5. ANALYSE AV LEDENDE EGENSKAPER
5.1 L EDENDE EGENSKAPER HOS TIDSSERIENE
A natureza, como nos outros romances indianistas de Alencar, é descrita em
Ubirajara para mostrar a beleza das espécies (fauna e flora) e paisagens existentes no
Brasil, mas principalmente como elemento que reforça os atributos guerreiros do homem primitivo, revelando-o como o senhor da natureza. A similitude com os seres da natureza é o recurso utilizado pelo autor para caracterizar o índio.
Seu braço é como o corisco do céu; e a sua força como a tempestade que desce das nuvens.
O moço é o tapir que rompe a mata, e voa como a seta. O velho é o Jabuti prudente que não se apressa. (ALENCAR, 1984, p. 31 e 53)
O processo de formação dos símiles contribui muito para o lirismo da narrativa e, sobretudo, para conferir um tom indígena à voz narrativa, que se deixa mimetizar pela fala de alguns personagens, como Ubirajara, Araci e principalmente Jandira, personagem marcada pela emoção e tristeza de ter sido rejeitada por seu amado. Sem limites, se entrega a sentimentos que misturam amor, dor e ódio.
__ A tristeza é amarga; quando entra no coração do guerreiro o enche de fel. Mas Jandira fará como sua irmã, a abelha, ela fabricará, em
seus lábios, os favos mais doces para seu guerreiro; suas palavras serão os fios de mel que ela derramará na alma do esposo. [...]
__ Desde que Ubirajara abandonou Jandira, ela começou a morrer, como a baunilha que o vento arranca da árvore. Acaba de matá-la; para que sua alma te acompanhe de dia na sombra das florestas e te fale de noite na voz dos sonhos. [...]
__ Tua palavra dói como o espinho da Juçara, que tem o coco mais doce que o mel.
As flechas do teu arco não matam mais do que os sorrisos que o amor do guerreiro derrama em teu rosto, estrela do dia. (ALENCAR, 1984, p. 36, 63 e 65)
No cenário natural "pintado" por Alencar, em suas obras indianistas, a hidrografia ganha lugar de destaque. Seus três romances indianistas são iniciados com a descrição de uma paisagem aquática, situando o leitor no local em que transcorre a narrativa.
Os parágrafos introdutórios de O Guarani descrevem de forma lírica o "Paquequer", desde sua nascente até a foz no Rio Paraíba.
De um dos cabeços da Serra dos Órgãos desliza um fio de água que se dirige para o norte, e engrossado com os mananciais que recebe no seu curso de dez léguas, torna-se rio caudal.
É o Paquequer: saltando de cascata em cascata, enroscando-se como uma serpente, vai depois se espreguiçar na várzea e embeber no Paraíba, que rola majestosamente em seu vasto leito. (ALENCAR, 2000, p. 15)
Em Iracema, Alencar inicia cantando as belezas dos mares e praias de sua terra natal: o Ceará.
Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a Jandaia nas frontes da carnaúba;
Verdes mares, que brilhais como líquida esmeralda aos raios do sol nascente, perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiros; Serenai, verdes mares, e alisai docemente a vaga impetuosa, para que o barco aventureiro manso resvale à flor das águas. (ALENCAR, 2000, p. 15)
A narrativa de Ubirajara transcorre às margens do rio Tocantins. Em nota, Alencar esclarece que quando mencionar “grande rio”, estará se referindo ao rio
Tocantins, onde tudo começa: "Pela margem do grande rio caminha Jaguarê, o jovem caçador." (ALENCAR, 1984, p. 13)
Especialmente nesse romance, a hidrografia ganha conotações muito interessantes. O rio é metaforicamente relacionado ao índio, como mais um elemento natural que o engrandece, dando a idéia de tamanho e força, como o que, na época das enchentes, se estende alagando os campos, formando os lagos. "__ Vê o mar de meus guerreiros que enche a terra, como as águas do grande rio quando alaga a várzea. Eles esperam o aceno de Ubirajara para inundaram teus campos" (ALENCAR, 1984, p. 80).
Na batalha entre Tocantins e Tapuias, a imagem das duas tribos se aproximando para a guerra, com suas multidões de guerreiros, também sugere a metafóra do rio para representar o homem.
As duas nações se estendem como dois lagos formados pelas grandes chuvas, que se transformam em rios e atravessam o vale.
De um e outro campo levantando-se a procema guerreira; e os dois povos arremetendo travam a batalha. (ALENCAR, 1984, p. 83)
O mesmo acontece quando Ubirajara é recebido como hóspede pelos Tocantins e em ritual festivo é convidado a contar um pouco de sua história. Ele começa relembrando os tempos em que ainda não era caçador e que por duas vezes seguiu o curso do grande rio - o Tocantins - de sua nascente até desaguar no mar. Nessa narrativa ele se refere ao rio e ao mar como se fossem duas tribos inimigas em combate.
Metaforicamente, o herói descreve o fenômeno da pororoca (do Tupi Poro'rog, poroc poroc), que significa destruidor, grande estrondo. O encontro da água do mar com a água do rio tem uma força muito grande, capaz de derrubar árvores e modificar seu leito; o barulho ensurdecedor ouve-se com até duas horas de antecedência. A força do combate guerreiro é comparada ao fenômeno da pororoca:
Ele viu o grande rio combater com o mar, no tempo da pororoca. Os dois chefes tocam a inúbia antes da peleja, para chamar seus guerreiros.
