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Effect of Plant Downsizing on Employment, Earnings and Health

Francisco de Paula Cândido Xavier (1910-2002), talvez o mais famoso médium brasileiro, ficou conhecido como Chico Xavier, nome reduzido adotado após

29 Sobre a mitologização do Espiritismo Brasileiro, nos atores Bezerra de Menezes e Chico

Xavier, pode-se aprofundar pela leitura de Bernardo Lewgoy, “Os espíritas e as letras: um estudo antropológico sobre cultura espírita e oralidade no espiritismo kardecista”. Tese de doutorado. USP. 2000.

lançar os primeiros livros mediúnicos. Cidadão mineiro da cidade de Pedro Leopoldo, mudou-se para Uberaba em janeiro de 1959, onde faleceu 43 anos depois. Trabalhou desde a infância, inicialmente em uma fábrica de tecidos e depois como caixeiro de venda na cidade natal. Não concluiu o ensino primário e se manteve trabalhando até se aposentar na Inspetoria Regional do Serviço de Fomento à Produção Animal (SOUTO MAIOR, 2003). Foi um homem com mais de seis biógrafos, mas que não produziu sua autobiografia (SILVA, 2012). Quando faleceu, em 30 de junho de 2002, houve grande comoção no país, estabelecendo-se dois dias de despedidas, a que compareceram aproximadamente 120 mil pessoas para visita ao velório. Estima-se que o cortejo até o cemitério tenha sido acompanhado por mais de 30 mil pessoas. Recebeu homenagens de vários artistas, lideranças políticas, entidades assistenciais, empresários e de vários segmentos do campo religioso. O movimento da população fez o prefeito de Uberaba decretar feriado na cidade e o Governador do estado anunciou luto oficial por três dias.

É atribuída a Chico Xavier a constituição do ethos católico que caracterizou o Espiritismo enquanto religião no Brasil. Segundo Stoll (2003), seu papel levou à construção do “estilo católico” característico do “Espiritismo à Brasileira”. Os estudos de Stoll (2002 e 2003) analisaram a história de vida de Chico e sua biografia que contribuem para se estabelecer o que seria uma mancha católica no Espiritismo codificado por Kardec. Para Silva (2012: 56), outra possibilidade pode ser apontada para interpretar as características de “renúncia, sofrimento e sacrifício” no comportamento de Chico, dizendo que esses estilos fazem parte das “representações da mineiridade” construídas a partir da “história da Inconfidência” e mantida nos discursos de políticos mineiros, sendo também adotada no habitus do médium. Lewgoy (2000), estudando o Espiritismo e o perfil de seus fiéis, em “Os espíritas e as letras”, já abordou algumas questões sobre as transformações do Espiritismo no Brasil, dadas as condições estabelecidas pelo mito Chico Xavier; antes disso, já comentamos o papel do médium na avaliação de Candido Procópio F. Camargo (1961), que atribuía autoridade análoga à Allan Kardec.

Chico Xavier é alguém cujos percalços biográficos não permitiriam a construção de uma história comum, mas sim o cumprimento de uma “missão

programada”, à semelhança de grandes religiosos. Seu lema era seguir a passagem bíblica: "Aquele que quiser ser o maior que se faça o servidor de todos", que lia no Evangelho, e adotou como segredo de sucesso – “abrir mão de si mesmo” (SOUTO MAIOR, 2003: 70). Será, portanto, um homem cristão, do sacrifício, da doação, da caridade, da renúncia aos bens materiais e de dolorosas histórias de vida desde a idade infantil. Perde a mãe com somente cinco anos de idade e seu pai, vendedor de bilhetes de loteria, distribui os nove filhos entre a parentela, pois não tinha condições para criá-los. O menino Chico foi morar com a madrinha, que logo se mostrou uma pessoa cruel, talvez com problemas mentais, que teria aplicado no menino várias surras com varas de marmelo, o teria mandado lamber a ferida purulenta do primo e em outros momentos teria chegado a encravar garfos em sua barriga, sob a alegação que o menino tinha o “diabo no corpo”. Nesse período, Chico já manifestava sua mediunidade de vidência e estabeleceu momentos de consolo em conversas que desencadeou com o espírito de sua mãe “Maria João de Deus”, atrás de uma bananeira no quintal da casa. O espírito da mãe, que foi muito católica, recomendava “paciência, resignação é fé em Jesus”. Anos depois, o pai novamente se casa e a madrasta exigiu reunir os nove filhos, recompondo a família. Chico recebeu mais seis irmãos desse novo casamento do pai. O garoto Chico começou a frequentar a escola e trabalhou como vendedor dos legumes da horta de sua casa pelas ruas da cidade. Sua mediunidade continuou e, na escola, escreveu uma redação por psicografia, que teria sido ditada por um espírito, permitindo-lhe ganhar menção honrosa em concurso organizado pelo estado na comemoração do Centenário da Independência em 1922. O pai, sempre incomodado com as coisas inusitadas do filho, impõe-lhe castigos e, como não conseguia resolver o “problema”, procura ajuda com o pároco da Igreja.

