Para o contexto deste trabalho, que discute a respeito de como o ser se constitui na linguagem e através dela, o nome de Mikhail Mikhailovich Bakhtin (1895-1975) se faz oportuno e relevante. Bakhtin, russo originário de Orel, sul de Moscou, foi filósofo e culturólogo especialista em literatura e estética. Seus trabalhos começaram a ser publicados amplamente nos anos 60-80 do século XX, e neles estão assentadas questões de filosofia, estética, crítica literária, comunicação e também de culturologia. (SHUARE, 2010, p. 442)
A concepção culturológica de Bakhtin está baseada na ideia do diálogo, que foi interpretado por ele como a forma de comunicação de pessoas isoladas e também como modo de interação da pessoa com os objetos e a cultura, a arte, e entre diferentes culturas entre si, numa perspectiva histórica. (SHUARE, 2010, p. 442)
Os textos de Bakhtin estão escritos de maneira profunda, crítica e revolucionária. Ele foi professor sob a administração stalinista, e sua forma de escrever, com abordagens inusitadas, levou-o à condenação de exílio em Kustanai (OLIVEIRA, 2007, p. 52; SHUARE,
2010, p. 442). Terminado o período de exílio, retornou às atividades acadêmicas sob o cargo de professor no Instituto Pedagógico da Mordóvia, o qual, mais tarde, transformou-se na Universidade Ogarev de Mordóvia, da qual foi Chefe do Departamento de Literatura Russa e Estrangeira, atraindo grande público a suas palestras abertas e às classes que lecionava. (OLIVEIRA, 2007, p. 52)
Bakhtin atribuiu alguns de seus textos a outros autores, em função do medo da perseguição política. Oliveira (2007, p. 53) nos chama a atenção à genialidade de Bakhtin em formular conceitos tão ricos quanto os de dialogismo, polifonia e interlocução, e outros tantos a eles relacionados, tais como os de enunciado, voz, sentido, alteridade e outros, talvez em função de sua condição de vida à época, dentro de um contexto de revolução russa, o qual restringia a expressão e a comunicação individuais.
Essa restrição dos processos dialógicos nesse contexto teria sido, sob essa perspectiva, uma motivação para que Bakhtin tratasse continuadamente do tema (dialogismo), em diferentes abordagens, ao longo de suas obras. Construtores de texto se utilizavam à época do “discurso esopiano” (disfarçado, codificado, criptografado), temendo as interpretações e represálias das autoridades públicas. (OLIVEIRA, 2007, p. 53). Importante ressaltar que
exotopia, segundo Oliveira, é a
Capacidade de perceber os fenômenos, sujeitos/objetos de fora do lugar em que se põem ou ocorrem. Trata-se de habilidade tanto mais difícil quanto maior é o grau de implicação e envolvimento de um observador em um contexto. A exotopia permite o distanciamento crítico e a compreensão profunda que propiciam a articulação do “discurso segundo”, e a reflexão que naturalmente dele decorre. (2007, p. 404)
A ideia central do pensamento de Bakhtin é a ideia do outro, ideia da familiarização, do entendimento, do diálogo. Paulo Bezerra explica no prefácio da obra de Bakhtin, Problemas da poética de Dostoiévski (1997, p. XI), que “sua estética humanística pode ser sintetizada no par comunicativo ‘eu-outro’.”.
Para Bakhtin, o próprio ser do homem é uma profunda comunicação. Para ele, ser significa comunicar-se, significa ser para o outro e, através deste, para si mesmo. (SHUARE, 2010, p. 451). Nas palavras de Bakhtin (1997, p. 383),
Vivo no universo das palavras do outro. E toda a minha vida consiste em conduzir- me nesse universo, em reagir às palavras do outro (as reações podem variar infinitamente), a começar pela minha assimilação delas (durante o andamento do
processo do domínio original da fala), para terminar pela assimilação das riquezas da cultura humana (verbal ou outra).
