Uma vez analisadas e interpretadas as referências relativas ao interesse japonês em produtos e objectos europeus, presentes na documentação jesuítica, podem retirar-se algumas conclusões.
269
Cf. Rodrigues, Historia, pp. 337-338.
270 Cf. Sande, Diálogo, p. 99. 271 Cf. Sande, Diálogo, p. 99-100.
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Em primeiro lugar, a maior parte das referências em que encontramos indícios deste interesse e gosto é da autoria de Fróis e surge no seguimento da descrição de encontros dos padres com dáimios e com Oda Nobunaga e Toyotomi Hideyoshi. A estratégia adoptada pelos jesuítas em território japonês caracterizava-se por uma grande preocupação em evangelizar ou pelo menos conseguir uma aproximação às elites sociais e políticas, condição imprescindível para o sucesso da missão, na medida em que apenas a protecção por parte das autoridades locais, proporcionada pelo estabelecimento de relações diplomáticas com estas elites, garantiam a permissão para os padres desenvolverem o trabalho missionário, bem como a sua segurança na prossecução deste objectivo.272 Para tal, era necessário que os missionários se adaptassem à realidade social em que tentavam penetrar. Percebe-se, sobretudo pela narrativa de Fróis, que esta adaptação implicava, por um lado, um domínio exímio da língua e a demonstração de um grande respeito pelas normas de cortesia e etiqueta das elites, o que era muito valorizado pelos senhores,273 sendo que se uma destas condições não fosse cumprida, tal poderia redundar no cessamento dos contactos, e na proibição da continuação do trabalho missionário.274
Para além disso, uma das condições sine qua non para o primeiro contacto com as elites era a dádiva de presentes, uma das normas sociais do cerimonial aristocrático japonês que os padres tinham, impreterivelmente, que respeitar. E quanto maior fosse a dignidade do indivíduo com quem se pretendia iniciar relações, mais precioso, raro e distinto deveria ser o presente.275 Assim, o primeiro contacto dos padres com estes indivíduos que se encontravam no topo da pirâmide social e política japonesa era sempre marcado pela oferta de prendas por parte dos jesuítas, nas palavras de Fróis, “conforme ao costume de Japão”. E era a satisfação dos senhores com estas prendas, que normalmente consistiam em produtos inexistentes no Japão, que aparentemente, em larga medida, determinava a continuação ou não dos contactos, a disponibilidade
272 Cf. Pinto 2000, pp. 29-43. 273
Cf. Historia de Japam, vol. I, capítulo 19º, pp. 124-125.
274 Cf. Historia de Japam, vol. IV, capítulo 39º. 275 Cf. Historia de Japam, vol. I, capítulo 25, p. 161.
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para ouvirem pregação, ou até somente a autorização, por parte destes senhores, para os padres permanecerem nos territórios subordinados à sua autoridade.276
Com efeito, não só através dos eventos relatados por Fróis na Historia de Japam e na epistolografia, mas sobretudo através das reflexões produzidas por João Rodrigues e Alessandro Valignano, respectivamente, na Historia da Igreja do Japão, e nos Advertimentos e Avisos Acerca dos Costumes e Catangues de Jappão, percebe-se que no Japão, a dádiva se revestia de uma extrema importância política e social. No entanto, importa referir que uma vez que cada uma destas obras se reveste de características distintas e muito particulares, as informações que os autores optaram por transmitir são, na sua essência, diferentes. Assim, por um lado, João Rodrigues descreve ao pormenor, mas sempre de uma forma genérica, os costumes e a etiqueta japonesa no que concerne à dádiva de presentes, mencionando aspectos como as diversas ocasiões em que os japoneses se visitam,277 e a forma correcta de preparar,278 dar e receber presentes.279 Por seu turno, Valignano estabelece uma série de directrizes para orientar o comportamento dos missionários em situações específicas com as quais garantidamente iriam ter de lidar, explicando o que deveriam fazer quando recebessem um presente,280 e que tipo de presentes deveriam oferecer consoante o teor da visita e a qualidade do padre e da pessoa visitada.281 Enquanto Rodrigues produziu uma obra literária em que pretendia descrever as características da sociedade japonesa, procurando, nestes excertos, demonstrar a extrema complexidade da etiqueta, que fixava a ordem social e regulava as relações entre japoneses, Valignano tinha objectivos e preocupações práticas, relacionadas com o sucesso da missão, pelo que esta obra consiste, no seu âmago, numa sistematização de instruções com vista a regular as relações dos padres com os senhores japoneses.