Dessa forma, a Igreja Católica se tornará uma experiência marcante na vida do médium, pois Chico receberá do padre da cidade orientações para resolver “o problema” das visões. Os recursos ordenados pelo padre são vários, desde penitências e contrições, até o trabalho em idade precoce com horários rígidos. Assim, desde mocinho, Chico ingressa como operário em uma fábrica de tecidos e, depois de contrair doença pulmonar, devido ao tipo de serviço, passa

a trabalhar como caixeiro de venda, obedecendo a rígida disciplina e rigorosos horários. Em 1924, parou com os estudos, quando concluiu o antigo curso primário; depois, passou a exercer a função de escriturário de armazém. Apesar de católico devoto e das incontáveis penitências e contrições prescritas pelo padre, não parou de ter visões nem de conversar com espíritos.

Em 1927, uma de suas irmãs adoeceu com sintomas de loucura e sua madrasta vem a falecer. Nesse período, Chico inicia seus estudos sobre o Espiritismo orientado por um amigo. Funda o Centro Espírita Luiz Gonzaga no barracão de madeira de seu irmão, e recebe orientações dos espíritos Emmanuel e da mãe para que estudasse as obras de Allan Kardec e iniciasse seu trabalho de psicografia. Na década de 1930, Chico Xavier ingressou no serviço público federal como auxiliar de serviço no Ministério da Agricultura, havendo relatos de que, em toda sua carreira como funcionário público, não houve nenhuma falta ao serviço. Em 1931, foi publicado o primeiro livro psicografado – “Parnaso de Além-Túmulo”, ditado por espíritos de poetas brasileiros e portugueses.

O primeiro livro psicografado passará por muitas dificuldades até ser editado. Em uma das solicitações de publicação, o editor despacha Chico e o amigo que o apresenta com os dizeres: “esse livro é tudo bobagem e esse rapaz uma besta espírita” e decretou que não publicaria os poemas. Quando Chico, tristonho por se achar insultado, desabafou com a mãe, recebeu a lição: “não vejo insulto algum nisso. Creio até que você foi honrado. Uma besta é um animal de trabalho, imagine-se como uma besta a serviço do Espiritismo”. Em outras situações, recebeu trocadilhos de seu mentor Emmanuel, como por exemplo, quando foi convidado para trabalhar em Belo Horizonte, mas teria que dizer para todos que os poemas de “Parnaso de Além Túmulo” eram de sua autoria e não dos Espíritos, momento em que foi comparado ao pássaro “sofrê” que imita os outros. Chico nega a oferta e teria recebido de Emmanuel a resposta: “Sim, volte a Pedro Leopoldo e procuremos trabalhar. Você não é um ‘sofrê’, mas precisa sofrer para aprender” (SOUTO MAIOR, 2003: 51). Por essas e outras ocorrências, Chico desenvolveu seu senso de humor, que somado a atitudes de humildade, irão encantar o público em diversas passagens inusitadas, tais como: Perguntaram: “Porta-voz de Deus? Chico

reagia: "Uma besta encarregada de transportar documentos dos espíritos"; Colocaram: – Um iluminado? Chico respondeu: "Não. Uma tomada entre dois mundos"; Chico Xavier, o apóstolo? "Nada disso. Cisco Xavier" – ele transformava o nome em trocadilho, quando já era idolatrado por caravanas de fiéis e curiosos vindos de todo o país; e foi assim que recebeu a indicação para o Prêmio Nobel da Paz em campanha nacional embalada por mais de 2 milhões de assinaturas de adesão em 1981” (SOUTO MAIOR, 2003: 20) – já um mito em vida.

