4.3 Uncertainties
5.1.2 Clay effect
O signo de Charles Sanders Peirce (1839-1914) é concebido como ferramenta con- ceitual da Lógica, antes que da Lingüística. Se a Lógica se ocupa das formas do pensamen- to e se o pensamento se desenvolve pelo encadeamento de signos, então “a lógica é apenas o outro nome para semiótica”.112 Com esse programa em mente, Peirce introduz no proces- so de significação um elemento capaz de individualizar o sujeito interveniente, um “al- guém”. Daí decorre que seu signo, em vez de constituir-se de uma díade, como o de Saus-
111
Saussure (1931: 101). Grifamos.
112
sure, é triádico. Compõe-se de objeto, representâmen e interpretante. Em definição de 1897, Peirce diz:
“Um signo, ou representâmen, é aquilo que, sob certo aspecto ou modo, representa algo para alguém. Dirige-se a alguém, isto é, cria, na mente dessa pessoa, um signo equivalente, ou talvez um signo mais desenvolvido. Ao signo assim criado deno- mino interpretante do primeiro signo. O signo representa alguma coisa, seu objeto. Representa esse objeto não em todos os seus aspectos, mas com referência a um ti- po de idéia que eu, por vezes, denominei fundamento do representâmen”.113
Nesse sistema, o representâmen é um “signo material”, que existe fora do indivíduo engajado em procedimento de significação, ao passo que o interpretante é um “signo men- tal”, situado no pensamento do indivíduo, e que é mobilizado pelo signo material. Deve-se de início observar nessa definição que o interpretante pode ser “equivalente” ou “mais de- senvolvido” que o representâmen. Deve-se ainda reter a percepção de que o representâmen não representa integralmente o objeto, mas, sim, que representa-o “sob certo aspecto ou modo”. Também retomaremos, um pouco mais adiante, a aproximação aí feita entre idéia e fundamento.
O matemático francês Robert Marty encontrou, em pesquisa “não exaustiva”, 76 ocorrências de definição do signo na obra de Peirce, das quais 60 têm sua data definida na origem dos textos ou atribuída por Robin. Essas ocorrências datadas se distribuem de 1865 a 1911, concentrando-se, oitenta porcento delas, no período 1902-11.114 De acordo com a análise de Marty, uma constante em todas essas abordagens é a afirmação do caráter triádi- co do signo, ainda que os termos adotados para designar os elementos da tríade sofram variações. O termo representâmen, por exemplo, parece ter sido abandonado em 1905, substituído por signo, simplesmente. Mas, mais importante, Marty defende que, a partir dessa época, Peirce teria mudado sua compreensão das relações entre os elementos da tría- de, passando da afirmação de relação perfeitamente simétrica, não redutível a um comple- xo de relações diádicas, para compreensão em que prevaleceriam relações assimétricas entre os pares de elementos. Por essa chave, Peirce teria passado a considerar que o objeto determina o signo e este determina o interpretante. Daí, Marty postula que há dois concei- tos peirceanos do signo. O primeiro em ordem cronológica é pelo francês chamado “triádi- co global”; o segundo, que esse analista considera mais preciso e refinado, poderia ser chamado “triádico analítico” e prestar-se-ia melhor “a uma definição formal do signo que seja operativa e matematicamente formalizável”.115
Se o resultado da análise de Marty representa fielmente a apontada evolução do pensamento de Peirce, este último teria partido de uma compreensão em que se reconhece, comparativamente, maior liberdade do intérprete – que é, em seu sistema, o lugar da elabo- ração do interpretante –, para o amadurecimento de uma visão em que, sempre comparati- vamente, diminui essa liberdade.
113
Peirce (1897: 46). Grifamos. A data do fragmento de onde se extrai esse excerto é atribuída. 114
Marty (1990: 367-84). 115
Essa nova compreensão das relações entre os elementos do signo, todavia, não nega a variedade dos interpretantes passíveis de existência em face de um mesmo signo, dados os diferentes graus de familiaridade dos intérpretes em relação ao objeto designado. Essa variável – familiaridade – é importante no âmbito desta pesquisa porque vincula-se à noção de uso e, portanto, de práxis. A familiaridade se constrói no uso. E essa noção perpassa os textos de Peirce antes e depois de 1905.
