A passagem da função cósmica para a função psíquica do símbolo torna-se mais ostensiva no sonho: “não compreenderíamos como é que o símbolo poderia significar o elo entre o ser do homem e o ser total, se opuséssemos as hierofanias descritas pela fenomenologia da religião às produções oníricas descritas pela psicanálise freudiana ou junguiana” (RICOEUR, 2013a, p. 29). Essa função do símbolo no mundo anímico deverá ser, segundo Ricoeur, sempre ligada e nunca oposta à função cósmica dos símbolos: “Cosmos e Psique são os dois polos da mesma ‘expressividade’; eu exprimo-me, exprimindo o mundo; eu exploro a minha própria sacralidade ao explorar a sacralidade do mundo” (RICOEUR, 2013a, p. 29).
17 Esses são os três tipos de símbolos primários analisados por Ricoeur na primeira parte de A Simbólica do Mal, conforme analisaremos mais adiante. Em seu estudo do simbolismo na linguagem da confissão, o autor expõe uma dialética entre dois esquemas básicos: o da exterioridade e o da interioridade, representados pelos três simbolismos mencionados: da mancha, do pecado, e o da culpabilidade. Além disso, em seu trabalho, o autor percebe um movimento de internalização progressiva do símbolo mais arcaico da mancha até o mais avançado da culpabilidade, numa estrutura de significação que serve de base para a dinâmica dos mitos do início e do fim do mal (RICOEUR, 2013a).
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Esse nível de manifestação do símbolo é pensado por Ricoeur analisando os rendimentos teóricos deixados pela psicanálise, que muito se dedicou ao estudo do fenômeno do sonho. É sabido que a psicanálise ocupa lugar importante numa das fases da obra de Ricoeur (1978, 2010). De l'interprétation, obra que o filósofo dedica ao pensamento de Freud em 1965, constitui uma leitura rigorosa e original da obra do pai da psicanálise. Em nosso segundo capítulo, teremos condições de analisar mais demoradamente as contribuições da leitura de Freud para a hermenêutica dos mitos e símbolos de Ricoeur.
O uso, aliás (destacado no trecho acima citado), do termo “psicanálise freudiana ou junguiana” é de algum modo impreciso, pois sabemos que Jung é um dissidente cuja obra constituiu outra produção teórico-metodológica que muito se afastou da psicanálise original de Freud (JUNG, 2007). O pai da psicanálise (1996f) descreve a religião como neurose cujo destino é ser superada por uma consciência esclarecida que assuma seu desamparo. Já para Jung (1980), a religiosidade é um impulso ou instinto humano universal, de cuja satisfatória realização depende a saúde psíquica do indivíduo. De um lado, temos a patologização em Freud; de outro, uma espécie de naturalização do fundamento da experiência religiosa em Jung. Tomamos esse debate entre Freud e Jung apenas como ilustração do terreno escorregadio e controverso em que se constituiu a leitura dos mitos pela psicanálise, que continua em estado de problematização e debate. Entre os dois autores, Ricoeur declara preferir Freud a Jung18. Contudo, sua leitura dos mitos parece conduzir-nos a uma espécie de conciliação entre as duas atitudes interpretativas, entre progressão e regressão na interpretação dos símbolos: “sendo essa ‘regressão’, por sua vez, o caminho possível de uma descoberta, de uma prospecção, de uma profecia de nós mesmos” (RICOEUR, 2013a, p. 29). Ele mesmo declara:
Talvez seja mesmo necessário recusar a escolha entre a interpretação que faz desses símbolos a expressão disfarçada da parte infantil e instintiva do psiquismo e a
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Afirma em De L’interpretation: “A psicanálise é limitada por aquilo mesmo que a justifica, a saber, sua decisão de só conhecer nos fenômenos de cultura aquilo que recai sob uma econômica do desejo e das resistências. Devo dizer que é essa firmeza e esse rigor que me fazem preferir Freud a Jung. Com Freud, sei onde estou e aonde vou. Com Jung, tudo corre o risco de se confundir: o psiquismo, a alma, os arquétipos, o
sagrado” (RICOEUR, 19ιι, pέ 151, grifo nosso)έ Contudo, ao opor outro ponto de vista explicativo à limitação
do método freudiano, e ao buscar na própria interpretação psicanalítica a razão de sua ultrapassagem, acaba, indiretamente, reforçando a índole interpretativa de Jung. Pois busca uma hermenêutica crítica que não seja apenas crítica, mas também restauradora do sentido, como ele mesmo o admite na bela conclusão de A Simbólica do Mal: “nós que somos, de qualquer maneira, os filhos da crítica, procuramos ultrapassar a crítica pela crítica, por uma crítica que já não seja crítica redutora, mas restauradora. Este o desígnio [...] que também anima atualmente van der Leeuw, Eliade, Jung, Bultmann; temos hoje uma consciência mais aguda do desafio
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interpretação que neles discerne a antecipação das nossas possibilidades de evolução e de maturação19 (RICOEUR, 2013a, p. 29).