Chico Xavier foi um médium de grandes cifras numéricas nas atividades que desenvolvia. Em psicografia de cartas de falecidos endereçadas aos parentes e amigos, segundo Souto Maior (2003: 20), em 1980, já atingia o referencial de 10 mil. O autor também relata as duas mil instituições de caridade beneficiadas com os recursos de direitos autorais dos livros vendidos. Em 1971, Chico Xavier já havia psicografado 113 livros ditados por mortos, e, com 70 anos de trabalho mediúnico, atingiu a cifra de mais de 430 publicações (anexo 4), sendo mais de uma dezena editadas e publicadas após sua morte. Estima-se que já foram vendidos mais de 50 milhões de exemplares, sendo algumas obras consideradas best sellers, como o livro Nosso Lar (campeão de vendas). Com a participação da editora da FEB, existem várias obras traduzidas para inglês, espanhol, japonês, esperanto, russo, italiano, romeno, mandarim, sueco e também para o braile. Segundo Lewgoy (2000), Chico Xavier talvez seja o personagem de mais significativa produção literária mediúnica brasileira dos tempos atuais.

A vida do médium apresenta uma imagem de muito sucesso, embora tenha passado por inúmeros percalços em sua trajetória. Para citar algumas das situações difíceis, podemos resgatar o processo jurídico na década de 1940, sobre direito autoral requerido pela viúva de Humberto de Campos contra o médium e a FEB, pela publicação do livro “Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho”. O processo requeria direitos autorais post mortem do autor. O médium psicógrafo Chico foi envolvido, e depois absolvido. Na década de 1980, novos debates jurídicos, em que Chico foi incluído em dois processos por apresentar cartas psicografadas em defesa de criminosos. As matérias jornalísticas ganharam repercussão em todo o país e no exterior. A imagem de

Chico Xavier na mídia foi sempre lançada e utilizada em várias direções, como o programa televisivo “Pinga Fogo” da TV Tupi de São Paulo em julho de 1971, e depois muitas entrevistas para jornais impressos, e em revistas com especulações quanto a sua vida privada (namoro, casamento, sexualidade, etc.) (SOUTO MAIOR, 2003).

Segundo o próprio Chico, sua missão passa pelo uso adequado da mediunidade, seguindo as orientações do mentor Emmanuel e de sua mãe, para realizar com primazia a comunicação dos Espíritos com o “mundo material”. Como diz Souto Maior, “Seguia à risca uma instrução ditada por Emmanuel: fidelidade irrestrita a Jesus Cristo e a Kardec, o codificador da doutrina espírita” (op. Cit., 2003: 52). Chico apresentava todos os tipos de mediunidade30, mas utilizava principalmente a psicografia e a vidência. As atividades do médium eram intensas e de variadas informações: psicografava poemas dos mortos; cartas aos parentes vivos, receitas homeopáticas assinadas por Bezerra de Menezes; romances; obras de cunho doutrinário; dentre outras. Atendeu às chamadas de diversos Espíritos, mas vamos destacar os Espíritos de Emmanuel e André Luiz.

As obras que são atribuídas ao Espírito de Emmanuel caracterizam-se por apresentar um cunho mais doutrinário, por meio de mensagens, dissertações e romances históricos do início do Cristianismo, mostrando um Espiritismo de caráter fortemente cristão. Com André Luiz, são mensagens e dissertações de um aprendiz do “mundo espiritual”. Os livros publicados da “série André Luiz” (anexo 5) são identificados pelos espíritas como obras de revelações científicas que tratam de temas da saúde e esclarecem sobre a vida no “mundo espiritual”, melhorando também o entendimento sobre a mediunidade para orientar sua adequada utilização. Essas publicações são bastante estudadas pelos espíritas que são profissionais de saúde, com uma perspectiva de compreender muitas situações no processo de saúde-doença e dando explicabilidade para a conquista ou não da cura.

30 Dos vários tipos de mediunidade existentes Chico Xavier se destaca com psicografia,

psicofonia; vidência e audiência (quando o espírito passa a ideia, e o médium tem sensações de ver ou ouvir); clarividência e clariaudiência (quando o médium percebe o mundo espiritual, vê e ouve) e a ectoplasmia (doação de ectoplasma principalmente visando materialização de Espíritos).