Em 1902, ao explicar como se encadeiam, na mente do intérprete, as relações triá- dicas que fazem, da associação entre um representâmen e seu objeto, o objeto de um novo interpretante, o norte-americano refere-se à “idéia familiar de um signo”, desta forma:
“Um Signo, ou Representâmen, é um Primeiro que se coloca numa relação triádica genuína tal com um Segundo, denominado seu Objeto, que é capaz de determinar um terceiro, denominado seu Interpretante, que assuma a mesma relação triádica com seu Objeto na qual ele próprio está em relação com o mesmo Objeto. A rela- ção triádica é genuína, isto é, seus três membros estão por ela ligados de um mo- do tal que não consiste em nenhum complexo de relações diádicas. Essa é a razão
pela qual o Interpretante, ou Terceiro, não se pode colocar numa mera relação diá- dica com o Objeto, mas sim deve colocar-se numa relação com ele do mesmo tipo da assumida pelo Representâmen. Tampouco pode a relação triádica na qual o Ter- ceiro se coloca ser meramente similar àquela na qual se coloca o Primeiro, pois isto faria da relação do Terceiro com o Primeiro mera Secundidade degenerada. O Ter- ceiro deve realmente colocar-se numa relação dessa espécie e, assim, deve ser ca- paz de determinar um Terceiro que lhe seja próprio; mas, além disso, deve ter uma segunda relação triádica na qual o Representâmen, ou melhor, a relação deste para com seu Objeto, será seu próprio (do Terceiro) Objeto, e deve ser capaz de deter- minar um Terceiro para essa relação. Tudo isso deve ser igualmente verdadeiro em relação ao Terceiro do Terceiro e assim por diante indefinidamente; e tudo isto, e mais ainda, está envolvido na idéia familiar de Signo [...]”.116
Como resulta evidente do primeiro trecho que destacamos nesse excerto, essa abor-
dagem se coaduna com o conceito de signo peirceano triádico global, proposto por Marty. Pois, nela, a relação entre objeto e interpretante é do mesmo tipo da relação entre objeto e representâmen, mas não é similar: não é uma “secundidade degenerada”. E as relações entre os três elementos não podem ser reduzidas a um “complexo de relações diádicas”. Peirce explicita aí como se dá a familiarização com o objeto. Ela ocorre mediante acrésci- mos sucessivos, nos quais cada relação entre representâmen e objeto, depois de interpreta- da, constitui o objeto para um novo interpretante – “o Terceiro do Terceiro” – num proces- so de desenvolvimento da interpretação. Dessa forma, na nova relação,
a) representâmen1 ↔ objeto1 = objeto2 e
b) interpretante1 → representâmen2, em que
c) o representâmen2 “determina” um interpretante2.
Daí, uma nova relação triádica, desenvolvida a partir da primeira, constitui-se de representâmen2, objeto2 e interpretante2, e assim sucessivamente, pois
116
d) representâmen2 ↔ objeto2 = objeto3 e
e) interpretante2 → representâmen3...
Neste ponto, cumpre registrar que, ao final do excerto de Peirce há pouco transcrito, a tradução brasileira omite o artigo indefinido “um”. Onde na tradução brasileira se publica “...está envolvido na idéia familiar de Signo”, o texto em inglês diz: “...is involved in the familiar idea of a Sign”, implicando que a familiaridade aí afirmada por Peirce não se refe- re à idéia de signo em geral, mas, sim, à “idéia” – isto é, ao fundamento, explicação, pre- ceito – que vincula cada interpretante aos respectivos objeto e representâmen. Este enten- dimento é inteiramente compatível com a proposição peirceana de 1897, transcrita acima, segundo a qual o interpretante pode ser um signo “mais desenvolvido” que o representâ- men.
