Chapter II. Literature Review
B. Textbooks
2.3 Education and Reconciliation
A etimologia do conceito de arquitectura leva-nos para contextos de mestria, e do artífice ou artesão, transportando-nos para o ofício de trabalhar a pedra. Constata-se que a pedra é, através da arquitectura, a matéria que faz o abrigo do homem e dos seus ideais, mas, nem só a pedra se extrai da definição de arquitectura, e também a arte sempre foi inerente a este conceito. Alguns autores (Hegel, Heidegger, Valéry) consideram a arquitectura “a mais completa das formas de arte (…) pelo modo como corresponde aos valores ontológicos e existenciais presentes na Humanidade” (Rodrigues, 1990: 43).
A cidade, como vimos anteriormente, esconde na sua génese uma razão que influi directamente na sua construção. Um rio, uma mina, uma necessidade de desenvolver uma determinada indústria, ou mesmo uma questão geoestratégica, são normalmente as razões que podem desencadear o processo que dá origem a uma cidade. E uma vez desencadeado o processo, torna-se necessária a adopção de uma ferramenta que planifique e que dê corpo à cidade. A arquitectura tem que prestar esse auxílio, e embora não seja a única arte que preside à construção da cidade, o seu conceito tem que ser equacionado na construção dos edifícios, das ruas, dos espaços e dos vazios de uma cidade.
A arquitectura desempenha um papel preponderante na afirmação de um centro urbano, através da sua dimensão material, mas também por uma dimensão imaterial que ela empresta à própria cidade e aos que a habitam. Se no capítulo anterior houve a preocupação de realçar essa dimensão espiritual ou ideológica da cidade, há que referir que a arquitectura muito contribui para que essa situação se verifique. O carácter utópico que muitas vezes conota os projectos arquitectónicos é obviamente um bom exemplo. Outra característica que influi prende-se com a forte intenção ideológica e politica que está por trás de quem projecta os edifícios. Existem obras arquitectónicas que revelam muito acentuadamente a sua finalidade ideológica ou política. Os longos arranha-céus americanos, o carácter imponente dos castelos e dos palácios, a solenidade
das casas que albergam os órgãos administrativos de uma cidade-capital, enfim quase todos os edifícios querem fazer passar uma mensagem, uma posição de quem os fez ou de quem os mandou fazer. Ainda neste contexto, convém abordar a forte relação que existe entre a arquitectura de uma cidade e as idiossincrasias da sua sociedade. A este propósito temos que referir o estudo de Simões Ferreira em que se descreve esta relação, e segundo o autor, já no século XV, o romano Alberti chamava “a atenção para a necessidade da arquitectura, a arte que mais contribuía para fazer a vida feliz, chegando a ver nela a origem da sociedade” (Ferreira, 2006: 92).
Além da possibilidade da arquitectura estar na origem da sociedade, existe um aspecto que é, por certo, menos discutível, e que tem a ver com a propensão que o trabalho arquitectónico evidencia no facto de ter como objectivo alcançar a felicidade das sociedades. Se o objectivo primário da arquitectura sempre foi erguer edifícios, as obras de Alberti e, até mesmo, de Vitrúvio mostram que a felicidade é o principal objectivo da arquitectura.
A utopia, por razões já explicitadas, torna-se um dos principais pólos desta demanda de felicidade. E, como vimos, a utopia revela-se principalmente pelo seu carácter literário. Contudo, é justo dizer que ainda na utopia de Moore a arquitectura de uma cidade era algo considerado pelo autor. Thomas Moore, ao descrever a aventura de Rafael Hitlodeu, manifesta não só a intenção de construir uma cidade segundo aquela estrutura, mas também acredita profundamente que aqueles valores éticos ou políticos podem servir de base a uma sociedade real. Apesar de este ponto ter ficado de fora da reflexão (no capitulo anterior), não se poderia ir mais além no pensamento da arquitectura utópica sem se considerar esta articulação.
A forte ligação que a arquitectura tem com a utopia não se deve à possibilidade que uma tem de dar substância à outra, mas sim ao facto de a arquitectura poder conferir a um espaço uma certa impressão de utopia. A arquitectura torna-se em certa medida a utopia do espaço vazio. O espaço vazio pode ser aquele que está por preencher, o que está entre edifícios, ou ainda espaço roubado à natureza para construção. Aliás a arquitectura, sobretudo em contexto citadino, torna-se numa espécie de figura de estilo, que incarna o domínio do homem sobre as forças da natureza (Eaton, 2000: 126).
A arquitectura utópica entende-se como uma pretensão de construir algo sobre o nada, mas também sobre o que deixou de ser alguma coisa. A diferença entre o simples acto de construir e a projecção de querer construir algo é o que explica a utopia. Assim, ficamos perante uma questão que teimosamente continua a surgir neste trabalho, e que
diz respeito à relação que existe entre utopia e realidade. E, desta vez, a melhor forma de responder a esta questão é observando as palavras de Lewis Mumford:
Às utopias que correspondem a estas duas funções chamarei utopias de escape e utopias de reconstrução. A primeira deixa o mundo exterior tal como ele é; a segunda procura transformá-lo de modo a que possamos interagir com ele nos nossos próprios termos. Num, construímos impossíveis castelos no ar; no outro, consultamos um fiscal, um arquitecto e um pedreiro e lançamo-nos na construção de uma casa que satisfaça as nossas necessidades essenciais – tanto quanto isso estiver ao alcance de casas de pedra e cimento. (Mumford, 2007: 23)
Antes de observarmos alguns exemplos mais concretos de como a arquitectura pode alimentar o sonho de uma sociedade feliz, importa considerar a questão da estética versus funcionalidade, que muitas vezes se atravessa no caminho do arquitecto utópico. Talvez não seja propriamente um dilema, porque não implica uma escolha, ou uma opção que possa ser tomada por quem constrói, visto que a utopia acarreta consigo uma intenção que é imposta ao objecto (alvo dessa mesma utopia). E o que nos ocorre pensar aqui é de que forma é que essa intenção influi na estética ou na funcionalidade da obra. Os modelos que vamos observar a seguir mostram-nos que essa questão quase não se coloca, pois a arquitectura utópica relega para um plano secundário estas preocupações, preferindo colocar tudo ao serviço do sonho e da felicidade humana, e não importa se é possível ou não a realização do projecto.