Contribution by this Work
Article 4: Effect of Automatic Feedback on Large-Scale Simulator Train- Train-ing
Foi Gustavo Lins Ribeiro (2008a), em 1980, que apresentou à comunidade científica um estudo pioneiro da antropologia do desenvolvimento tratando da construção da cidade de Brasília, na segunda metade da década de 1950, a partir das narrativas das dezenas de trabalhadores migrantes e anônimos que construíram a capital federal. Nele transparece o primeiro ensaio da conceituação dos projetos de grande escala (PGEs), rascunhado naquele momento de grandes obras de engenharia civil. A fim de melhor esclarecer o percurso teórico-metodológico do autor, chamo atenção para a seguinte citação:
Neste trabalho estudo a construção de Brasília entendida como a concretização de um grande projeto de construção civil. A reflexão sobre a história desta obra levou a perceber um conjunto de especificidades que se articulavam e apontavam para a existência de uma forma de produção cuja recorrência pode ser verificada em outros locais e momentos. A partir de um caso paradigmático, procuro configurar uma totalidade complexa, dominada basicamente pela tarefa de executar um trabalho de volume excepcional. (RIBEIRO, 2008a, p. 21)
Passados mais de trinta anos, Santos (2013), por sua vez, procurou explicar a relação do Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP) com a emergência étnica Anacé do litoral cearense, problematizando as ações do
movimento indígena e sua influência no interior da grande obra, que consolida o interesse do Governo do Estado do Ceará pelos grandes projetos de desenvolvimento.
Atenção para o fato de os autores supracitados tratarem, respectivamente, de grandes obras de engenharia ditas como concluídas (Brasília foi inaugurada em 21 de abril de 1960) e outra bastante adiantada (o CIPP, quando da apresentação do estudo de Santos [2013], já contava com diversas intervenções de infraestrutura portuária e rodoviária). No caso deste trabalho, o foco é nos discursos, ações, percepções, mobilizações e conflitos que antecedem a construção do grande projeto mínero-industrial de Santa Quitéria. Essa escolha foi pautada por dois motivos: a) o Projeto ainda não tem data para iniciar suas construções fundacionais, o que se tem é uma previsão que muda a cada novo obstáculo que se interpõe para sua execução; segundo, os atrasos durante todo o tempo da pesquisa acabaram por favorecer uma opção metodológica em estudar o momento que antecede a construção de um PGE, especificamente as percepções de desenvolvimento que gravitam em torno dele.
Para tanto, é importante compreender os PGEs a partir de sua forma de operar, a qual engloba as redes organizadas de relações sociais engendradas por eles com sentido próprio e inseridas em um sistema mais amplo articulado em níveis de integração local, regional, nacional, internacional e transnacional; e a magnitude de seus impactos sociais e ambientais. Também se destacam as forças sociais que se constituem antes, durante e depois da execução dos PGEs, permitindo estabelecer interpretações e relações com projetos de grande magnitude que estejam em fase de licenciamento, como é o caso do Projeto Santa Quitéria de mineração.
Embora em fase de licenciamento, há de se observar os discursos e as ações que formatam o referido projeto antecipadamente, caracterizando-o e construindo em torno dele uma correlação de forças entre as lideranças locais, a sociedade civil organizada e a opinião pública.94 Sigaud (1986) observa que a literatura que trata dos efeitos sociais de hidrelétricas indica que os primeiros impactos já começam a afetar a sociedade com o próprio anúncio da obra. Portanto, os efeitos
94 Aqui o termo “opinião pública” é tratado à maneira de Gabriel Tarde (2005), como um conceito psicossociológico. Isso quer dizer que o público em questão não se subdivide em um público político (de esquerda, de direita ou de centro-esquerda) que define as regras jurídicas e molda as instituições políticas, que, por sua vez, formariam uma opinião política dominante; e de outro lado, a massa de consumidores de gostos, ideias, modismos de toda ordem. Ao contrário, o termo “opinião pública” remete a uma opinião partilhada em que elementos da tradição, da política, dos costumes, da razão e também da mídia se conformam conflituosamente em um dado tempo e espaço.
socioambientais dos PGEs antecedem a sua construção, criando um ambiente de insegurança, medo e expectativas nas comunidades e nas famílias diante do vetor de mudanças que representa um grande empreendimento.