276 Vide, por exemplo, Historia de Japam, vol. I, capítulo 5º, pp. 39-40. 277 Cf. Rodrigues, Historia, pp. 279-305. 278 Cf. Rodrigues, Historia, pp. 314-318. 279 Cf. Rodrigues, Historia, pp. 305-314; 318-326. 280 Cf. Valignano, Advertimentos, p. 166. 281 Cf. Valignano, Advertimentos, pp. 256-268.
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Destes factores resultam, em suma, informações diferentes mas complementares, que analisaremos de seguida.282
Segundo a Historia da Igreja de Japam, de João Rodrigues, os japoneses herdaram da China grande parte da sua cultura, incluindo os hábitos de cortesia e civilidade. Na verdade, “reverencia, cortezia, Urbanidade” seriam mesmo consideradas uma das cinco virtudes morais pelos chineses e japoneses,283 constituindo aquilo que hoje se pode considerar a etiqueta: “o trajo de Japão, e tempos em que o mudão, do modo como se vizitão hũns aos outros, dos prezentes que costumão levar nas vizitas, da cortezia e reverecia que uzão dentro da caza, o Senhor com o Vassallo, e criado, e nobre, e baixo, e os iguaes entre sy, do modo como se convidão, e cortezias que nisso tem, e de outras varias couzas desta sorte.”284 Contudo, embora admita a existência de
uma matriz civilizacional comum, e de um paralelo na importância conferida à polidez de comportamentos, Rodrigues salienta que a oferta de presentes sempre que se presta uma visita a alguém é um hábito ainda mais valorizado e marcante no Japão do que na China.285 Este costume terá igualmente conhecido uma grande exacerbação, tendo-se observado um acréscimo significativo do valor dos presentes oferecidos, a partir do período de afirmação de Nobunaga, ao qual, segundo Rodrigues, se terá seguido um aumento da prosperidade, da riqueza dos “grandes e gente das Cidades”, e do comércio.286 No texto da Historia da Igreja de Japão está patente que esta mudança terá sido bastante prejudicial para os padres, que tiveram de acompanhar as exigências dos senhores, sobretudo os gentios, de forma a garantir o sucesso da missão.287 A acreditar na interpretação de Rodrigues, pode intuir-se que o gosto e apetência natural de Nobunaga por objectos valiosos, raros e exóticos foram estimulados por esta conjuntura específica, o que poderá ser mais um factor, para além da estreita convivência de Fróis com Nobunaga, que explique o notório
282 No que diz respeito à Historia da Igreja do Japão de João Rodrigues, devido ao facto de este autor ter
feito uma extensa e detalhada análise sobre o cerimonial japonês a cumprir aquando da dádiva de presentes, apenas particularizaremos os comentários que interessam directamente ao tema em estudo.
283 Cf. Rodrigues, Historia, p. 256. 284 Cf. Rodrigues, Historia, p. 258. 285 Cf. Rodrigues, Historia, p. 311. 286 Cf. Rodrigues, Historia, p. 313. 287 Cf. Ibidem.
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protagonismo deste dáimio nas referências presentes na documentação sobre o interesse japonês na cultura material europeia.