Num texto de 1910 a noção de familiaridade associada à interpretação do signo surge mais clara:
“O Signo pode apenas representar o Objeto e referir-se a ele. Não pode proporcio- nar familiaridade ou reconhecimento desse Objeto; isto é o que se pretende signifi- car, nesta obra, por Objeto de um Signo, ou seja, que ele pressupõe uma familiari- dade com algo a fim de veicular alguma informação ulterior sobre esse algo. [...] se existe algo que veicula informação e que, entretanto, de forma alguma se relaciona com ou se refere a algo com que a pessoa a quem esse algo veicula a informação tem, quando percebe a informação, a menor familiaridade, direta ou indireta – e es- sa seria uma espécie de informação bem estranha –, esse algo, nesta obra, não é chamado de Signo”.117
O exemplo acionado por Peirce para pôr essa idéia em funcionamento é o de dois observadores numa praia, olhando para o mar, sendo que um deles consegue discernir um navio ao longe e ainda é capaz de identificar o tipo de embarcação; e o faz em voz alta. O outro, que não tem as mesmas capacidades, embora advertido pelo primeiro, não consegue ver esse navio particular e apenas pode recorrer, para representá-lo em sua mente, à idéia de navio que elaborou anteriormente e com a qual está familiarizado. Nesse caso, operando já no âmbito do que Marty chamou de conceito do signo triádico analítico, Peirce faz a variação de interpretações emergir de diferentes capacidades dos intérpretes, mas estabele- ce um parâmetro ótimo, segundo o qual o objeto está sempre lá e o primeiro intérprete está, digamos assim, perfeitamente capacitado para interpretar a imagem que o próprio objeto oferece, ao passo que o segundo é afetado por um handicap e, por isso, somente pode for- mar uma idéia defeituosa ou limitada do objeto de que se está tratando.118
Podemos explorar essa proposição de Peirce, bem como seu exemplo, desenvol- vendo um exemplo nosso, em que consigamos detalhar vários níveis de conhecimento e de familiaridade do intérprete com o objeto, mesmo com o risco de nos afastarmos dos estri- tos termos do conceito peirceano do signo triádico analítico, tal como identificado por Marty. 117 Peirce (1910: 47-8). 118 Peirce (1910: 48).
Vamos supor que topemos com a seqüência de letras n o r i t o. Se nunca ouvimos nem vimos essa seqüência antes, podemos ficar em dúvida quanto a tratar-se de um arranjo de letras lançadas aleatoriamente, sem intenção de significação – escritas numa folha avul- sa ou pixadas num muro – ou se é um signo verbal. Será o nome de alguém, talvez apelido de um Waldenor? Mesmo admitindo, para raciocinar, que seja um signo verbal, se ainda não sabemos o que significa e nem mesmo temos certeza da língua a que pertence, essa “suposta palavra” ainda não é, na lógica peirceana, um signo para nós, pois não consegui- mos estabelecer uma relação entre ela e qualquer objeto diferente dela. Será no máximo um enigma ou o signo dela mesma. Poderemos orientar alguém que se perdeu a virar na primeira esquina “depois do muro do norito”.
Porém, se a encontramos num texto não-especializado impresso em português e sem que lhe tenham conferido qualquer caracterização gráfica especial (aspas, itálico etc.), passamos a ter quase certeza de que é um signo da língua portuguesa, embora continue não sendo um signo para nós. Tentamos deduzir, a partir dos outros elementos do texto, a que objeto a palavra se refere e podemos talvez chegar a uma suposição mais ou menos razoá- vel. Se a aceitarmos, norito já passa ser um signo para nós, se bem que débil, porque muito incertamente fundamentado. Mas, se o esforço de dedução é malogrado, também podemos supor que houve erro tipográfico e alguma letra esteja sobrando, faltando ou tenha sido trocada, ou que as letras estejam dispostas numa ordem incorreta. Então, norito permanece um não-signo ou um quase-signo para nós. Nesse caso, se não temos dicionário à mão, mobilizamos nosso dicionário pessoal – isto é, nossa coleção particular de interpretantes – na busca de signos verbais quase idênticos, para avaliar as possibilidades do suposto erro tipográfico. Mas se, finalmente, vamos ao dicionário, encontramos o verbete e uma expli- cação:
“norito. s.m. variedade de gabro cujo piroxênio pertence ao sistema ortorrômbi- co”.119
Agora sabemos que norito é um signo, porém ainda só o é muito fracamente para nós, porque, de toda essa explicação, estamos familiarizados apenas com os termos que pouco explicam: variedade, de, cujo, pertence, ao e sistema. Falta-nos toda familiaridade com os elementos da explicação que carregam as informações mais concernentes ao obje- to, que realmente o definem: gabro, piroxênio e ortorrômbico. Depois de muito folhear de verbete em verbete o dicionário, pois cada explicação torna outras necessárias, num enca- deamento de “terceiros de terceiros”, já saberemos mais. Norito já será de pleno direito um signo para nós, pois agora já saberemos relacioná-lo a um objeto.
