4. TEORIUTREDNING
4.1 Effektbehov
Na amostra analisada, percebemos que as imagens dos cidadãos podem ser decisivas no formato que a notícia vai assumir no telejornal, mesmo quando são de caráter complementar. É ela que permite que o fato seja relatado como nota coberta, ou reportagem, e não apenas uma nota lida pelos âncoras que, em tese, tem menos força por não ser “ilustrada”, representada iconicamente. Lembremos que a imagem confere uma função primordial no processo de codificação das notícias, conforme Rezende (2000), enquanto a palavra cumpriria um papel secundário, um complemento à informação visual.
É o caso do incêndio que destruiu o Teatro Cultura Artística, um dos espaços culturais mais tradicionais de São Paulo, noticiado pelo Bom Dia Brasil, no dia 18 de agosto. A nota lida pela âncora foi inteiramente ilustrada pelas imagens registradas por um morador do prédio vizinho.
- Acidente ou crime? A polícia vai investigar o incêndio que destruiu uma das mais tradicionais casas de espetáculos de São Paulo, Teatro Cultura Artística.
(off) de um prédio vizinho, um morador registrou o momento em que o teto desabou. Os bombeiros trabalharam por 4 horas no combate às chamas.
Da mesma forma, a notícia sobre uma pane em montanha-russa no Rio de Janeiro foi veiculada, no dia 11 de agosto, no jornal local Bom Dia Rio, em forma de nota coberta com imagens feitas por um rapaz que estava na montanha-russa. Ele registrou o momento do resgate das pessoas que estavam no brinquedo. Cenas gravadas de um ângulo em que o cinegrafista, ainda que presente na cena, não poderia captar.
- Uma pane técnica parou o parque de diversões Hopi-Hare neste domingo. Um rapaz que estava no brinquedo gravou imagens do momento do resgate das pessoas.
(off) 24 pessoas estavam no brinquedo na hora em que o equipamento parou, a 30 metros de altura. As imagens gravadas com uma máquina fotográfica mostram o momento em que os bombeiros retiram as pessoas dos brinquedos. Lá embaixo, os visitantes que estavam na fila acompanharam todo o resgate que durou 40 min. Apesar do susto, ninguém ficou ferido.
Esse dado reforça a ideia de que o jornalismo participativo na televisão tem sido impulsionado pela ávida busca da imagem perfeita, impactante, em tempos de reinado do icônico. Também parece denotar o desejo dos telejornais em fornecer um relato o mais próximo possível da realidade. Um desejo de mimetismo que parece ser saciado nas cenas gravadas em tempo real, por testemunhas oculares de acontecimentos noticiáveis.
É um exemplo o que aconteceu na reportagem exibida no dia 22 de maio, no SPTV, sobre confusões no aeroporto de Cumbica, em função do cancelamento de voos. Na cabeça, os apresentadores introduzem o assunto: “Turistas que iam para Buenos Aires ontem à noite não conseguiram embarcar no aeroporto de Cumbica. O que era pra ser um passeio se tornou uma tremenda dor de cabeça. Quatro voos da Gol foram cancelados”. A reportagem inicia com um case de uma das passageiras que não pôde embarcar para a Argentina. Uma sequência de depoimentos ilustra a insatisfação de outros passageiros, intercalada por imagens do saguão do aeroporto com texto em off.
O momento em que o funcionário da Gol anuncia que os voos foram cancelados foram gravados por uma passageira com uma câmera fotográfica. São estas imagens que complementam a reportagem com o seguinte texto: “com uma câmera fotográfica uma
passageira registrou o tumulto e o momento em que o funcionário da Gol anuncia: os
voos foram cancelados”. Enquanto a imagem aparece com a narração da repórter, surge a legenda “imagens de cinegrafista amador”. Após o off, o vídeo segue com uma legenda que traduz o que o funcionário da companhia diz, auxiliando o entendimento do telespectador já que o áudio do vídeo não é claro. A imagem dura 13 segundos. Após, sucedem-se mais alguns depoimentos e a narração pela jornalista com as informações fornecidas pela companhia aérea.
