• No results found

São inúmeros os problemas relacionados a essas práticas de atividades humanas aplicadas no solo. A princípio, o solo, como base para a produção de alimentos e criação de animais, se tratava apenas de um meio de garantir a subsistência e sobrevivência dos grupos que o ocupavam.

Mas, com o passar do tempo o homem percebeu que as terras que compõem o seu local de assentamento poderiam lhe servir como valiosas mercadorias no atual sistema econômico. Assim, a terra como mercadoria, torna a natureza apenas um insumo da produção do espaço urbano podendo sofrer tantas modificações quantas necessárias para realizá-la como tal (CARVALHO, 2003). O espaço, deste modo, deve garantir que o trabalho aí se reproduza.

O resultado dessa necessidade do espaço é a formação dos loteamentos, que carrega consigo a prática de inúmeros problemas relacionados a movimentações de terra, a ocupação de áreas inadequadas, uma configuração espacial espalhada de baixa qualidade. Outro problema, pouco discutido, mas que constitui um sério acontecimento é destacado por MOTA (1981) quando o autor ressalta que “as atividades que o homem desenvolve sobre o solo, alterando suas características naturais seja através de mudanças na sua estrutura física, seja pelo lançamento de resíduos em sua superfície, podem resultar em poluição”.

Desta maneira o desenho urbano, muitas vezes é realizado sem dar o devido peso das características físicas do espaço urbano que aliadas ao seu uso inadequado vai desenvolvendo uma forma cada vez mais fragmentada e impactante ambientalmente.

Como exemplificação desse desrespeito ao solo na estrutura urbana destaca-se a produção espacial através de loteamentos. O processo de loteamento e ocupação espacial é marcado pelas características de produção mercantilista, que faz da terra fonte de mais-valia. Por isso a dialética qualidade e quantidade é tão presente nestes processos, pois partindo pela busca de maior rentabilidade o homem desconstrói o espaço, de maneira a aproveitar o solo por completo, ou seja, independente da qualidade obtida a quantidade prevista sempre será conquistada.

Os loteamentos são grandes extensões de terra que depois de dividida por seu proprietário são destinadas à venda. Essas áreas por sua vez têm a sua frente voltada para uma via de circulação que promove o acesso ao local. Desta maneira, estes empreendimentos podem ser definidos então como a articulação de um modo de circulação do solo nu com um modo de produção e de circulação da habitação e dos equipamentos. Porém, apesar da

simplicidade do conceito, estes são complexos, pois sua concepção além de alterar fisicamente uma paisagem envolve interesses econômicos e sociais.

Mas o planejamento dos loteamentos requer cuidados especiais tanto no tocante ao espaço natural quanto à artificialidade que vai constituí-lo. O solo em muitos casos tratado como mero suporte para as atividades que ali abrigará, deve ser o objeto que receba a maior atenção no momento do planejamento.

Na realidade essa preocupação na etapa de projeto é a uma forma de produzir espaços mais naturais em termos da riqueza estética da paisagem, dando um salto qualitativo nestas situações. Nestes casos, como os loteamentos são frutos de transformações pontuais sucessivas de cada cenário que a compõe, pois não há projeto da paisagem e raramente há isso, há o acúmulo de consecutivos erros que contribuem para a destruição das paisagens.

As movimentações de terra, a limpeza do terreno (muitas vezes retirando toda sua cobertura vegetal existente) e as execuções de procedimentos de corte e aterro, são o que mais transformam os espaços retirando destes todo a sua característica natural. Nestes casos, um ante projeto aliado a um bom levantamento das características físicas do local, garante que para cada tipo de terreno possa ser destinado algum tipo de atividade.

Um exemplo prático da boa prática da engenharia na elaboração dos loteamentos é a adequação dos lotes acompanhando às curvas de nível, prática que evita as movimentações de terra excessivas, e a determinação de coeficientes de permeabilidade para áreas construídas, facilitando assim a retenção das águas pluviais e, consequentemente a diminuição de problemas como as enchentes.

As áreas loteadas em sua maioria têm sua drenagem artificial de águas pluviais lançadas em locais inadequados, que quando, em períodos de chuvas, se soma a drenagem natural ocasionam uma sobrecarga nos córregos a ponto de erodir suas margens. Essa integração entre esses dois meios físicos não para por aí, as porções de terras erodidas normalmente são carregadas até os rios mais próximos, desencadeando numa série de outros problemas, como o assoreamento do rio, sua mudança de curso e nos casos mais extremos a secagem do curso d’água.

A prática consciente da desconstrução aliada a renaturalização espacial pode levar que a sociedade interfira eficazmente no loteamento e seus desdobramentos, planejando a construção deste e viabilizando uma cidade em harmonia com a natureza.

O intenso processo de urbanização contribui para que o solo seja tratado como uma mercadoria cada vez mais sendo submetido ao parcelamento e ocupação inadequada. Assim, cada vez mais, as áreas de proteção permanente, as fronteiras d’água entre outras são retificadas, aterradas e grandes movimentações de terras são efetuadas.

As intervenções aplicadas no solo, num primeiro instante apresentam modificações bastante expressivas, sendo notória a toda sociedade. Em longo prazo, a remoção da vegetação rasteira, das matas ciliares e do encontro da drenagem artificial com a natural, levará a processos de degradação ambiental que pode resultar em problemas sociais. Assoreamentos, erosões e deslizamentos tornam-se produtos de uma prática humana sem planejamento.

A situação desejada seria um processo de urbanização norteado por uma minimização da destruição dos parâmetros naturais das cidades; embasado por uma administração fundiária orientada pelos princípios do desenvolvimento sustentável e da justiça social (CARVALHO, 2003).

Para tanto, a necessidade de se realizar um zoneamento ambiental para a definição de áreas adequadas e inadequadas para a prática das atividades humanas é importante, alcançando assim, no processo de produção espacial, um desenho urbano e a utilização da desconstrução de forma mais consciente.

Assim, com a produção espacial, a partir da desconstrução mínima e da aplicação da renaturalização, a adequação dos meios naturais em equilíbrio com as tecnologias, poderá amenizar os problemas ambientais urbanos relacionados ao solo.