As entrevistas mostraram que textos, principalmente do gênero poema, estão presentes em sala de aula. Isso poderia nos levar a pensar que a ação do professor esteja incidindo nos conteúdos indicados para as práticas do uso da linguagem, como: historicidade da linguagem e aspectos do contexto da produção dos enunciados, ou naqueles indicados para as práticas de reflexão sobre a língua, por exemplo: aspectos ligados à organização dos enunciados e ao modo de organização dos discursos. Todavia, quando comparamos o depoimento das professoras ao que presenciamos em sala, verificamos que as aulas de LP estão centradas no trabalho com a gramática como um fim em si mesma. São diversos os momentos em que as professoras utilizam o texto para explorar itens gramaticais, como no exemplo destacado a seguir, justificando, muitas vezes, que tal trabalho contribui para o aluno aprender a escrever e a falar corretamente. Quando o ensino da gramática é impossibilitado por algum motivo, como acontece na EF2 em que um outro material está em uso e onde há de certa forma a influência direta do professor elaborador do material didático sobre a professora, percebemos certa aflição da PEF2 por achar que se não ensinar, por exemplo, encontro vocálico, o aluno não vai aprender a grafar as palavras corretamente.
Vaivém
Mestre Zuza era um carpinteiro que cuidava muito bem de suas ferramentas e tinha até mania de batizá-los com nomes especiais. O martelo chamava-se toque-toque, o formão, rompe-ferro, o serrote, vaivém.
Muita gente pedia as ferramentas do mestre Zuza emprestadas. Mas como a maioria demorava a entregar, ou acabava ficando com elas, o velho resolveu não emprestar mais nada.
Certo dia, um menininho foi à oficina do Zuza e pediu: __ Papai, pede emprestado o vaivém.
Mestre Zuza então respondeu:
__ Menino, volta e diz a teu pai que, se vaivém fosse e viesse vaivém ia, mas como vaivém vai e não vem, vaivém não vai.
(LEITE & BASSI, 2005, p. 44)
1) Leia o texto
2) Agora coloque as palavras destacadas nos lugares certos e faça como no modelo.
Encontro vocálicos − carpinteiro Encontro consonantal − mestre Dígrafos − ferramentas
O texto acima foi retirado do LD e usado para a simples identificação de questões gramaticais. Sabemos entretanto – a partir de estudos, como os de Geraldi (1999) e Neves (2004) – que isso não ajuda no desenvolvimento da competência comunicativa dos alunos, porquanto os exercícios que podem contribuir para a apropriação de novas formas de linguagem são aqueles que levam o aluno a usar a – e refletir sobre os diferentes usos que fazemos da – língua em diferentes situações de comunicação. Ademais, a presença dos textos em sala indica apenas que as discussões sobre a necessidade de a escola proporcionar o contato dos alunos com textos já foram de certa forma absorvidas, faltando ainda mudar o modo de tratá-los.
As questões de prova passadas aos alunos também revelam que o objeto priorizado é a gramática pela gramática, porque a prova era constituída predominantemente de questões de classificação e de identificação de itens gramaticais. Isso e outras situações vivenciadas em sala de aula mostram que, apesar das muitas discussões sobre a importância de se focalizar os gêneros
discursivos, de um modo geral, o ensino continua sendo dirigido pela concepção prescritiva do uso da língua.
Verificamos ainda que a exploração de alguns aspectos gramaticais, como o emprego dos pronomes oblíquos, é justificada de forma inadequada, pois, ao dizer que eles contribuem para os alunos aprenderem utilizá-lo corretamente e não falarem errado, a professora tem uma atitude preconceituosa – porquanto a questão não está no certo ou no errado, mas em ser adequado ou não –, além de possuir uma visão equivocada daquilo que pode contribuir para o desenvolvimento do aluno, uma vez que atividades de substituição de nomes por pronomes nas frases não favorecem o uso adequado da linguagem conforme a situação, mas sim a reflexão sobre as diferentes práticas materializadas por meio dos gêneros. O alvo da reflexão pode ser então os aspectos concernentes à situação de produção e circulação, ao tema, às marcas lingüísticas etc que caracterizam cada gênero.
Dessa forma, a ênfase nas questões gramaticais, como nos exercícios de reconhecimento de encontros vocálicos e consonantais, de dígrafos, de classificação de palavras quanto à sílaba tônica etc dão a conhecer não só o que é focalizado nas aulas, mas também a concepção de língua assumida pelas professoras: a de língua como sistema. A importância dada a esse ensino é evidente em seus discursos, como podemos verificar nos trechos abaixo:
E: E em relação à gramática o que você acha?
P: A gramática... neste livro aqui... ele não trabalha a gramática E: Não tem itens gramaticais?
P: Algumas coisas assim... alguns enfoques é que por exemplo na pontuação né? ele
fala... pontuação mas a gramática mesmo que a gente dá o assunto em sala de aula ele não trabalha... é mais textos e produção de texto
(Entrevista com PEF1, 20/10/06) E: Quais os pontos negativos e positivos no modo de utilização desse livro?
P: /.../ ele não tem uma seqüência como dizer na área da parte da gramática...apesar que
hoje a gente vê muita essas informações que a gente não deve usar a gramática... mas eu acho que a gramática....ela faz parte...sabe por quê? Se o aluno não souber um pouco de
gramática...acho que ele vai ter mais dificuldade de usar um verbo usar pronomes o artigo...eu acho que isso é fundamental...ajuda muito até a questão do texto /.../
(Entrevista com PEM1, 31/10/06)
Nesses trechos, observamos também que as professoras não se apropriaram da palavra
autoritária dos documentos oficiais e dos LD, uma vez que demonstram não assimilar o discurso
sobre a necessidade de se partir do uso para reflexão e desta para o uso. Ao proferir “ /.../ ele
[LD] não tem uma seqüência... como dizer na área da parte da gramática...apesar que hoje a gente vê muita essas informações que a gente não deve usar a gramática... mas eu acho que a gramática....ela faz parte /.../”, a PEM1 deixa entrever que o seu enunciado está sendo construído em resposta àquele que diz não ser o ensino da gramática, nos moldes tradicionais, favorável ao desenvolvimento linguageiro do aluno. Percebemos assim que as professoras tomam o discurso de outrem como uma palavra interiormente persuasiva, pois identificamos uma atitude responsiva a esse discurso.
Em resumo, a pesquisa mostrou que o objeto de ensino nas aulas de LP é a gramática, principalmente no respeitante às questões ortográficas. Ela é explorada quase sempre a partir do texto, que é utilizado como pretexto para a identificação de itens gramaticais e para o treino ortográfico.