económicos imediatos têm também implicações sobre a percepção de felicidade. É este o assunto que nos ocupará em seguida.
3.2. A felicidade em tempos de crise
“É um facto geral que as crises económicas exercem uma influência agravante sobre a tendência para o suicídio.”(Durkheim, 1982).
No ponto anterior discutimos as transformações sociais ocorridas no sentido da crescente emancipação e autonomia dos indivíduos quanto à sua capacidade de opção e decisão. Autores como Sen (2011) destacam a importância do desenvolvimento para assegurar as oportunidades de vida, no sentido de que a liberdade de acção individual está condicionada pelas condições sociais, políticas e económicas. Aqui pretendemos reflectir sobre os efeitos que a actual crise poderá ter sobre este processo e sobre a percepção de felicidade.
Actualmente, a economia portuguesa caracteriza-‐se por uma forte redução dos salários dos funcionários públicos e das pensões de reforma, o aumento do IVA, que se reflecte sobre a maioria dos bens de consumo, uma taxa de desemprego elevada e uma taxa de crescimento negativa do PIB per capita43.
Esta situação decorre do colapso dos mercados financeiros internacionais de 2008/2009 que conduziu à intervenção, em Portugal, do Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e União Europeia, e à introdução de medidas de austeridade a partir de 2011.
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O Imposto sobre o Valor Acrescentado (IVA) é de 23%, a taxa desemprego em 2012 é de 15,7% e verifica-‐se um decréscimo do PIB per capita nos últimos anos (Fonte: INE e PORDATA).
Desde então “O termo crise banalizou-‐se mas nem por isso deixam de ser marcantes os seus impactos, assim como dramáticos e devastadores os seus efeitos para determinadas classes e grupos sociais [...]” (Silva, 2013).
De acordo com Manuel Carlos Silva, a recessão económica tem provocado situações de desemprego maciço decorrentes de despedimentos colectivos, falências ou encerramentos de empresas. A par do aumento do desemprego assiste-‐se a uma forte redução do poder de compra e o progressivo empobrecimento das camadas sociais mais vulneráveis: “Com cortes nos subsídios, pensões e salários, com a eventual quebra das margens de poupança e o congelamento do crédito, as empresas e as famílias têm cada vez maiores dificuldades em fazer face a despesas correntes.” (Silva, 2013).
Ora, todos estes aspectos condicionam directamente as condições objectivas de vida das pessoas (pela diminuição dos rendimentos, pela alteração da situação face ao trabalho, pela mudança dos estilos de vida, nomeadamente na sua vertente de consumo) e obrigam à reformulação dos seus modos de agir, pensar e sentir, bem como das suas expectativas. Estas reformulações afectarão diferentemente os diversos estratos sociais, os vários grupos etários e os homens e as mulheres (Pereirinha et al., 2008; Walby, 2009).
De realçar que esta conjuntura económica surge após décadas de crescimento do rendimento per capita, taxas de desemprego abaixo dos 10% em Portugal e a consequente melhoria das condições de vida da população.
Paralelamente, assistiu-‐se a uma mudança das prioridades e necessidades que se deslocaram de uma lógica de maximização económica em direcção a prioridades dadas a valores de auto-‐expressão, de ênfase na participação e qualidade de vida (Inglehart et al., 2008). Estas mudanças de referenciais desenvolvem-‐se a par de modelos de consumo em que os objectivos do bem-‐ estar e a procura de uma vida melhor são claramente valorizados (Lipovetsky, 2007). A este respeito lembramos Di Tella, MacCulloch e Oswald, quando destacam a importância do desenvolvimento económico para a felicidade. Explicam estes autores que mesmo sabendo que o crescimento económico não
tem um efeito continuado sobre o aumento da felicidade, as condições económicas suavizam a pressão do dia-‐a-‐dia: “Macroeconomics matters. People’s happiness answers en masse are strongly correlated with movements in current and lagged GDP per capita.” (Di Tella et al., 2003).
No mesmo sentido, outros estudos reforçam a importância das condições económicas sobre os modos de vida, ao explicar que a retracção do crescimento económico é acompanhada pela contracção das condições sociais e por estratégias de sobrevivência e competição pelos recursos escassos. Por sua vez, estas conduzem os indivíduos a disciplinas rígidas e pouco autónomas, realçando valores de conformidade ou submissão e enfraquecendo valores de auto-‐ expressão e tolerância social que, como vimos, estão associados a níveis mais elevados de felicidade (Inglehart et al., 2008; Welzel et al., 2003).
No mesmo sentido, Graham alerta que: “As crises financeiras são terríveis para a felicidade. Isso não é nenhuma surpresa. Sabemos que as pessoas são avessas à perda e não gostam de incerteza. As crises acarretam uma dose significativa de perdas e incerteza. Também não é nenhum segredo que as crises produzem movimentos de uma invulgar magnitude na felicidade [...] os efeitos devem-‐se tanto às perdas de realização pessoal, em termos de rendimentos e empregos, já sofridas e ainda por vir, como ao clima de incerteza que paira sobre a crise e as suas causas.” (Graham, 2011a).
Assim, e de acordo com esta autora, a crise tem implicações sobre a felicidade, tanto pelos seus efeitos directos sobre as condições de vida (quebra de rendimentos, desemprego, perda de casa, entre outros), como pelos seus efeitos sobre as percepções e expectativas face ao futuro.
A alteração da situação social e económica decorrente da crise em Portugal tem assim consequências directas sobre os modos de vida, mas também sobre as formas de sentir e procurar felicidade. Como tal impõe-‐se a avaliação dos seus efeitos sobre as percepções de felicidade, bem como, dos impactos sobre as formas de agir, pensar e sentir. O nosso trabalho passará, precisamente, por esta avaliação.
Em seguida, focar-‐nos-‐emos na delimitação conceptual do conceito de felicidade.
3.3. Em torno do conceito de felicidade
“A felicidade é como uma cebola: quando a descascamos o centro desaparece e, quando a cortamos, choramos” (Mcmahon, 2009).
Uma das primeiras questões que se coloca quando discutimos felicidade é encontrar uma definição e uma delimitação conceptual que permita captar tanto a sua multidimensionalidade como relatividade. De facto, o termo felicidade remete para diferentes significados. Se para uns expressa alegria, para outros poderá revelar tranquilidade ou ainda remeter para a avaliação da forma como vivemos.
Vimos anteriormente que os modelos sociais de felicidade condicionam as expectativas e agem sobre os sentimentos. Por sua vez, as expectativas influenciam a forma como sentimos, agimos, avaliamos e expressamos os sentimentos. Importa assim clarificar de que falamos quando falamos de felicidade, nomeadamente incidindo sobre os significados sociais que lhe estão associados.
Este é o objectivo deste ponto: propor uma definição de felicidade abrangente mas clara, identificando as suas principais dimensões e indicadores, alicerçada nos contributos teóricos já apresentados e tendo por fito a sua operacionalização.
A literatura está repleta de referências à dificuldade – e mesmo à impossibilidade – de definir felicidade. Embora grande parte das pessoas deseje