Todavia, viremos a saber bem mais se um mineralogista exibir-nos pequenas amos- tras de norito e, mostrando-as sob os ângulos mais pertinentes, puder nos dar uma explica- ção compreensível sobre as características significativas dessa rocha, suas condições de ocorrência, seus usos etc. Em tal situação, podemos fazer-lhe perguntas cujas respostas nos ajudarão ainda mais a entender o que é importante saber desse objeto, pois algumas das nossas questões poderão evidenciar, para o técnico, os possíveis equívocos da nossa com-
119
preensão em progresso. Também podemos tomar as amostras nas mãos, sentir as regulari- dades e irregularidades de suas superfícies, sopesá-las etc. A partir dessa experiência em presença, em contato tanto visual quanto tátil, passamos a ter conhecimento “prático” ou “concreto” do objeto, constituímos uma lembrança pessoal vívida, nos apropriamos dele. Em lugar desse conhecimento mais desenvolvido, o dicionário apenas nos proporcionara um conhecimento “teórico” ou “abstrato” – no máximo, “imaginado” – com base no qual, por exemplo, dificilmente teríamos reconhecido o respectivo objeto.
Não obstante esse conhecimento adquirido quanto ao objeto designado pela palavra norito, nossa curiosidade diletante não nos proporciona grau de familiaridade tão elevado quanto o que pode ser alcançado por aqueles que – por exemplo, por razões profissionais – habitualmente se relacionam com os objetos designados por esse signo. E, sobretudo, a descontinuidade da nossa relação com esse objeto possivelmente fará com que se apaguem, da memória prontamente acionável, substantivas parcelas da explicação mais desenvolvida que por pura curiosidade chegáramos a reunir. No futuro, por falta de uso, esse signo en- contrará em nossa mente um interpretante relativamente mais fraco.
Eis então como e porque um signo determinado, mesmo ligado a um único objeto, pode representar diferentemente esse objeto na perspectiva peirceana, em função dos dife- rentes graus de familiaridade que diferentes intérpretes detêm em relação ao objeto, po- dendo até mesmo perder a condição de signo lingüístico, por não ensejar sua vinculação a qualquer objeto. A “familiaridade” e a “explicação prévia” – às quais acrescentamos a ex- periência pessoal favorecedora da apropriação – integram o que, no texto de 1897, Peirce chamou de “idéia” e “fundamento”. E é também porque o intérprete pode possuir mais ou menos familiaridade com o objeto que o interpretante pode ser um signo mais (ou menos) desenvolvido que o representâmen, porque o intérprete pode agregar ao interpretante um cabedal próprio de experiências ricas e incomuns relacionadas ao objeto representado pelo signo.
A familiaridade do intérprete com o objeto – a qual constitui o fundamento, a idéia, o preceito de explicação do signo – desempenha portanto papel importantíssimo na semió- tica de Peirce. Inexistente na lingüística de Saussure, ela “quebra” a rigidez do signo, tor- na-o relativamente maleável. Implícita no “para alguém” da definição de 1897, a familiari- dade pode ser diferenciada – como no exemplo dos dois observadores do mar, no texto de 1910 a que recorremos acima – ou pode ser comum aos indivíduos que se comunicam, como ocorre noutro exemplo, de 1909. Neste, Peirce analisa certas implicações das rela- ções entre os três elementos do signo, distinguindo-os, cada um deles, entre “imediato”, “dinâmico” e “último ou final”: objeto imediato, objeto dinâmico, interpretante dinâmico, interpretante final, etc. A situação é das mais triviais: ele se levantou antes da esposa e esta ao acordar, estando as cortinas ainda fechadas, pergunta-lhe:
– Como é que está o dia, hoje?
Há toda uma série de implicações na pergunta e na resposta, referentes a diferentes níveis de significação e que vão repercutir, por exemplo, na ação dos interlocutores, na
organização que vão imprimir às suas atividades no dia em função do estado do tempo (weather).