Vem de um lado as águas do mar, são os guerreiros azuis, com os penachos de araruna; vêm do outro as águas do rio; são os guerreiros vermelhos com penachos de nambu.
Começa a batalha. Os guerreiros se enrolam, como a corrente da cachoeira, batendo no rochedo; a terra estremece com o trovão das águas.
Mas o grande rio agarra o mar pela cintura. Arranca do chão o inimigo; carrega-o nos ombros; solta o grito de triunfo. (ALENCAR, 1984, p. 54)
A imagem da água marca também um local mítico de alegria, de beleza, nos textos indianistas de Alencar. Por exemplo, o rio em que se banha alegremente Cecília, a virgem branca, protegida por seu fiel protetor, Peri, em O Guarani. Também Iracema, a virgem dos lábios de mel, que se banhava na lagoa da Porangaba (da beleza), ficando ainda mais bela para seu guerreiro branco, Martin. Araci, a virgem da luz, teve no rio momentos de prazer e alegria, junto do seu amado guerreiro Araguaia, mesmo não podendo demonstrar preferência por nenhum de seus pretendentes, antes do combate nupcial.
Então desciam ao rio. Era a hora do banho. Araci cortava as ondas mais lindas que a garça cor-de-rosa; e os guerreiros a seguiam de perto, como um bando de galeirões. [...]
Desde então, era no banho que Araci recebia o braço de Jurandir, sem que os outros guerreiros suspeitassem da preferência dada ao estrangeiro. [...]
Encontraram-se no fundo do rio, enquanto durava a respiração. Depois desprendiam-se do braço e surgiram longe um do outro. (ALENCAR, 1984, p. 62)
Jandira, sem saber que seria rejeitada, acreditava que, logo depois da nomeação como chefe araguaia, Ubirajara a tomaria como esposa. Assim,que acordou foi banhar- se no rio, como ritual de purificação, preparando-se para seu futuro esposo.
Ela o espera. Logo que o sol alumie a terra, Ubirajara, o grande chefe, há de vir buscá-la. [...]
Ligeira e contente, corre a banhar-se no rio antes que chegue Ubirajara, para quem purifica seu corpo e unge-se com o óleo fragrante do sassafrás. (ALENCAR, 1984, p. 62)
No final da narrativa de Ubirajara ocorre a união das duas tribos - Araguaia e Tocantins - constituindo uma nação soberana, a grande tribo dos Ubirajaras, chefiada pelo herói do romance.
Esse final é bem sugestivo, pois analisando geograficamente os rios Araguaia e Tocantins, nota-se que ambos nascem no estado de Goiás (figura 01). O primeiro - mais precisamente - no parque das Emas, Sudoeste de Goiás, quase divisa com o Mato Grosso do Sul. E o segundo na Serra da Mesa, no Norte Goiano.
O Araguaia segue o curso, dividindo os estados de Goiás e Mato Grosso, depois Tocantins, Mato Grosso e Pará, até se unir com outro rio extenso - o Tocantins. Este nasce na Serra da Mesa, atravessa todo o estado do Tocantins, continuando depois como linha divisória entre os estados do Maranhão e Tocantins. Em Marabá (PA), os rios Araguaia e Tocantins se unem, formando o grande Tocantins, que assim segue até desaguar no mar, em Belém (PA).
José de Alencar demonstra ter um certo conhecimento da hidrografia da região onde situa a narrativa. Araci e Ubirajara se conheceram "nos campos do Taari", que, segundo o autor, em nota, é "um rio que despeja no Tocantins, pouco depois da confluência com o Araguaia", indicando o lugar da cena. Esse rio não foi localizado, certamente faz parte da ficção alencariana. Pouco depois da confluência dos dois rios está situada a pequena cidade de Marabá, não foi encontrada nenhuma referência ao rio Taari. "A virgem reconheceu o cocar da nação que na última lua chegava aos campos do taari e do qual os pajés tinham dado notícia" (ALENCAR, 1984, p. 16).
Ubirajara, representando a tribo Araguaia, e Araci, a tribo Tocantins, se conhecem e se apaixonam em um local escolhido pelo romancista para marcar essa união (o rio Taari). Os dois rios se unem para formar o grande rio Tocantins; as duas tribos se unem para formar a "grande nação dos Ubirajaras", que "dominou o deserto"
até a vinda dos brancos, caramurus. Essas uniões remetem à idéia de fortalecimento, engrandecimento da natureza e do selvagem.
A narrativa de Ubirajara caracteriza o selvagem como herói romântico, com princípios de moralidade, honra, força e coragem. Alencar, como um bom romântico, não poderia deixar de incrementar seu romance com um toque de exagero na caracterização dos personagens, afinal, trata-se de uma lenda, como o próprio afirma na advertência. Essa caracterização funciona como reforço aos ideais nacionalistas do autor, que persistentemente e pela última vez - pois faleceu três anos após a publicação desse romance - tenta mostrar a importância do elemento indígena na formação da cultura e literatura brasileiras.