ser reconstruídas ao longo da vida, através das várias experiências que o sujeito vivencia nos vários contextos, podendo, inclusive, mudar o sentido da percepção sobre a influência da família em relação ao seu desenvolvimento vocacional. No processo de serem contadas a si próprio e aos outros, as narrativas podem adquirir novos significados e levar à sua reconstrução. Como sublinha White e Epston (1990): “através das narrativas, as pessoas adquirem uma perspectiva mais reflexiva sobre as suas vidas, e poderão emergir novas opções e sentidos possíveis por meio dos desafios com as “verdades” das suas experiências e das suas relações explicitadas e definidas” (p. 30).
3.2. Estudos sobre a influência da família na identidade vocacional através da narrativa
No que concerne à influência da família na construção da identidade vocacional dos adolescentes, apresenta-se um estudo, realizado por Sankey e Young (1996), onde os autores tentam avaliar a potencial relação entre os estatutos de identidade vocacional e as narrativas da influência parental, evocadas pelos jovens, no seu desenvolvimento vocacional.
Sankey e Young (1996), partindo da categorização das narrativas de Gergen e Gergen (1986) e da metodologia adoptada no estudo de Young, Friesen e Borycki (1994), identificam no seu estudo apenas uma estrutura narrativa progressiva de três tipos: com avaliação negativa, com avaliação positiva e avaliação com um momento dramático de retorno. A explicação, apresentada pelos autores da investigação, de se terem encontrado somente três tipos de narrativas progressivas e de não se registarem narrativas regressivas, atribuem-na ao facto de todos os participantes estarem a participar num programa de intervenção no momento das entrevistas e, provavelmente, estarem envolvidos e sensibilizados para o processo da escolha vocacional; outra explicação possível poderá estar relacionada com a dimensão da amostra, que apenas era constituída por onze sujeitos. Resumidamente, os resultados encontrados são os seguintes:
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a)
b)
c)
há uma relação positiva entre a narrativa progressiva com avaliação negativa da influência parental com o estatuto de identidade realizada (6 sujeitos) e o estatuto de moratória (dois sujeitos);
há uma relação positiva entre a estrutura narrativa progressiva com um momento dramático de retorno e o estatuto de moratória (um sujeito);
e uma relação positiva entre a narrativa progressiva com avaliação positiva da influência parental com o estatuto de identidade de difusão ( dois sujeitos).
Os resultados da narrativa progressiva, com avaliação negativa e com momento dramático de retorno como histórias representativas dos estatutos de identidade realizada e de moratória, são coerentes com a teoria psicossocial de Erikson (1968), com a sua operacionalização nos estatutos de identidade de Marcia (1966) e com outros resultados da investigação. Marcia (1966), por exemplo, sugere que a construção da identidade realizada implica um certo questionamento dos valores e dos objectivos parentais. No entanto, alguns investigadores sublinham que, para que se construa uma identidade realizada, tem que garantir-se um contexto securizante, em que o apoio parental deve ser doseado com espaços de autonomia e exploração (Grotevant & Cooper, 1986; 1988). É preciso garantir um equilíbrio entre os ganhos em autonomia, por parte do adolescente, com uma vinculação segura aos pais (Campbell, Adams & Dobson 1984; Soares & Campos, 1988).
Sublinhe-se, ainda, que existe uma forte relação entre as actividades de exploração e os estatutos de identidade realizada e de moratória (Blustein, Devenis & Kidney, 1989), sendo, normalmente, estas experiências de exploração, sentidas pelos adolescentes como momentos de conflito e de questionamento entre o seu ponto de vista no confronto com o das figuras significativas. Quando os jovens estão numa situação de escolha de alternativas vocacionais, normalmente questionam os valores e os objectivos dos outros significativos, para assumirem e construírem um projecto de que eles próprios são os principais protagonistas (Sankey & Young, 1996).
No entanto, a relação entre a narrativa progressiva com avaliação positiva e o estatuto de identidade de difusão não seria um resultado esperado. De acordo com a teoria, seria mais consentâneo um estatuto de identidade outorgada (foreclosure), até porque estes jovens apresentam uma narrativa com investimentos, ainda que na ausência
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de momentos de exploração, assumindo os valores e os projectos dos pais sem questionamentos e conflitos. Ora, segundo a teoria de Marcia (1966), confirmada por investigações posteriores (Blustein & Philips, 1990; Campbell et al., 1984), o estatuto da difusão de identidade caracteriza-se por uma quase ausência de exploração e de investimentos vocacionais. Esta discrepância de resultados pode ser explicada pelos contributos apresentados por Vondraceck (1992), que afirma que os sujeitos podem não estar no mesmo estatuto nas diversas dimensões e áreas de construção da identidade. Ou seja, em determinados momentos do desenvolvimento, um indivíduo pode globalmente situar-se num estatuto de identidade de difusão e nas dimensões da identidade vocacional, situar-se num estatuto de identidade outorgada, como parece acontecer neste estudo. Estes resultados ainda podem ser explicados à luz desta constatação “são observados poucos tipos puros de estatutos de difusão, numa população de adolescentes saudáveis” (Vondraceck, Schulenberg, Skorikov, Gillespie & Wahleim, 1995).
Concluindo, os resultados desta investigação são inconclusivos, porque a a dimensão da amostra é reduzida (onze sujeitos). No entanto, tem a virtualidade de apresentar uma nova metodologia de investigação, para estudos futuros sobre a percepção da influência parental e sua relação com os estatutos de identidade, através das narrativas vocacionais de adolescentes e jovens. A abordagem narrativa proporciona alguns contributos para a intervenção, porque, pela exploração das narrativas de vida o psicólogo não só promove a compreensão da experiência actual do cliente como também cria condições para a sua transformação, pela emergência de narrativas alternativas e pela criação de condições, para que o sujeito seja o autor principal da sua história. Porque é através das histórias narradas que o adolescente constrói significados para a sua experiência e pode identificar os temas dominantes da sua vida no passado e no presente, os conflitos, as pessoas que intervêm na sua narrativa (pais, pares e pessoas significativas) e o grau de autonomia que tem assumido como protagonista principal dessas histórias (Cochran, 1997).
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4. As principais investigações da influência da família nos projectos vocacionais no