Ricoeur (1978) oferece outra via de leitura para os símbolos e mitos que, conquanto se aproveite das pesquisas dos autores citados, também concilia as duas índoles interpretativas e expande a discussão para outros domínios. É esse, aliás, o modo como Ricoeur expressa a preocupação dominante de seus trabalhos: “integrar antagonismos legítimos e fazê-los trabalhar para sua própria superação” (RICOEUR, 2011, pέ 18)έ Para além das tecnicalidades da metapsicologia de Freud e da teoria dos arquétipos de Jung, interessa a Ricoeur instruir-se diretamente pelas duas terapêuticas e pelo modo como a investigação do arcaísmo do sonho torna-se, por sua vez, “o modo desviado pelo qual mergulhamos no arcaísmo da humanidade” (RICOEUR, 2013a, p. 29). Se há um núcleo ao redor do qual gira a produção teórica de Freud, sob o aspecto variado de sua obra, trata-se seguramente da teoria das neuroses. Contudo, todas as incursões que o impelem a investigar a cultura em suas variadas formas resultam na necessidade de seguir os vestígios deixados pelas manifestações do desejo. De fato, a psicanálise não poderia confinar-se, em virtude do seu próprio objeto, ao indivíduo. Interessa a Ricoeur, sobretudo, esse trânsito das interpretações clínicas da psicanálise para as interpretações culturais propostas por Freud em seus ensaios da década de 30, que só podem ser entendidos pela articulação teórica entre a metapsicologia e seus textos sociais, pois são conceitos metapsicológicos como os de pulsão, identificação, supereu, etc. que facultam o entendimento propriamente psicanalítico da cultura20. O debate havido sobre os resíduos
arcaicos, que Jung privilegiou em quase todos os seus escritos de maturidade (chamando-os
de arquétipos do inconsciente coletivo) também são ilustrativos de como o simbolismo do
sonho e o simbolismo cósmico encontram-se vinculados na atividade imaginativa da psique.
Mas essas duas zonas de manifestação do símbolo — cósmica e onírica — devem ser complementadas por uma terceira modalidade de expressão: a imaginação poética.
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Para além de uma questão metodológica que diga respeito ao campo da psicanálise, a problemática aqui apresentada é eminentemente hermenêutica, e interessa a Ricoeur elaborar o próprio conceito de interpretação. Ele observa que seus primeiros escritos repousavam sobre uma noção amplificante de interpretação: uma interpretação atenta ao acréscimo de sentido incluído no símbolo e que a reflexão tinha por tarefa liberar. Já o confronto com os mestres da suspeita leva-o a admitir outra possibilidade de interpretação: uma interpretação redutora, isto é, de denúncia das ilusões — genealógica, no sentido de Nietzsche, de crítica ideológica, como em Marx, de descoberta do recalque e da repressão, considerando Freud (RICOEUR, 1988).
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