É ainda de referir a importância conferida pelos japoneses ao “ornato exterior com que se offerecem os prezentes”, salientada tanto por Rodrigues288 como por
Valignano.289 Todas as prendas tinham de ser embrulhadas em papel, e até as formas de dobrar o papel, que variavam consoante o produto oferecido, deveriam obedecer a regras específicas, estabelecidas nos “livros (...) de cortezias” japoneses.290 De facto,
este pormenor era considerado tão importante pelos japoneses, e encontrava-se culturalmente tão enraizado, que ambos os autores mencionam que se um presente fosse oferecido sem ter sido embrulhado correctamente e de acordo com os preceitos nipónicos, o obsequiado poderia ficar melindrado, uma vez que tal seria considerado uma imensa falta de cortesia, que inclusivamente, segundo Valignano, poderia causar danos à reputação dos padres.291
Finalmente, a própria natureza dos presentes oferecidos merece ser salientada, uma vez que também esta se encontrava sujeita a normas específicas. Os produtos oferecidos deveriam, então, adequar-se, por um lado, à qualidade social do indivíduo que presenteava e do indivíduo presenteado, que deveria ser proporcional ao valor do produto, e por outro, à ocasião da visita. Por exemplo, Valignano refere que os presentes que os padres podiam oferecer aos senhores se dividiam em dois grupos: os produtos de comer e as peças. No que diz respeito aos produtos de comer, os mais elevados eram conservas e comida europeia,292 que se deveriam dar no mínimo todos os meses aos senhores gentios importantes em cujas terras se encontravam missionários, e que por isso era necessário agradar.293 Quanto às peças, estas seriam o tipo de oferta mais adequada para quando os padres visitavam um senhor, e à semelhança do que referimos anteriormente, os bens mais preciosos (isto é, as raridades europeias) estariam reservados aos senhores gentios mais importantes,
288 Cf. Rodrigues, Historia, pp. 314-316. 289 Cf. Valignano, Advertimentos, pp. 264-266. 290 Cf. Rodrigues, Historia, p. 315.
291 Cf. Valignano, Advertimentos, pp. 264-266: “todas as cousas que se mandão se hão de mandar (...)
emburilhadas com seus papeis de suibara dobrados, da maneira que pedem a[s] mesmas cousas [como] em Japão se acostumão, porque faze-lo doutra maneira hé cousa ridiculosa e que nos faz perder a reputação.”
292 Cf. Valignano, Advertimentos, p. 258: “concervas ou cousas de comer do Nabão, feito à nossa chara”. 293 Cf. Valignano, Advertimentos, p. 260.
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como Nobunaga ou Hideyoshi, sendo que aos cristãos os padres apenas deveriam oferecer contas de rezar e objectos ligados ao culto.
Deste modo, pode concluir-se que a dádiva era uma prática, sob o ponto de vista político e social, de extrema importância no Japão, que no século XVI, aquando da chegada dos portugueses ao arquipélago, já se havia transformado numa verdadeira arte, sujeita a complexas e rigorosas regras de cerimonial, e codificada, segundo João Rodrigues, em livros de etiqueta. Sob o ponto de vista cultural, a dádiva era, mais do que uma prática, um princípio basilar, que diferenciava normativamente os indivíduos entre si, e que constituía uma das características essenciais da sociedade japonesa, fortemente hierarquizada e marcada pela teatralidade e pelas exterioridades. Esta mesma dádiva, que não era voluntária e ainda menos era generosa e desinteressada, tornou-se, por fim, tal como se pode verificar nas páginas anteriores, num elemento fulcral, integrado habilmente na estratégia de conversão do Japão pelos jesuítas,294 na qual as elites representavam o alvo primordial das tentativas de evangelização. Com efeito, os objectos europeus, sob a forma de ofertas, mais do que o passaporte de entrada nas cortes dos principais dáimios do Japão, garantiram por várias vezes a continuação dos contactos e a segurança dos padres, como já foi referido. Captaram o interesse de senhores que mais tarde acabaram por se converter, e garantiram, sobretudo, uma boa relação dos missionários com Oda Nobunaga e com Toyotomi Hideyoshi, que nunca quiseram, ao que parece, converter-se, mas continuaram a receber regularmente os padres nas suas cortes. Na dádiva assentaram, portanto, em larga medida, os contactos da Companhia de Jesus com os dáimios japoneses, que por seu turno permitiram o sucesso da missão.
Assim, se estes objectos eram utilizados para chamar as elites para a conversão, por outro lado, parece por alguns episódios narrados na Historia de Japam e na epistolografia que as restantes camadas da sociedade eram aliciadas pelos jesuítas sobretudo através das cerimónias religiosas, como exéquias, procissões e celebrações pascais e natalícias, o que nos conduz à segunda parte do presente ensaio.
294 Sobre a importância dos objectos e da materialidade no Império Português e nos contactos que se
travaram com outras entidades políticas, vd. Jorge Manuel Flores, “Um Império de Objectos”, in Os
Construtores do Oriente Português, Lisboa, Comissão Nacional para a Comemoração dos
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