Bakhtin vê o mundo como um processo em formação e o homem como um ser em formação. Sua concepção é polifônica, e, para ele, a polifonia é o discurso do diálogo inacabado; um discurso da verdade dialética, de uma realidade em transformação e renovação (BEZERRA in BAKHTIN, 1997, p. XII).
Oliveira (2007, p. 407) explica essa concepção de Bakhtin sobre polifonia – presença de várias vozes, implícitas ou explícitas, no discurso enunciado. “A comunicação humana é naturalmente polifônica, dado que a linguagem é uma herança e os enunciados compõem uma cadeia.” (p. 407)
Bakhtin reflete sobre a constituição do ser a partir da dialeticidade das relações sociais mediada pelos signos, linguagem e palavra. As relações entre os sujeitos são relações individualizadas que se dão no meio social; são relações personalizadas e dialógicas entre os enunciados; relações éticas; relações entre as consciências, entre os valores – onde há “[...] influência mútua, aprendizagem, amor, ódio, mentira, amizade, respeito, admiração, confiança, desconfiança, etc.” (1997, p. 378). Essa capacidade que um enunciado tem de remeter-se a outros nas relações dialógicas, Bakhtin conceitua como dialogismo.
Nessa perspectiva relacional inspirada na concepção bakhtiniana do dialogismo, os enunciados de uma pessoa em si próprios não possuem significado e seu potencial de significação se dá através de uma ação suplementar; quando duas ou mais vozes encontram- se, estando elas presentes ou sendo presentificadas. E nesse sentido, o pensamento, ou mesmo qualquer produção não-oral, também é dialógico. (JAPUR, 2004, p. 159)
Na interação de “um” com um “outro” entram em dialogia inúmeras vozes – as da memória cultural do tempo longo e as da memória afetiva do tempo vivido – que tornam presentes os múltiplos repertórios que são utilizados pelas pessoas nos processos de dar sentido ao mundo e a si mesmos. (JAPUR, 2004, p. 160)
Segundo Japur (2004, p. 158), a concepção de linguagem adotada no referencial do construcionismo social é marcada pelo conceito de dialogismo de Bakhtin, o qual nega qualquer possibilidade de entender a linguagem como individual, sendo a alteridade condição de identidade, onde o outro é imprescindível para a construção da consciência, e a ação dela tem como condição de possibilidade a linguagem verbal e/ou não-verbal.
O conceito de alteridade é fundamental para a compreensão do ser que se constitui na linguagem e através dela. Segundo Oliveira (2007, p.90), alteridade é uma palavra construída a partir do prefixo latino alter (outro), e significa colocar-se no lugar do outro na relação interpessoal, considerando-o, valorizando-o, identificando-o como sujeito tanto quanto nós, e dialogando com ele. Ainda segundo Oliveira,
A prática da alteridade é pertinente tanto nos relacionamentos entre indivíduos quanto entre grupos culturais, religiosos, científicos, étnicos etc. A relação alteritária (entre sujeitos que se reconhecem reciprocamente como tal), e não mais autoritária (entre sujeitos e objetos, ou entre sujeitos que consideram outros sujeitos como objetos) contém os fenômenos holísticos da complementaridade e da interdependência, no modo de pensar, de sentir e de agir. (2007, p. 90)
Alteridade então dá um sentido à concepção de ser como aquele que é produzido em co-autoria, através dos processos de conversação entre o “eu” e o “outro”, onde nos constituímos e reconstituímos através das várias práticas discursivas em que participamos. Nesse sentido, as pessoas são sempre “questões abertas”, cujas respostas dependem das posições assumidas por cada um nas conversações, e das histórias por meio das quais elas dão sentido à própria vida e à do outro. (JAPUR, 2004, p. 161)
A linguagem, nessa perspectiva, não se dá entre indivíduos isolados, mas é considerada uma atividade compartilhada e constituinte das realidades sociais. Neste trabalho, a linguagem é vista como instrumento de comunicação que abarca de forma mais ampla um sentido ontológico das relações sociais, onde interlocução é “[...] um fenômeno de vida, de criação, de transformação, processo pelo qual o ser humano se constitui e se reconstitui a cada dia [...]” (OLIVEIRA, 2007, p. 80).