“Devemos distinguir entre o Objeto Imediato – i.e., o Objeto como representado no Signo – e [...] o Objeto Dinâmico que, pela natureza das coisas, o Signo não pode exprimir, que ele pode apenas indicar, deixando ao intérprete a tarefa de desco-
bri-lo por experiência colateral. [...]O Interpretante Imediato é aquilo que a per-
gunta expressa, tudo aquilo que ela imediatamente expressa [...]. O Interpretante Dinâmico é o efeito real que ela tem sobre mim, seu intérprete. Mas a Significação dela, ou o Interpretante Último, ou Final é o objetivo de minha mulher ao fazer a pergunta, qual o efeito que a resposta à pergunta terá sobre seus planos para aquele dia. Suponhamos que eu responda: “Está um dia feio”. Aqui está um outro signo. Seu Objeto Imediato é a noção do tempo presente na medida em que isto é comum
à mente dela e à minha – não seu caráter, mas sim sua identidade. O Objeto Di-
nâmico é a identidade das condições meteorológicas Reais ou concretas naquele momento. O Interpretante Imediato é o esquema na imaginação dela, i.e., a vaga Imagem ou aquilo que há de comum nas diferentes Imagens de um dia feio. O In- terpretante Dinâmico é o desapontamento ou qualquer outro efeito concreto que recai sobre ela. O Interpretante Final é a soma das Lições da resposta, da Moral, da Ciência, etc.” 120
Nesse texto tardio, bastante posterior ao momento em que Peirce teria, segundo Marty, adotado o conceito analítico de signo triádico, a importância da experiência e da familiaridade do intérprete com o objeto continua tão central quanto na definição de 1897, e de tal forma que uma parcela da significação não pode ser expressa pelo signo, cabendo ao intérprete preenchê-la mediante mobilização de informações auferidas em “experiência colateral”. Mais: de uma frase interrogativa simples e econômica, um interlocutor deduz a intenção não expressa pelo outro e lhe oferece resposta igualmente concisa, porém consen- tânea com essa dedução e, por isso, útil. O que lhe permite operar tal dedução e confere utilidade à resposta é o conhecimento recíproco dos “esquemas de imaginação” que ambos mobilizam, isto é, o compartilhamento de “experiências colaterais” inscritas em suas subje- tividades, constituindo uma intersubjetividade.
Por vezes, Peirce refere-se a situações em que as “experiências colaterais” não são compartilhadas e que, portanto, dão margem a diferentes “atribuições de valor” no proce- dimento de interpretação. Em 1903, ao comentar o livro de Lady Victoria Welby (1837- 1912), intitulado What is meaning?– Studies in the development of significance, ele adverte que...
“...não é aquilo que se entende por livro científico. Não é um tratado, e está isento de qualquer sombra de pedantismo ou pretensão. Pessoas diferentes atribuir-lhe-ão valores bem diferentes. É um livro feminino, e uma mente demasiado masculina poderá achar que algumas de suas partes são dolorosamente fracas. Recomendarí- amos ao leitor masculino que lesse com atenção os capítulos XXII a XXV antes de ler o todo, pois esses suportam uma segunda leitura”.121
120
Peirce (1909: 168). Grifamos. A idéia de “interpretante último” encontrará certa correspondência nas formulações de Bakhtin e Volochínov, expostas mais adiante.
121
Sem explicitá-la nem, menos ainda, desenvolvê-la, Peirce trabalha aí com a idéia subjacente de posição: homens e mulheres ocupam posições diferentes na sociedade norte- americana de 1900 e interpretam diferentemente os signos, inclusive os que se encontram num livro dedicado exatamente às questões do sentido e da significação. Embora o leitor de hoje, à leitura apenas do excerto aqui transcrito, possa ser induzido a pensar que Peirce sugere alguma “fraqueza” na abordagem do tema por Victoria Welby, não devemos nos enganar. A partir da publicação desse livro e da resenha que Peirce lhe dedicou em The Nation, Lady Welby tornou-se uma de suas principais interlocutoras, sobretudo em ques- tões de semiótica, o que se atesta pela extensa correspondência que trocaram nos oito anos seguintes e pelo grau de complexidade sem concessões que esses textos não raro alcança- vam.122