Para responder à nossa segunda questão tivemos que buscar, além dos referenciais bibliográficos, elementos empíricos que nos possibilitaram a elaboração de categorias de análise para que pudéssemos olhar para as reuniões e procurar por evidências que nos permitiriam responder aquela questão.
Após a análise dos dados podemos realizar a discussão de alguns pontos que emergiram durante o trabalho.
5.3.1. Sobre o que os professores falam nas reuniões
Após a análise dos episódios e a classificação de cada turno a partir das categorias elaboradas por nós, lembrando que tais categorias foram pensadas a partir de algumas ideias que encontramos dentro dos pressupostos teóricos do EI e do nosso olhar prévio para os dados coletados, pudemos realizar um pequeno estudo relacionado à distribuição de frequência com que cada uma delas apareceu durante as reuniões. Nossa intenção com isto é de elucidar quais as ideias que os professores empregam durante o planejamento da aplicação das atividades de uma SEI.
Para tal, realizamos a contagem da frequência do aparecimento de cada categoria em cada turno analisado, isto nos possibilitou enxergar nas reuniões, as ideias que mais foram discutidas. A seguir são apresentados os resultados para as
126 três reuniões, bem como o resultado total, que seria a soma das frequências de surgimento de cada categoria ao final todas as reuniões.
Reunião 1 Reunião 4 Reunião 8 Todas as reuniões I.1 - Ideias sobre o planejamento didático 28% 24% 8% 19%
I.2 - Ideias sobre o planejamento
metodológico 12% 33% 8% 15%
I.3 - Ideias Organizacionais 57% 4% 18% 30% I.4 - Atenção à construção do
conhecimento pelo aluno 0% 2% 1% 1%
I.5 - Ideias para o replanejamento e
avaliação das atividades aplicadas 0% 9% 51% 22% I.6 - Relatos ou observações a partir da
experiência docente 3% 27% 15% 13%
Quadro 14 - Frequência do surgimento das categorias durante as reuniões.
Quando olhamos para a distribuição de frequência percebemos que (I.1) - Ideias sobre o planejamento didático aparecem em 19% dos turnos de discussão. Esta nos parece uma quantidade razoável e talvez possa ser explicada pelo fato de que tal categoria seja válida também para metodologias diferentes do EI. Podemos ver também que esta categoria aparece com maior frequência nas reuniões 1 e 4, o que é esperado, visto que nelas os professores planejam a implementação das atividades da SEI. Já na reunião 8, na qual fazem à avaliação da proposta, tal categoria não surge tanto.
Se analisarmos criticamente, as três subcategorias de (I.1) - Ideias sobre o planejamento didático podem ser relacionadas a qualquer atividade que se tenha a intenção de aplicar em sala de aula. Assim, o fato dos professores já estarem habituados a pensar em tais elementos ao planejar uma aula, possa ter colaborado para o surgimento de (I.1) - Ideias sobre o planejamento didático, ao longo das reuniões.
A frequência com que os professores discutem sobre a metodologia (I.2-
Ideias sobre o planejamento metodológico) está em torno de 15% de total
analisado. Apesar de esta aparecer na reunião 4 com uma frequência mais alta, na reunião 1, na qual foi apresentada aos professores a metodologia do EI e as atividades da SEI, esperava-se que a discussão girasse mais em torno das
127 características metodológicas deste tipo de ensino. Não foi o que ocorreu. Se levarmos em conta, como foi dito pelos próprios professores durante a última reunião, que tal implementação exige do docente uma mudança de atitude em relação às aulas tradicionais, o fato do formador Paulo não ter priorizado discussões metodológicas com os professores, pode ter influenciado o resultado da aplicação da SEI, atribuindo a ela características associadas ao ensino tradicional, por exemplo, a exposição de conceitos pelo professor. Se tal influência realmente ocorreu, ela é perfeitamente justificada se tomarmos como base o que diz Carvalho e Gil (2011) sobre a impregnação do chamado “ensino tradicional” na prática do professor, para os autores o intenso convívio com as práticas desta metodologia ao longo dos anos de seu desenvolvimento pessoal e profissional, implica em uma profunda formação ambiental, na qual o professor acaba aceitando tais práticas sem analisá-las criticamente. Ainda para Carvalho e Gil (2011), a mudança de paradigma do ensino tradicional para o EI só pode ser obtida a partir do momento em que o professor comece a vivenciar a nova prática.
