proporcionando a manutenção do bem estar físico, social e mental das pessoas.

Dessa forma, desde o início do século XXI, o hospital, enquanto contexto de trabalho vem sofrendo um processo de humanização, por tratar da vida dos indivíduos, sejam eles profissionais ou pacientes, que possuem suas particularidades e subjetividades. O trabalho se constitui num fenômeno de grande importância na vida das pessoas e no desenvolvimento das sociedades, contribuindo para a sobrevivência dessas e dos grupos humanos, bem como, na construção e transformação do mundo em

que se vive. Como construção social, o trabalho adquiriu, ao longo da história humana, diferentes significados, determinados por fatores políticos, sociais e culturais, além de outros próprios da história individual, tais como aspectos sociodemográficos, socialização e características do contexto laboral (Veiga, Fernandes & Paiva, 2011).

No contexto hospitalar o trabalho assume uma abrangência de aliar as experiências da prática especializada com os componentes técnicos, os fatores relacionados às condutas administrativas e relacionais, denotando uma posição social no processo de cuidar e gerenciar as ações laborais. Esse desenrolar de ações cumpre uma posição de se manter atento à funcionalidade da estrutura organizacional e o conhecimento gerado por esse processo, visando alcançar a excelência do cuidado, bem como, garantir a qualidade da assistência. Muitas discussões se procedem como destacadas por Lima Júnior, Alchiere e Maia (2009) quanto às inadequações existentes como a falta de qualificação, baixos salários, quadro insuficiente de pessoal, maior exposição a fatores de risco para a saúde e a convivência de funcionários sob-regimes diversos dentro dos hospitais geram dificuldades no gerenciamento do sistema de saúde, reflete negativamente na qualidade da assistência prestada comprometendo a satisfação do profissional no trabalho.

Os hospitais recebem classificações como públicos ou privados em sua natureza administrativa. Os públicos são sustentados pelo Estado através dos comandos a nível federal, estadual ou municipal, enquanto que os privados são mantidos pelas demandas de atendimentos originárias dos serviços prestados aos clientes ou ainda por outras fontes provedoras oriundas de seguradoras, cooperativas ou instituições filantrópicas. Uma grande parte desses hospitais privados celebram contratos disponibilizando parte de seus leitos para o Sistema Nacional de Saúde. Quanto ao processo seletivo do corpo de colaboradores desses hospitais os privados desenvolvem esse processo através de

contrato ou como autônomo, mediante seleção ou indicação, nos públicos, a contratação se dá por concurso público.

No tocante a classificação para facilitar as destinações de recursos e pacientes é estabelecida de acordo com o porte, especificidade, complexidade de ações e natureza administrativa. Os hospitais, quanto ao porte, são classificados pelo número de leitos existentes, essa classificação não incorpora aspectos efetivos do seu porte como área de abrangência do hospital, perfil epidemiológico da população atendida e número de outras unidades hospitalares na área. A especificidade do hospital pode ser definida como geral ou especializada. Na geral atende pacientes com faixas etárias definidas, crianças, adolescentes, adultos e idosos, acometidos de qualquer patologia, considerando as especialidades básicas de ginecologia e obstetrícia, pediatria, clínica médica e de cirurgia. Na especializada atende as particularidades de uma ou mais especialidades ou de um grupo específico de patologias, como as maternidades, os hospitais psiquiátricos e os hospitais ortopédicos (Calvo, 2002).

O hospital, espaço de atuação profissional de um número considerável de pessoas de variadas formações, é também um espaço de realização, sofrimento e angústia, pois se convive com os pacientes, seus familiares e amigos, interagindo com os profissionais das áreas administrativa e da saúde, transformando-se em um espaço gerador de tensão e estresse. O hospital, de acordo com Santos (2010), se caracteriza como organização social, é uma instituição que evoca o estresse como uma condição social ao seu uso e necessidades da vida. Tem amplas circunstâncias institucionais sobre as experiências na vida das pessoas e a sua estrutura de convivência é ampliada para a sociedade seja para as pessoas que lá ingressam para receber o cuidado tanto para aqueles que vão lá ministrá-lo. É, por outro lado, um espaço recortado de demandas diversas, prioridades diversas na busca da uma qualidade de vida.