Ribeiro (1985; 2008a; 2008b) pensa conceitualmente os projetos de grande escala de desenvolvimento a partir das características comuns que apresentam os projetos de infraestrutura que estão na base da construção de cidades planejadas, da construção de hidrelétricas, de complexos siderúrgicos e portuários, de canais hídricos95 e grandes linhas ferroviárias que albergam a ideia nada ingênua de serem
promotores da “modernidade” mediante o desenvolvimento econômico e social. Aliado
ao interesse pelos efeitos sociais e impactos que tais projetos provocam ao ambiente e à população, Ribeiro (1991) também procura entendê-los de perto e de dentro.
Essa sua investida permite ampliar a caracterização dos PGEs, abrindo caminhos para pensá-los para além de sua apressada identificação com os efeitos provocados pela construção de barragens e usinas hidrelétricas, constituindo um instrumento metodológico importante para investigar a caracterização das causas e dos efeitos dos projetos de mineração encampados pelo Estado brasileiro e executados por empresas transnacionais e consórcios na Amazônia e no Nordeste do Brasil.
Ribeiro afirma (1985) que os projetos de grande escala possuem três dimensões sistêmicas que lhe são muito peculiares: são (1) grandiosos, por isso altamente impactantes do meio ambiente e agentes de mudanças sociais, encontram- se (2) isolados e são (3) temporários. A grandiosidade dos PGEs é observada, sobretudo em um primeiro momento, pela estrutura física imponente que se ergue com os esforços de trabalhadores em uma paisagem marcada por uma intervenção humana que minimiza seus impactos a partir da relação menos poluente e degradante com os bens naturais. Eles alteram a paisagem e o espaço socioambiental de comunidades indígenas, ribeirinhos e pequenos agricultores.
Contudo, esses projetos são grandes por demandarem principalmente grandes movimentos de capital e de trabalhadores, planejados pelos grupos econômicos que legitimam seus interesses pelo compromisso de gerar numerosas oportunidades de emprego direto e indiretos, tirando uma região ou um país do atraso
95 Quando aluno de doutorado no Programa de Antropologia da City University of New York, Ribeiro fez dois trabalhos finais de curso sobre a construção do Canal de Suez, no Egito (1854 – 1864), e do Canal do Panamá (1904-1914). (RIBEIRO, 2008).
econômico. É o que Ribeiro (1985) denomina ideologia da redenção, a qual é acionada, guardadas as particularidades históricas em que cada projeto se insere, todos os PGEs:
A idelogía de la redención cuya matriz principal es la ideología del progresso, que muchas vezes toma la forma del desarrollismo, es decir, la suposición de que los proyectos de gran escala son positivos porque desarrollarán uma región, suministrando bienestar a todo el mundo. Los elementos condensados en esta actitud ideológica varían según la naturaliza de la obra, su importancia para la región o el país, y las particularidades históricas y culturales del medio en el que se levantará. Una historia regional o nacional es la fuente favorita de acontecimientos que se reordenan de tal manera que la construcción del proyecto resulta natural; lo que debe hacerse parece la mera obediência a uma tendencia histórica. El regionalismo o el nacionalismo son, así, um útil componente de esta ideología redentora. (RIBEIRO, 1985, p. 33)
Acrescentaria que essa ideologia também serve para amenizar os impactos dos grandes projetos econômicos, os quais podem ser mitigados levando-se em conta os supostos benefícios que trariam para uma dada região ou país.
6.2 A redenção do semiárido pelo crescimento econômico: os discursos dos