Ao analisarmos a tabela percebemos que os professores passam aproximadamente um terço do tempo das reuniões discutindo (I.3) ideias
organizacionais, que estão intrinsecamente ligadas ao material didático e ao tempo
necessário para a aplicação das atividades. Chamamos a atenção para isto, pois acreditamos que durante a implementação de uma sequência de ensino com caráter inovador, como foi a deste trabalho, as discussões deveriam se concentrar em aspectos metodológicos do EI, mas não foi o que ocorreu. Na primeira reunião os participantes discutiram prioritariamente questões organizacionais (57%). Talvez isto também esteja relacionado ao fato de o professor ainda estar imerso no paradigma do ensino tradicional e, por mais que procure ser mais ‘investigativo’, no sentido de estar aberto à nova metodologia, traz como referência uma vivência permeada por práticas tradicionais como já descrito anteriormente. O fato desta categoria também aparecer expressivamente na reunião 8 (18%), pode reforçar o fato da excessiva preocupação dos professores com as questões organizacionais.
Outra ideia que quase não apareceu foi a (I.4) Atenção à construção do
conhecimento pelo aluno, com apenas 1% de frequência. Apesar do resultado
128 análise, esta, especificamente, seria uma medida indireta da construção de conhecimento pelo aluno, isto significa que não olhamos para a sala de aula para verificar em quais momentos os alunos construíam conhecimento, mas extraímos das falas dos professores durante as reuniões situações que eles descreviam sobre seus alunos construindo conhecimento, daí a observação indireta. Além disto, o fato da excessiva preocupação com aspectos organizacionais e práticos da implementação da SEI, pode ter reduzido as oportunidades para discussões relacionadas à construção de conhecimento dos alunos.
Como já era esperado as (I.5) Ideias para o replanejamento e avaliação
das atividades aplicadas, que tratam da avaliação sobre os resultados da
aplicação da SEI e da prática docente, aparecem em maior frequência na última reunião, 51%, pois é neste momento que os professores se reúnem para discutir todo o trabalho de implementação da SEI. Geralmente as colocações feitas pelos professores e que foram enquadradas nesta categoria vinham acompanhadas de sugestões para alterações tanto nas atividades, quanto nos planejamentos de tempo para aplicação.
A última categoria, (I.6) Relatos ou observações a partir da experiência
docente, que aparece em todas reuniões, buscou elucidar o aspecto crítico
(intelectual) da profissão docente. Foi ela que nos permitiu distinguir que o processo de formação de professores para uma atividade inovadora é dialógico, pois os docentes, mesmo quando estão aprendendo algo novo, são capazes de contribuir significativamente com o processo. Através de (I.6) ficou bem claro que o que ocorria durante a reunião não era uma formação puramente técnica, na qual o professor estava ali para somente aprender a metodologia, mas sim uma formação extremamente reflexiva, na qual em diversos momentos os docentes traziam elementos importantes para o processo de formação. Podemos perceber isto nas reuniões 4 e 8, nas quais tais relatos aparecem em quantidades significativas, sendo 27% e 15%, respectivamente, a frequência de surgimento da categoria.
129
5.3.2. Reunião de Formação?
Desde o início do trabalho chamamos a reunião com os professores de “reunião de formação”, pois durante todo o processo de planejamento de pesquisa, gravação dos encontros e escrita deste trabalho, acreditávamos estar realizando este tipo de tarefa. Isto porque o grupo de pesquisa do LaPEF já havia trabalhado a SEI anteriormente, Paulo, que foi um dos professores responsáveis pela confecção e adaptação das atividades, foi também aplicador da sequência de ensino antes desta pesquisa se iniciar, ou seja, tínhamos know how para trabalhar com este tipo de formação. Porém, após a análise dos dados deste trabalho, parece-nos que a prática docente destes professores pouco mudou. A análise dos dados parece sugerir que apesar da boa vontade e aceitação dos professores em participar da implementação de uma sequência de ensino utilizando uma metodologia inovadora, como no caso desta SEI, as ideias discutidas nas reuniões e que podem ser vinculadas ao ensino tradicional, como já tratado anteriormente, apareceram em demasia. Isto nos mostra que a formação dada aos docentes apresentou falhas em alguns momentos, como por exemplo, em não insistir mais em discussões metodológicas e isto, de fato, pode ter interferido na aplicação das atividades. Isto nos remete a ideia sobre a necessidade de repensar o formato da reunião com os professores para que ela realmente se torne uma reunião de formação.
Nossa proposta é que nas futuras reuniões, além das discussões metodológicas e sobre as atividades, seja apresentado aos professores os resultados mais relevantes já obtidos pelo grupo de pesquisa do LaPEF e outros grupos ao longo do tempo. Muitas das pesquisas realizadas trazem resultados interessantes que seriam muito úteis, se implementados em sala de aula. A ideia é que se organize a formação dos professores e se utilize destes trabalhos para que a mudança de paradigma, do ensino tradicional para o EI, de fato ocorra com os decentes.
130