3. ANTECEDENTES
3.5 DIGESTIÓN ANAEROBIA
3.5.2 LAS CARACTERISTICAS A TENER EN CUENTA EN UN RESIDUO O MEZCLA DE
O teor do projeto e a observação das aulas nos mostram que a professora Sofia procura fazer circular diferentes discursos do campo linguístico na produção de sua aula, os quais nem sempre são intercambiáveis. Consideramos que suas escolhas quanto aos materiais de ensino selecionados pode nos dar pistas de como se constitui o funcionamento discursivo de sua aula. Nessa perspectiva, a análise partiu das seguintes questões: I) o que leva a
professora a escolher um determinado texto e não outro?; e II) que discursos são
privilegiadas pela professora na produção da aula? Consideramos que as respostas para esses questionamentos podem nos revelar alguns traços da constituição da autoria assumida pela professora Sofia, uma vez que, ao se dispor a escolher os textos a serem adotados na aula, ela assume a responsabilidade por lê-los, interpretá-los e encontrar neles algo que julga pertinente para alcançar seus objetivos; todavia, tais escolhas não são livres, mas obedecem à sua própria competência discursiva.
Sendo assim, iniciamos nossa análise observando como se realiza o encadeamento dos textos mobilizados nos materiais de ensino a partir de algumas regularidades neles inscritas, como ilustramos na Figura 1, a seguir:
Mapa dos idiomas mais falados na atualidade As Caridades odiosas Auto-retrato falado Bicho de palha Senhora Holle A moça do táxi
Retrato de uma Amazônida Eu sou Clara
Retrato do jabuti O jabuti no céu O jabuti de asas
Por que a tartaruga não tem pelos
Figura 1– Encadeamento dos textos mobilizados nos materiais de ensino.
Fonte: Elaborada a partir de dados produzidos na pesquisa de campo realizada pela autora, 2013.
Como podemos observar nos dados descritos na Figura 1, os textos mobilizados nas aulas, em sua maioria, caracterizam-se como narrativos – dos 12 textos, apenas 3 não o são:
Mapa dos idiomas mais falados na atualidade (cartografia), Auto-retrato falado (poema) e
Retrato do jabuti (expositivo) – e versam, no mínimo, sobre uma das temáticas seguintes:
interculturalidade, identidade e intertextualidade; à exceção do texto As Caridades odiosas. Essas escolhas indicam que as aulas promovem a efetivação do projeto que as orienta, na medida em que o projeto focaliza o discurso narrativo (como especifica seu título) e elenca como eixos principais Bivalência, interculturalidade e contos africanos (ocupando a interculturalidade lugar de destaque) (ver seção 4.1), e os textos dos materiais de ensino abordam as temáticas supracitadas, sendo a identidade e a intertextualidade um desdobramento da interculturalidade, além de privilegiarem textos narrativos, entre os quais se destacam os contos africanos.
Assim, por exemplo, a professora trabalhou com um conjunto de textos “de apresentação” (Retrato de uma Amazônida, Retrato do jabuti, Auto-retrato falado, Eu sou
Clara), que estão relacionados a uma temática da “identidade”, mas também da
Identidade TEXTO
NARRATIVO
Interculturalidade
“interculturalidade” – isso leva a professora a redigir o texto Retrato de uma Amazônida, em que fala de si mesma, mas também a selecionar o texto Retrato do Jabuti, que se relaciona com um conjunto de textos que versam sobre jabuti ou tartaruga: O jabuti no céu, O jabuti de
asas e Por que a tartaruga não tem pelos, os quais trazem versões de povos diferentes para explicar a aparência do jabuti e da tartaruga.
Embora não saibamos exatamente qual foi o processo de escolha desses textos (podemos imaginar que ao menos parte deles já venha sendo usado desde anos anteriores), duas coisas são notáveis nessa observação do conjunto: a) eles provêm de fontes variadas, o que sugere que a escolha não é determinada apenas pela disponibilidade ou facilidade de acesso; e b) eles formam um conjunto no qual é possível discernir alguns critérios de pertencimento, com algumas exceções que comentaremos a seguir.
Chamamos atenção para alguns pontos que merecem destaque nos dados apresentados na Figura 1. O primeiro corresponde ao fato de o texto As Caridades odiosas ser o único a não se relacionar com o conjunto de temáticas sobre as quais versam os textos adotados. Isso ocorreu porque a seleção desse texto foi feita pela estagiária, o que provocou uma ruptura na lógica do encadeamento (busca de relações temáticas) dos textos selecionados pela professora Sofia. Destacamos que a aula seguinte, também ministrada pela professora estagiária, contou com um texto selecionado pela professora Sofia, Senhora Holle (um conto dos Irmãos Grimm, que apresenta uma versão de “A Gata Borralheira”). É possível notarmos que a adoção desse texto retomou a articulação com as temáticas inscritas nas aulas. Na aula posterior, a professora estagiária selecionou e adotou como texto Bicho de Palha (uma versão de A Gata Borralheira contada por Câmara Cascudo), o que indica ter compreendido a constituição do conjunto de aulas produzidas pela professora Sofia, já que, à semelhança do que esta fazia, promoveu o diálogo entre esse texto e Senhora Holle, demonstrando, com isso, que reconheceu o encadeamento nos textos selecionados pela professora Sofia.
Assim, constatamos que a professora Sofia não seleciona textos que não se articulem às temáticas antes elencadas, e eles, por sua vez, formam um conjunto textual com características próprias que relacionam suas aulas entre si, tornando-as interpretáveis. Esse encadeamento textual produz um movimento discursivo, em que há um espaço de trocas onde circulam discursos relacionados às temáticas abordadas, cada texto inscrevendo em sua materialidade discursos que versam, no mínimo, sobre um daqueles temas.
O segundo ponto que desejamos frisar diz respeito a dois textos que possuem pequena articulação com o conjunto: Mapa dos idiomas mais falados na atualidade (que não se caracteriza como narrativo) e A moça do táxi (que se relaciona apenas com a temática da
interculturalidade). Este último também foi selecionado por uma professora substituta, que é graduanda em Letras e integra a equipe que desenvolve o projeto coordenado pela professora Sofia; enquanto aquele foi selecionado pela própria professora Sofia. Isso nos leva a entrever que textos que possuem menor articulação com as temáticas privilegiadas nos materiais de ensino são escolhidos por motivos outros que não o de se articular ao conjunto textual que se constitui como cerne da proposta de ensino da professora Sofia. Por exemplo, quanto ao texto
A moça do táxi, isso ocorre porque a professora substituta, embora integre sua equipe, provavelmente não conhece as estratégias mobilizadas pela professora Sofia na efetivação do projeto; já no caso do texto Mapa dos idiomas mais falados na atualidade, isso se deve ao fato de a professora Sofia ter outros motivos para selecionar um texto que não apenas articulá- lo às temáticas previstas no projeto. Nesse caso, o texto foi introduzido para o ensino gramatical dos adjetivos pátrios; todavia, ainda, assim, construiu uma associação, mesmo pequena, com eixos temáticos (identidade e interculturalidade) que estruturam suas aulas. Destacamos que o fato de esses textos poderem ser percebidos como “excepcionais” reforça nossa percepção de que a seleção é, na maior parte dos casos, orientada por critérios coerentes.