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Como ponto de partida, é preciso reafirmar a Igreja como vontade inserida no seio da Trindade, Jesus como fundador da Igreja Católica. Obviamente, não é tarefa nada fácil, no contexto atual, sustentar as afirmações acima. Deste modo, é preciso recordar que também existem verdades sobre a Igreja, que independente da época em que se vive. Essas verdades são expressas por Jesus nos Evangelhos, estão presentes na Revelação Divina, que se tornam claras para a Igreja na sua Tradição.

Hoje se pode afirmar, indubitavelmente, que Jesus Cristo é o fundador da Igreja, sendo ela, fruto de sua intenção clara e opção segura. O texto de Mt 16, 18-20 não pode ser apresentado como única prova a favor da intenção da Igreja por parte dele. Decisiva foi a preparação da Igreja durante toda sua vida terrena, através de sua existência, palavras e ações, mas não a constituiu. Isso foi obra do Espírito Santo no dia de Pentecostes. Essa preparação significa ter Jesus colocado os elementos que constituíram os alicerces da Igreja127.

Padre Geraldo Hackmann, ao analisar algumas posições modernas de teólogos protestantes, apresenta autores que de certa forma, aceitam a ideia de que Jesus fundou a Igreja, assim como também apresenta alguns que negam essa afirmação. Ao final, ele afirma a indubitável vontade de Jesus fundar a sua Igreja, a qual não pode ser afirmada olhando somente um argumento bíblico, já que precisa se estar atento à ação global de Jesus, a todo seu agir humano terreno, e obviamente, à ação marcante do Espírito Santo em Pentecostes. Poderia ser de outra forma? M. Schmaus dirá que sim, pois, se o povo de Israel tivesse

127 HACKMANN, G. L. B. A amada Igreja de Jesus Cristo. Manual de eclesiologia como comunhão orgânica,

acolhido a mensagem de Jesus, não haveria a necessidade de fundar uma comunidade diversa daquela do Antigo Testamento, e assim, fez-se necessário a fundação de um povo diverso128.

Como se sabe hoje, o povo de Israel, o povo ao qual Cristo pertencia, não acolheu o Seu apelo à conversão, e Cristo sente na própria carne as consequências desta negação, e assim, indica essa verdade ao dizer “O profeta não é bem recebido em sua própria casa” (Mc 6,4). Desta forma, deve-se compreender a fundação da Igreja como continuidade do mistério da salvação, pois Deus quer salvar a todos os seres humanos, e é neste contexto que a fundação da Igreja precisa ser compreendida.

A vontade fundacional de Jesus não foi compreendida pelos judeus da sua época, pois sua mensagem foi refutada. Mas, precisamos compreender que “O mistério da Santa Igreja se manifesta na sua fundação. Pois o Senhor Jesus iniciou sua Igreja, pregando a boa nova, isto é, o advento do Reino de Deus prometido nas Escrituras havia séculos” (LG 15). Em cada gesto e palavra de Jesus, encontramos a Igreja sendo fundada.

A eclesiologia do Concílio também assume essa dimensão misteriosa da fundação da Igreja, quando ela se insere nos os desígnios salvíficos do Pai em Jesus, no Espírito Santo.

“Consumada, pois, a obra que o Pai confiara ao Filho realizar na terra, foi enviado o Espírito Santo no dia de Pentecostes a fim de santificar a Igreja” (LG 4). E com início histórico da

Igreja no dia de Pentecostes, ela passa a ser o meio pela qual os homens se encontrarão com a

Trindade “para que assim os crentes pudessem aproximar-se do Pai por Cristo num mesmo Espírito” (LG 4).

No decreto dedicado ao ecumenismo, a Unitatis Redintegratio, pode-se perceber essa autoafirmação por parte da Igreja: “Para estabelecer esta Sua santa Igreja em todo o mundo até a consumação dos séculos, Cristo outorgou ao Colégio dos Doze o ofício de ensinar, reger e santificar. Dentre eles escolheu Pedro, sobre quem após a profissão de fé, decidiu edificar a sua Igreja” (UR 2). Aqui vem afirmada a decisão de Jesus fundar a sua Igreja sobre a rocha dos apóstolos. Essa é uma das reflexões que a Igreja faz de si mesma a partir de Cristo.

Por isso, o Vaticano II afirma: “O único Mediador Cristo constituiu e incessantemente sustenta aqui na terra Sua santa Igreja, comunidade de fé, esperança e caridade, como

organismo visível pelo qual difunde a verdade e a graça a todos” (LG 8). Observa-se aqui, a

ideia de constituir, uma vez que Cristo constituiu e sustenta a sua Igreja, sendo que ao final, coloca-a como sinal visível de verdade e graça a todos.

A eclesiologia do Vaticano II evidência a fundação da Igreja: “Essa é a única Igreja de Cristo, que no Sínodo confessamos una, santa, católica e apostólica. [...] Essa Igreja, constituída e organizada neste mundo como uma sociedade, subsiste na Igreja católica

governada pelo sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele” (LG 21).

É importante compreender a fundação da Igreja como nascente da vontade de Jesus Cristo, a qual fica expressa na submissão total da vontade do Pai como salvador de todos os seres humanos (Cf. Ef.1,5). Porém, não é possível pensar tal fundação por meio de um ato jurídico não encontrado nas Escrituras. Essa vontade fundadora de Jesus é expressa em Suas palavras e atos, e na plena consumação pela vinda do Espírito Santo no Cenáculo. Assim, deve-se pensar a fundação, já na encarnação (Jo 1.14), na Última Ceia, no chamado dos discípulos, na eleição dos doze (Mt 18.18), no poder apostólico, no poder Petrino (Mt 16.13- 19, Lc 22.27-32, Jo 21.15s), e em toda a ação do Espírito Santo.