De modo amplo, a partir de uma abordagem das formações econômico-sociais das regiões Norte e Sudeste do Brasil, quatro pontos essenciais foram discutidos, para que se identificassem similitudes e diferenças entre as atividades no desenvolvimento do extrativismo gomífero e da cafeicultura. Dentro dessas, (1) os paradigmas correspondentes para lidar com a base de recursos naturais em cada região: de um lado extrativismo e de outro a agricultura; (2) o tipo de mão de obra que objetivou as produções dos referidos e requeridos “produtos-rei” em cada fronteira; (3) as soluções para o transporte: para as estradas de água, que levavam às estradas de seringa, serviu a navegação a vapor, ao tempo que as estradas de ferro passaram a cruzar as zonas cafeeiras; (4) no que se refere ao sistema de financiamento, ou à forma de penetração do capital, a estrutura que possibilitava a conexão das zonas interioranas da floresta amazônica com os centros da economia mundial se ergueu sobre o aviamento, enquanto que os núcleos dos sertões da floresta atlântica com aquela economia se conectavam por meio do comissariado. Eis as comparações e considerações para cada um desses pontos.
A) Os paradigmas correspondentes para lidar com a base de recursos naturais em
cada região
Apesar de na Amazônia terem sido levadas a cabo experiências de exploração agrícola com resultados positivos, o extrativismo foi a principal atividade que fundamentou seu ingresso no mundo capitalista. Aquelas experiências de exploração agrícola deram origem a uma classe política que passou a rivalizar e a reclamar dos efeitos supostamente fugazes e deletérios que a concentração econômica provocada pela atividade gomífera traria à economia regional. Contudo, era mesmo a atividade extrativa que proporcionava ganhos à fazenda pública e acumulação de riquezas privadas aos agentes do comércio local e internacional.
Ao resumir “testemunhos clássicos de espoliação”, Santos (1980, p. 163-169) utilizou palavras dos presidentes provinciais que, retratando as condições subumanas de exploração dos trabalhadores nos seringais, não escondem as indignações contra uma “indústria [...] que absorve e aniquila todas as demais” (PARÁ, 1854, p. 40). Na continuação dessa fala, Sebastião do Rego Barros, então presidente da província paraense, avalia que o extrativismo não criaria mecanismos favoráveis ao estabelecimento da pequena propriedade, pois os trabalhadores abandonavam tudo, “seus lares, seus pequenos estabellecimentos, e talvez suas
familias, para se entregarem á uma vida de incerteza, privações, e na qual os ganhos da
vespera evaporão-se no dia seguinte”. Reclamava ainda que a maior parte da riqueza
produzida por aquela atividade ficava acumulada em mãos de estrangeiros.
De todo modo, a borracha era a principal fonte de riqueza privada e arrecadação pública. Esse fenômeno expôs uma contradição da classe política regional. Weinstein (1993) anotou que no nível local, exercer uma função pública era oportunidade para adquirir controle sobre extensões de terras ricas em seringueiras. Assim se revelavam possibilidades para um jogo clientelista, no qual favores políticos e emprego de força física garantiam um padrão de acumulação baseado na exploração extrativista. Reclamava-se da atividade extrativista em detrimento da agricultura, mas as críticas não se traduziam em ações concretas para alterar tal situação. Na iminência da crise da borracha, o Congresso Commercial, Industrial e Agrícola de Manaus, ocorrido entre os dias 22 e 27 de fevereiro de 1910, debateu a grave situação que se desenhava à borracha extrativa com a concorrência das plantações de borracha na Ásia. Mas entre as soluções aventadas, houve os partidários da ampliação da navegação para que se pudesse atingir novas áreas onde se explorariam seringais ainda virgens, embora a maior parte dos congressistas acreditasse que era o momento de adotar um paradigma agrícola para renovar os seringais e cultivar a Hevea brasilienses.
