can and do give meaningful responses” (Inglehart et al., 2008). A ideia subjacente é a de que as pessoas são capazes de avaliar a sua vida de diferentes formas, reflectir sobre esta avaliação e incorporar esta reflexão nas suas respostas. As avaliações são guiadas tanto pela intuição afectiva como pela cognição, ou seja, por comparação e em função de como nos fazem sentir.
Mas o que fica a faltar é a compreensão científica dos significados da avaliação, reflexão e as consequências da incorporação.
Parece-‐nos que estas opções têm em vista a produção de medidas/indicadores de avaliação do funcionamento geral da sociedade e não a compreensão do fenómeno da felicidade nas suas implicações sociais e individuais. Se esse é o seu objectivo, concordamos que a avaliação do bem-‐estar inclua indicadores de auto-‐avaliação de felicidade. Porém, um entendimento mais vasto e completo de felicidade, tal como pretendemos desenvolver, requer uma abordagem teórica e metodológica mais alargada e não apenas a mensuração da apreciação individual da vida.
Desta forma, o estudo da felicidade tem também de compreender a sua importância como valor orientador, os significados e as práticas que se relacionam com felicidade e tal como são percepcionados pelos indivíduos e o contexto sociocultural que os enquadra.
Em seguida, serão apresentadas as sub-‐dimensões referentes às duas dimensões de felicidade já identificadas (como sentimos e como vivemos).
3.3.2. As dimensões e sub-‐dimensões de felicidade
Com base no contributo de Averill e More (2000), propusemos duas dimensões para o conceito de felicidade: os sentimentos (como nos sentimos) e a
conduta de vida (como vivemos). Passaremos agora a identificar as sub-‐ dimensões e indicadores associados a cada uma destas dimensões.
Assim entendida, a felicidade depende da percepção da forma como nos sentimos (e respectiva avaliação) e a forma como nos sentimos é influenciada pelas condições e circunstâncias de vida mas também pela conduta de vida47.
Desta forma, como nos sentimos reflecte não só estados emocionais, como a percepção feita acerca das circunstâncias e condições de vida. Esta dimensão é observável através de medidas de auto-‐percepção/ auto-‐avaliação48. Por sua vez, a conduta de vida decorre de condições de vida objectivas, tanto ao nível das condições económicas de um país, como as condições de saúde, as dimensões profissionais, as relações interpessoais e as especificidades biográficas, mas também das percepções acerca dessas condições, dos significados e da importância atribuída a felicidade e da sua tradução em práticas. Lembramos o esquema anteriormente apresentado no capítulo 2, que representa os aspectos que influenciam os processos de percepção e avaliação da felicidade: por um lado, as influências da estrutura social e cultura; por outro lado, aspectos relativos às condições de vida objectivas que, conjuntamente, definem circunstâncias de vida, enquadram práticas e estilos de vida, mas também as relações interpessoais e produzem significados sociais.
Assim, propomos que inclua indicadores da ocorrência de sentimentos (estado emocional), tal como sugerem as recomendações da OCDE (OCDE, 2013a) e Kruger, Kahneman, Schkade, Schwartz e Stone (2009) a par de indicadores de percepção e indicadores mais objectivos que traduzam as condições de vida concretas.
47
Ficam de fora da análise aspectos do foro individual (genética, personalidade, doença mental, entre outros), não por os considerarmos pouco relevantes para perceber a felicidade, mas porque caem fora do âmbito da Sociologia.
48
Apesar da auto-‐avaliação ser, normalmente, medida em escalas numéricas, esta não é a única forma de aceder a percepções.
Estudar sociologicamente felicidade obriga ainda à compreensão dos significados e das práticas, nomeadamente a importância atribuída à felicidade e ao ser feliz, bem como, os estilos de vida e as orientações para a acção, além das condições de vida. Mais concretamente, se as circunstâncias influenciam os estados emocionais, as percepções e as práticas, o inverso também se verifica, ou seja, o campo de possibilidades é definido por percepções, estados emocionais, valores e significados que enquadram práticas individuais.
Neste sentido, o grande contributo que a Sociologia pode dar situa-‐se na análise mais aprofundada das percepções de felicidade, ou seja, como as pessoas entendem e definem felicidade. Esta abordagem opõe-‐se a outras que defendem que é irrelevante o que cada um considera como importante e que a ausência de uma definição facilita a medição e comparação dos resultados.
Aliás, Bartram (2012) defende o papel da Sociologia pode (e deve) ter na investigação desta temática, nomeadamente incidindo nas mudanças do que as pessoas dizem e fazem acerca da felicidade, entendendo que essas modificações devem ser analisadas com os instrumentos da Sociologia para que sejam entendidas no contexto que as produz, explorando as desigualdades sociais e as relações de poder presentes nos discursos e práticas de felicidade.
Acreditamos que, tal como Barbalet (1998) defende em relação à vergonha, a discussão deve deslocar-‐se das variações da expressão do estado emocional e incidir nas transformações do contexto social em que as emoções e sentimentos são experimentados e partilhados e que contribuem para a alteração ou manutenção do mesmo.
Trata-‐se de recuperar para a Sociologia, como propõe Illouz (1997), aqueles que deveriam ser os seus objectos de estudo: modelos socialmente situados de felicidade: “[...] Sociology should concern itself with what has been too easily left to Psychology, namely with well-‐being, happiness, selfhood and with the languages used to define and talk about those socially situated forms of eudaimonia.”(Illouz, 1997). Esta sugestão de abordagem vem reforçar a nossa proposta: focar as percepções das pessoas acerca do que as faz felizes,
explorando a sua compreensão e definição de felicidade à luz das suas características socioculturais e do contexto em que se produzem as percepções de felicidade.
Assim, defendemos que a Sociologia tem de contribuir para o estudo da felicidade, particularmente incidindo sobre o contexto sociocultural em que se produzem percepções de felicidade, seus efeitos sobre o comportamento, interacção e organização social, tal como propõem genericamente Stets e Turner (2008) para o estudo das emoções e sentimentos. À Sociologia impõe-‐se ainda a tarefa de explorar o recorte sociológico do que é dito e feito acerca da felicidade, nomeadamente explorando a diferenciação social que, por hipótese, trespassa os discursos, percepções, significados e práticas de felicidade.
Uma vez apresentadas as linhas teóricas em que assenta este trabalho, e tendo conceptualizado a felicidade, estabelecendo as suas dimensões e sub-‐ dimensões, estamos agora em condições de apresentar as hipóteses orientadoras da pesquisa empírica.
3.3.3. As hipóteses em estudo
Ao longo dos capítulos e pontos anteriores foi possível apresentar os principais contributos teóricos para a construção do objecto de estudo, propor uma nova conceptualização de felicidade, discutir a ideia de felicidade na modernidade, mas também reflectir sobre as possíveis implicações do contexto social – nomeadamente os efeitos da crise – sobre as formas de sentir e agir.
Retomando ideias previamente discutidas e os objectivos propostos iremos agora apresentar as hipóteses orientadoras deste estudo. São hipóteses gerais que estruturam a pesquisa empírica e a análise dos resultados. Estas hipóteses estão necessariamente encadeadas, do geral para o particular, e a sua