Fonte: Acervo de fotos da escola de Sambaíba
A descontextualizarão dos conteúdos lecionados, a desmotivação e falta de envolvimento dos professores, a centralização das decisões na direção da escola e o impedimento da manifestação popular no ambiente escolar fazem das escolas no campo esvaziadas da vida que levam os moradores do lugar, sendo assim a escola se revela como mais um mecanismo de desenraizamento dos jovens estudantes “do Gerais”.
A sub-bacia do rio dos Cochos possui, além da escola de Sambaíba, mais dois pólos de educação formal: a escola localizada na comunidade de Sumidouro, com turmas de 1° a 5°, e a escola de Bom Jantar com turmas do Ensino Médio e com uma extensão na comunidade de São Bento e que atende estudantes de 1° a 5° séries. A relação destas escolas com o povo geralista não poderia ser diferente da escola de Sambaíba, afinal estamos falando de um modelo educacional em que as ações governamentais não priorizam como ponto de partida, a realidade dos povos campo. Diante desse contexto, os esforços das organizações locais no sentido de reafirmar a identidade geralista dos povos que vivem na sub-bacia nos Cochos passam
inevitavelmente pela reconquista das escolas e pelo comprometimento e vinculação destas às lutas dos povos do campo.
As degradações ocorridas na região, em função da ocupação “do Gerais” por empresas reflorestadoras culminaram na redução da oferta de recursos hídricos na região e este fato foi o estopim que gerou a organização da sociedade local com o objetivo de lutar e resistir aos mecanismos que operam no sentido contrário à sua reafirmação identitária, dentre eles a descontextualização da educação formal na sub- bacia dos rio dos Cochos. O contexto que gerou a mobilização de parte dos moradores destas comunidades, em prol da defesa de um projeto de revitalização do rio, está evidenciado no capitulo que se segue.
Capítulo II
MEMÓRIAS DE UM RIO SECO
2.1 Rio dos Cochos: memórias
Na comunidade de Cabeceira dos Cochos localizada nos Gerais do município de Cônego Marinho descia caudaloso rio que costurava o sertão a dentro, fazendo caminho com suas águas, passando pelas comunidades de Sumidouro, Sambaíba, Mamedes, Roda D’àgua, São Bento, Baruzeiro e Bom Jantar indo desaguar no São Francisco. Ao longo desse trajeto se uniam ao curso do rio dos Cochos dois pequenos rios, rio Tatá e rio Pedras, os quais avolumavam sua corrente conferindo-lhe mais força para atingir seu fatal destino: alimentar as águas do Velho Chico.
Segundo Seu Geraldo, agricultor morador da comunidade de Sumidouro e membro da Assusbac, antigamente o rio dos Cochos tinha muita água formando muitos brejos propícios para o cultivo. A fartura de água estava diretamente relacionada à ocorrência de outros recursos como pastagens e frutos do cerrado. O agricultor conta que as passagens de travessia do rio eram poucas e mesmo assim se fazia com água na cintura.
Antigamente o rio era forte, forte porque tinha muita fartura de água, muita fartura de pasto... tinha muito brejo que podia trabalhar, tinha muita fartura de fruta. [...] Os Cochos tinha água, que a passagem era pouca porque os brejos não deixavam. Não tinha jeito de passar mesmo. Quando tinha jeito, passava com água na cintura. ( Seu Geraldo, Pesquisa de Campo, setembro de 2009)
A percepção de Seu Geraldo é compartilhada pelos moradores mais antigos que viveram próximos ao rio. São freqüentes os relatos de agricultores que pescaram ou nadaram no rio e que tiveram dificuldades para atravessá-lo com o carro de boi. Diante da realidade atualmente vivida nas comunidades que se distribuem ao longo do rio dos Cochos, das mudanças que aconteceram no seu leito e das dificuldades de permanência que foram impostas ao povo do lugar, essas memórias são vistas pelos mais jovens ou por alguém de outro lugar que visita a comunidade, quase que como uma lenda. A fala dos antigos é sempre carregada de uma nostalgia que relembra tempos antigos em que havia água, terra e fartura.
Assim como a fartura de água, num tempo remoto, é consenso entre os habitantes históricos do rio, também são constantes os relatos que atribuem as causas da catástrofe à ocupação dos Gerais da sub-bacia do rio dos cochos, na década de 1970, por empresas reflorestadoras de eucalipto.
A ocupação das terras “do Gerais” pelas empresas de reflorestamento teve impactos catastróficos e imediatos. Os agricultores chegam a afirmar que muitas nascentes, córregos e o afluente rio Tatá, desapareceram de um dia para o outro no meio do carreamento de terras que uma chuva intensa provocou, após uma gradagem realizada pela empresa nas terras “do Gerais”. Muitos perderam lavouras inteiras soterradas pelo barro. O agricultor Toninho, membro da Assusbac, narrando sua história com o rio, conta como foi a ocupação das terras pelas empresas de reflorestamento:
A minha história com o Rio dos Cochos começa desde criança. Porém com uma outra história... a gente trabalhava... eu nasci aqui, fui criado aqui, estudei aqui até a oitava série na escola de Sambaíba com o rio dos Cochos com muita água. Mas aí veio as reflorestadoras naquela época que o governo incentivava as grandes empresas a reflorestar, veio um desmatamento muito forte e aí veio um processo de assoreamento muito intenso. O plantio de eucalipto aconteceu aqui nas Cabeceiras dos Cochos e aqui mesmo na Sambaíba que tinha algumas nascentes, o rio Pedra e o rio Tatá que foi todo assoreado com o desmatamento das reflorestadoras pra plantio de eucalipto... eram afluentes do rio dos Cochos que alimentavam o rio e entorno de 1980/81, começou aí o desmatamento a gradagem e com isso o assoreamento. As empresas, alguns anos depois elas foram embora. Abandonaram aí e foram embora. (Toninho, Pesquisa de Campo, setembro de 2009)
Uma das empresas era italiana e tinha no nome “Pittione”, sobrenome da família do proprietário. Estes trabalharam na região durante aproximadamente 12 anos, até meados de 1990. Posteriormente a siderúrgica Interlagos utilizou as terras para a fabricação de carvão a partir da extração da mata nativa. Conta Toninho que, onde o eucalipto havia sido plantado o cerrado estava se regenerando, mas virou tudo carvão novamente.
As conseqüências do impacto gerado pela exploração insustentável dos Gerais causaram forte impacto na oferta de recursos hídricos na sub-bacia do rio dos Cochos. Atualmente o rio dos Cochos é um rio intermitente, ou seja, um rio que se encontra seccionado quanto à disponibilidade de água superficial, secando em vários trechos nos períodos de seca. Na comunidade de Cabeceira, conta seu Geraldo que, as águas ainda resistiram durante um tempo, mas atualmente dá sinais de esgotamento sendo que a saída tem sido a construção de cisternas. Na comunidade de sumidouro, diz o agricultor que, quando as águas começaram a faltar, as pessoas construíam cisternas para se abastecerem, um tempo depois a mata de galeria que acompanhava o rio foi secando até secar todo o trecho do rio.