O Sudeste, por seu turno, em que pese as experiências iniciais de exploração direta de recursos naturais, foi fundado com base na agricultura. Esse paradigma formou uma classe política que buscou reforçar a trajetória da lavoura, então polo fundamental de acumulação de capital naquela fronteira. Até que alternativas urbanas para investimentos emergissem, onde se aplicou uma fração do capital acumulado nas lavouras, e mesmo após a reunião do grande capital cafeeiro, a classe política de São Paulo, longe de apresentar coesão interna (SAES, 1986; PERISSINOTO, 1993a; 1993b), logrou manter dinâmica a lavoura, pois em última instância, era ali que iniciava o circuito de acumulação de capital.
Esses dois fundamentos foram determinantes na trajetória que seguiram as duas economias. A classe política amazônica, que não cessou de reclamar dos supostos efeitos
contraditórios que a atividade extrativista provocaria na economia regional, foi formada a partir da tradição agrícola dos tempos coloniais, enquanto que a elite comercial, que não cessou de se aventurar vale adentro em busca de produtos extrativos, não foi capaz de formar sólidas bases e quadros que dessem o suporte político necessário a um projeto extrativista, não obstante a atividade ser a principal fonte de renda interna na região. E mais, mesmo a classe política, crítica da economia da borracha, dela se aproveitou sobremaneira para ver aumentada suas bases de poder local. Já a classe política do Sudeste brasileiro, mesclada de elementos escravistas e libertários, teve, desde as raízes, formação vinculada a um projeto agrário. A elite reunida sob o signo do grande capital cafeeiro, embora não mais desempenhando primordialmente funções agrícolas, de onde havia acumulado capital, teria suas bases de reprodução solidamente ampliadas com a permanência das soluções ao paradigma agrícola. Assim, pode coligar interesses aparentemente contraditórios, posto que reunida nos centros urbanos e investindo capital na sua modernização, necessitava da riqueza produzida pela agricultura. Mesmo que a classe dominante na cafeicultura e os blocos no poder não mostrassem unidade, como bem evidenciou Perissinotto (1993b), os interesses hegemônicos, que excluíram grupos de interesse dos centros de tomada de decisão lograram manter pujante a trajetória de desenvolvimento assentada sobre o paradigma agrícola. Não se quer dizer, entretanto, que o paradigma extrativista seja o problema da trajetória de desenvolvimento da fronteira amazônica. Por outro lado, há que se notar que as soluções selecionadas para lidar com as questões inerentes àquele paradigma, que apelaram para um projeto agrícola, foram insuficientes para reverter o curso deficitário da economia regional, assentada sobre uma base extrativista.
B) A mão de obra
Apesar de, no plano geral, terem contado com a contribuição de elementos equivalentes, pois às duas regiões concorreram os fluxos de africanos escravizados, europeus, americanos, asiáticos e nordestinos, tendo mesmo alguma convergência as marcas deixadas pelos respectivos elementos, estas se apresentaram mais diferenciadas do que semelhantes.
Se na transição do trabalho escravo ao trabalho livre os imigrantes estrangeiros vieram dar suporte ao desenvolvimento agrícola nas duas fronteiras, na Amazônia preferiram os centros urbanos e em relação ao total da população não passaram de pequenos respingos nas contagens. A atividade econômica principal era o extrativismo e foi para os espaços por ele abertos que os nordestinos foram atraídos.
Há que se considerar, de acordo com Weinstein (1993), que o sistema político centralizador do império acabou por determinar seu apoio ao assentamento de imigrantes nas lavouras e outros projetos econômicos ao Sul do Brasil. Desde meados do século XIX até a virada republicana, a borracha contribuiu, em média, com apenas 5% das exportações nacionais. Tal fato acabou refletindo nas considerações do poder central para determinar os focos preferências de seus investimentos. Só após a virada republicana, a nova organização política da nação, menos centralizadora, deu aos estados membros da federação maior autonomia para negociar com recursos provenientes das receitas da produção local. Foi então que iniciaram alguns arremedos de colonização subvencionada na Amazônia. Todavia, apesar de notáveis contribuições nos domínios econômico e cultural, as marcas da imigração estrangeira não passaram que pequenos pontos diante da massa de trabalhadores nacionais que se dirigiu à região.