Oliveira (2007, p. 81) esclarece sobre a etimologia da palavra interlocução, que “provém das partículas latinas inter (no meio de), loqui (falar), io (ação continuada de)”, e significa “processo de produção e troca de enunciados entre interlocutores” (p. 405). Os enunciados são, por sua vez, “cada um dos segmentos discursivos gerados por um interlocutor” (OLIVEIRA, 2007, p. 404); eles são únicos e singulares.
Esses constructos são importantes no contexto deste trabalho, uma vez que estão intimamente ligados à noção do ser que se constitui na linguagem e através dela. A linguagem, sob essa perspectiva, é consonante ao conceito de dialogismo de Bakhtin, que Oliveira bem resume como,
[...] a capacidade que um enunciado tem de remeter-se a outros, sejam do passado ou do presente, bem como toda a comunicação humana, de qualquer tipo, já que comunicação inclui o contato com o outro, fim precípuo do diálogo. Para Bakhtin, todo enunciado, embora aparentemente monológico, tem intenção dialógica, já que o ser humano só se completa no contato alteritário que o diálogo pressupõe. (2007, p. 402)
Isso quer dizer que compreendemos aquilo que somos a partir das narrativas que temos de nós, construídas no processo de troca dialógica com os outros, e que se encontram em permanente mudança. Trata-se de compreender a noção de pessoa a partir de uma perspectiva relacional, cujas mudanças e permanências nas formas de se explicar e se descrever estarão sempre referidas ao conjunto dos processos dialógicos nos quais ela está inserida em seus relacionamentos. (JAPUR, 2004, p. 161)
Na perspectiva relacional, compreendemos o que somos a partir das narrativas co- construídas nos processos de troca dialógica, em permanente fluxo. Isso implica que a noção de “ser” ganha contornos a partir de uma compreensão da relação eu-outro. Compreender essa relação exige de nós uma abertura para romper com a noção de identidade como sendo de natureza estritamente individual, passando a concebê-la também como sendo de natureza relacional.
Entendo Bakhtin como um teórico que nos desafia a pensar a noção do ser a partir dessa natureza relacional. Em suas próprias palavras ele afirma,
Para dar vida à minha imagem externa e para fazê-la participar do todo visível, devo reestruturar de alto a baixo a arquitetônica do mundo de meu devaneio introduzindo- lhe um fator absolutamente novo, o da validação emotivo-volitiva da minha imagem a partir do outro e para o outro; porque, dentro de mim mesmo, tenho apenas a minha própria validação interna, uma validação que não posso projetar sobre minha expressividade externa, pois esta é separada da minha percepção interna, o que faz com que me pareça ilusória, num vazio absoluto de valores. Entre minha percepção interna – de onde procede minha visão vazia – e minha imagem externa, é absolutamente necessário introduzir, tal como um filtro transparente, o filtro da reação emotivo-volitiva – amor, espanto, piedade, etc. – que um outro pode ter para comigo. (1997, p. 50)
Desta forma, o sentido de “sermos”, neste trabalho, faz uso da forma-pensamento segundo os constructos desenvolvidos por Bakhtin, onde “ser” se dá através das conversas com o outro, onde nossas histórias de vida ecoam nas histórias de vida do outro, e esse outro valida nossa existência a partir das reações que essas histórias geram. Assim, o contar sobre nós mesmos ao outro denota esse caráter relacional da produção de sentido na linguagem,
onde esse contar significa mais do que expressar algo que já somos, mas, sobretudo, enuncia novas possibilidades para nós, cujos sentidos estão sendo continuamente re(construídos).
Japur (2004, p. 162) nos lembra ainda que os inúmeros relacionamentos de que participamos evidenciam que somos tanto “selves” quanto aqueles “nós mesmos” contidos nos processos dinâmicos das conversações com os outros e conosco, e afirma que não somos autores únicos de nós mesmos, somos alteridades – outros em nós, construídos e reconstruídos nos relacionamentos em um processo de co-autoria.