Neste caso, as cenas da passageira complementam a reportagem, já que ela possuía outras cenas captadas, porém as gravadas pela passageira mostram um momento
que não poderia ter sido captado pelo cinegrafista do telejornal, já que ela foi gravada dentro da sala de embarque, onde as equipes de reportagem não possuem autorização para gravações, a não ser que as imagens fossem feitas pelo repórter com uma câmera escondida, ou disfarçado de passageiro. Nesse caso, estariam implicadas outras tantas questões referentes à ética jornalística. E se a equipe fosse até o local quando avisada sobre o tumulto, o anúncio do cancelamento já haveria ocorrido e, tampouco, seria possível captar tal imagem.
Ou seja, embora de caráter complementar, foi um momento importante do fato noticiado que, não fosse pelo vídeo da passageira, ficaria registrado apenas no texto da reportagem ou na fala de um dos envolvidos no tumulto. A imagem confere ainda mais força nos depoimentos, por ter o caráter de “ao vivo”, de ter sido feita durante o desenrolar dos fatos e por um cidadão comum, ou seja, sem intervenção do jornalista. Para o telespectador, provavelmente, um registro fiel do real.
Uma outra reportagem sobre o caos aéreo na Argentina, também, contou com a definitiva participação de cidadãos na veiculação de um dos momentos vividos pelos passageiros, desta vez no telejornal Bom Dia Brasil. A edição do dia 21 de agosto apresentou a situação de brasileiros retidos no aeroporto de Buenos Aires. A reportagem inicia com os depoimentos dos passageiros em sua chegada a São Paulo: “Não abriram nem as portas para os enfermeiros entrarem no aeroporto para poder socorrer quem estava mal”.
Como vimos no próprio relato da passageira, nem a entrada de enfermeiros, tampouco de jornalistas, foi permitida no aeroporto da capital portenha. Ou seja, o relato dos fatos ficaria restrito aos depoimentos dos passageiros no seu retorno ao Brasil, não fossem as imagens gravadas por um dos passageiros. As cenas mostram as condições em que se encontravam os brasileiros. Imagens que ilustram o que os depoimentos relataram, reforçando a veracidade dos relatos e a comoção dos telespectadores: “Essas
imagens gravadas por um passageiro, em Buenos Aires, mostram o saguão lotado,
com gente dormindo no chão e a busca por explicações para o atraso”. Foi com esta frase que a repórter informou sobre a origem das imagens, já que elas não apresentaram nenhum tipo de legenda.
Estes são exemplos de imagens complementares que permitem que as reportagens não apenas “comecem pelo fim”, como define Bacin (2006) e acabam por elucidar o acontecimento. Grande parte das coberturas do dia-a-dia mostra o que ocorreu, fala de um passado, mostra o cenário do acontecimento, mas, muitas vezes, não chega a tempo de mostrar o fato em curso. O cidadão-comum, aquele que presencia o fato, geralmente, por fazer parte dele, entra, conforme Bacin (2006, p.85), como “peça de recuperação do passado perdido; dá sentido ao que está sendo visto; traz de uma zona não acessada pela mídia”.
Quanto à identificação da participação do cidadão, em espaços institucionalizados, como nos quadros do RJTV e SPTV, a enunciação ocorre logo na chamada do quadro e o dono das imagens tem seu nome, profissão e idade revelados, além de se tornar partícipe da reportagem como na dramaturgia jornalística do telejornal carioca. Já na participação presente nos demais telejornais, a forma mais frequente de enunciação é no decorrer da reportagem ou da nota coberta, em texto off, que acompanha a imagem do cidadão e que o identifica segundo alguma característica que o ligue ao fato: o morador, a estudante, o vizinho, o passageiro, o visitante etc. Há casos em que a informação vem logo na cabeça, introdução feita pelo apresentador, e, apenas, em duas reportagens que compõem a amostra, além de enunciada a participação do cidadão no texto, as imagens vieram acompanhadas com a legenda “cinegrafista amador”.