No Sudeste, ao contrário, a principal atividade econômica era a agricultura. O café, especificamente, tornou-se produto hegemônico desde a década de 1830, sem concorrente que ameaçasse sua posição. Desde então, era responsável por mais da metade daquelas exportações nacionais. Se aquela fronteira não deixou de receber migrantes nordestinos, teve o grosso dos postos de trabalho abertos ocupado por imigrantes estrangeiros na transição do trabalho escravo ao trabalho livre e principalmente depois do dispositivo que buscou dar liberdade aos trabalhadores escravizados. Antes mesmo de sua promulgação, tanto o governo central quanto cafeicultores passaram a experimentar a colocação de trabalhadores europeus nas fazendas de café. Após a virada republicana, a renda pública que se avultava com a produção de café em São Paulo, aliada às iniciativas particulares, deram suporte à ampliação de um amplo programa de colocação de trabalhadores nas fazendas de café, que contava desde hospedarias para a recepção dos imigrantes até mesmo as ferrovias que os lavavam aos polos produtivos. Iniciativas particulares semelhantes conduziram nordestinos aos seringais. Contudo, assemelhavam-se muito mais a uma espécie de corrente de tráfico humano – como a que trouxe africanos ao Brasil –, que consumia pessoas em detrimento da produção extrativista, não se transformaram num sistemático programa investimentos para o desenvolvimento econômico regional.
C) As soluções para o transporte
É redundante afirmar que na maior bacia hidrográfica do planeta os rios fizeram as vezes das estradas. As soluções eficientes para o transporte de mercadorias e pessoas apelavam, prioritariamente, pelo vapor. Não que não houvesse possibilidades de construção
de estradas de ferro, pois durante o período que ocupa este estudo foram construídas três, uma delas, a Madeira-Mamoré, foi projetada com a primordial intenção de facilitar o transporte de drogas do sertão, depois construída para escoar borracha. Mas foi mesmo o barco a vapor a principal inovação no sistema de transportes. Quando as ferrovias construídas com vistas a dar maior vazão aos produtos do interior ao porto situado em Belém foram concluídas, a economia da borracha já havia iniciado sua longa e profunda crise.
O Sudeste, apesar de drenado por inúmeros rios, tendo também no vapor uma parte relevante do seu sistema de transportes, assistiu seu desenvolvimento econômico florescer a sobressaltos pelos caminhos das estradas de ferro, posto que boa parte dos rios que drenavam aquela região corria “para dentro”, tornando difícil o escoamento da produção por vias fluviais. O “surto ferroviário” foi acompanhado de um “surto demográfico” e esses dois fatores se conjugaram com a uberdade dos afamados solos de terra roxa, patenteando, no interior, as ferrovias, o elemento de modernidade característico das economias centrais.
D) Os sistemas de financiamento
A história reconhece o aviamento, uma modalidade de crédito simultaneamente para produção e consumo, como o mecanismo característico de financiamento da produção extrativista, enquanto que o comissariado é o signo que caracteriza a forma peculiar de financiamento da produção agrícola, especialmente da cafeicultura.
Nestes sistemas, o período inicial de acumulação contou com fontes internacionais de financiamento. Aqueles que contavam com acesso privilegiado a essas fontes, distribuíam os recursos ali captados através de um sistema de empréstimos pessoais, que aumentava, ainda mais, as possibilidades de acumulação, dada a insegurança institucional que implicava na extorsão de elevadas taxas de juros.
Apesar de uma massa razoável de capital ter sido acumulada ao longo dos primeiros 3/4 do século XIX, quando o capital internacional se colocou como a principal fonte para dinamizar aqueles centros, na sua quadra final, os capitais acumulados foram negociados de forma mais segura no mercado de crédito, pois capitais antes imobilizados em força de trabalho puderam ser redirecionados, além do que se contava com bases institucionais mais seguras para o cumprimento obrigatório dos contratos.
Uma parte da poupança interna, formada a partir da acumulação realizada em períodos pretéritos, foi negociada num mercado que se constituiu na base da oferta de crédito privado e pessoal, em que pese as diferenças específicas de cada uma das praças da borracha e do café.