As atividades dos profissionais que atuam em contextos hospitalares são fortemente tensionais, devido às prolongadas e estafantes jornadas de trabalho, proveniente de um número limitado e reduzido de profissionais e ao desgaste psicoemocional nas atividades realizadas (Guimarães & Grubits 1999). Essas exigências somam-se aos modelos de hierarquias sociais onde as relações se posicionam na linearidade das relações que se estruturam e se redescobrem nas interações entre os profissionais. A regra maior a ser respeitada diz respeito à divisão do trabalho uma vez que se conduz para o foco da atenção.

Os processos de trabalho desenvolvido pelos profissionais dessas organizações tem uma estruturação prévia, onde cada um cuida da sua parte, sem que haja um trabalho coletivo no arranjo organizacional, o trabalho em equipe passa a ser inerente e decisivo nessa relação profissional, e se desenvolve além dos processos de trabalho, envolvendo relações de poder e interações entre setores, as escalas de plantões, jornadas e turnos de trabalho, locação e relocação em setores e a delegação de responsabilidades agregam os princípios de sua funcionalidade (Santos, 2009).

É fundamental, portanto, que aconteça um diálogo interdisciplinar e por vezes, no contexto em questão, o hospital, muitas vezes este é difícil, outras vezes inexistente, resultando em conflitos de papéis e ausência de trabalho em equipe, desencadeando retrabalhos, como evidenciados nas entrevistadas que fizemos nos profissionais desse estudo.

Sendo as representações sociais que, através de um conjunto de valores, crenças, determinam às práticas sociais, podemos inferir que as expectativas do grupo profissional, quanto aos papéis a serem representados e normas a serem cumpridas, estão muito mais num conjunto de regras simbolicamente construídas do que hierarquicamente mantidas ou não. A excessiva carga de trabalho, muitas vezes, é

determinante desses conflitos, uma vez que os profissionais podem estar sendo influenciados, também, pelo rápido desenvolvimento tecnológico, as divisões de trabalho que estabelecem elevada hierarquia de autoridade, com canais formais de comunicação e um grande conjunto de regras e normas para seu funcionamento, como tratado anteriormente.

Em função da excessiva carga de trabalho, o ambiente hospitalar origina particularidades associadas ao contato direto com situações limite, o elevado nível de tensão e os altos riscos para si e para os outros (Pitta, 2003). Além da exigência de manutenção das atividades ininterruptas que desencadeia na existência de regime de turnos e plantões, permitindo a ocorrência de duplos empregos e longas jornadas de trabalho, tal prática potencializa a ação que promove o estresse ocupacional.

O cuidado sobre o outro é o núcleo do processo de trabalho em saúde e, sobretudo no fazer das atividades hospitalares. O trabalho em saúde apresenta diversidade de atividades de produção e serviços, promove diferentes tipos de insumos, tecnologias, informações e gestão para os segmentos produtivos da linha de cuidado, sendo os elementos ativos e constituintes do processo de trabalho (Schwartz, 2004).

Desta feita, a teoria das representações sociais tem adquirido força no campo das investigações na área da saúde, por comportar diferentes abordagens de estudos e métodos. Portanto, tem suscitado um amplo espaço de discussão e pesquisa, na apreensão dos construtos psicossociais, capaz de oferecer um melhor entendimento sobre atividades cognitivas, simbólicas e afetivas dos indivíduos nas suas relações e interações do dia-a-dia e tomadas de posicionamentos sociais.

No próximo capítulo apresentaremos os resultados dos estudos 1 e 2 , com seus procedimentos de análise e discussão.

CAPÍTULO 5. ESTUDO 1: REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DO ESTRESSE OCUPACIONAL E