4. PRESENTASJON OG DRØFTING AV DATA
4.4 P EDAGOGENES ERFARING MED Å DRØFTE BEKYMRING FOR OMSORGSSVIKT
O primeiro objetivo proposto focou-se na exploração de possíveis relações entre as várias dimensões da identidade LGB – com ênfase particular na homofobia internalizada – e o grupo etário, a autoidentificação e o número de parceiros.
No que concerne à existência de associações entre a identidade LGB e o grupo etário, os resultados obtidos apresentam uma correlação negativa – embora considerada baixa – entre a dimensão de incerteza identitária e o grupo etário – valores corroborados pelas análises diferenciais realizadas), parecendo indicar que, ao longo do percurso desenvolvimental, este tem, previsivelmente, oportunidade de maturar a sua identidade sexual. Nenhuma das correlações com as outras dimensões se revelou significativa.
Um foco na exploração de associações entre a identidade LGB e a autoidentificação emerge a existência de relações entre todas as dimensões identitárias e esta última variável. Os resultados obtidos apontam para uma tendência, a par da autoidentificação mais central na escala da heterossexualidade-homossexualidade, para valores mais elevados (corroborados pelas análises diferenciais) de insatisfação identitária, incerteza identitária, motivação para a dissimulação identitária, dificuldades no processo identitário e sensibilidade ao estigma. Uma possível explicação para estes resultados emerge na ótica de Jeffries (2011), que refere a assunção da bissexualidade por determinados indivíduos homossexuais, ao longo do processo de desenvolvimento da sua identidade sexual, optando por não adotar tão aberta e inequivocamente uma orientação exclusivamente homossexual. Esta autoidentificação parece conduzir a um maior conflito intrapsíquico entre experiências de afeto ou desejo por indivíduos do mesmo sexo e a sensação de necessidade de ser heterossexual (uma definição de homofobia internalizada providenciada por Herek, 2004 in Frost & Meyer, 2009), maior confusão acerca da identidade sexual do indivíduo, e simultaneamente, à perceção de que o coming out como apenas homossexual pode constituir a exposição ao julgamento societal e à discriminação, apresentando-se enquanto um processo longo ou doloroso.
Inversamente, infere-se que a assunção de uma identidade exclusivamente homossexual contribui para uma resolução mais saudável da identidade sexual. A emergência de uma correlação positiva entre a autoidentificação e a centralidade identitária – que consiste numa tendência por parte do indivíduo de percecionar a orientação sexual
identitário mais positivo.
A exploração de correlações entre as várias dimensões identitárias LGB e o número de parceiros albergava a hipótese de uma correlação entre esta última variável e a insatisfação identitária. Esta hipótese foi colocada em virtude do evitamento de relações íntimas tanto por indivíduos que se percecionassem como não passíveis de ser amados como por indivíduos que conceptualizassem os outros sujeitos LGB como incapazes de providenciar uma base segura para o desenvolvimento da intimidade, assente nos mitos e crenças societais que rodeiam o indivíduo não-heterossexual (em particular os homossexuais masculinos – McVinney, 1998, in Dew & Chaney, 2005), incluindo o mito da sobreposição entre a homossexualidade e a promiscuidade, com os quais o indivíduo homossexual pode matizar a sua compreensão tanto do self como do outro. No entanto, esta não se verificou de acordo com os resultados, bem como quaisquer correlações entre as outras dimensões da identidade e o número de parceiros dos sujeitos.
O segundo objetivo prendeu-se com a busca de associações entre o medo da intimidade e a homofobia internalizada em particular. Na amostra em análise, a dimensão de insatisfação identitária – que lhe é equivalente – apresenta correlações, ainda que muito baixas, tanto com o medo de perder o self como com o medo de perder o outro. Uma vez que a homofobia internalizada, enquanto stressor proximal, consiste na interiorização do estigma social na identidade do indivíduo (Meyer, 2003) e a identidade constitui a identificação tanto do self enquanto indivíduo LGB como com valores, crenças, traços ou comportamentos e vinculações associados ao coletivo LGB (Mohr & Fassinger, 2006), o indivíduo pode tender – de acordo com Dew e Chaney (2005) – a adquirir as perceções estigmatizantes ao longo do processo de socialização sexual, contribuindo estas para a constituição tanto de um modelo do self como menos capaz de ser amado – devido ao seu estatuto minoritário e socialmente ostracizado – como de um modelo do outro enquanto menos capaz de providenciar afeto e confiança – advindo do discurso societal relativo à comunidade LGB que se pontua por crenças de infelicidade, solidão e indisponibilidade emocional (McVinney, 1998 in Dew & Chaney, 2005).
Uma vez que a homofobia internalizada se integra no modelo multidimensional da identidade de Mohr e Fassinger (2006), correlacionando-se com as outras dimensões, levantou-se a hipótese de estas mesmas dimensões apresentarem associações significativas
tanto com o medo de perder o self como com o medo de perder o outro. Este constituiu, como tal, o terceiro objetivo do presente estudo.
Uma análise aos resultados evidenciou que o medo de perder o self se correlaciona baixa mas significativamente com a incerteza identitária. Este cenário pode, propõe-se, advir de uma ausência de consistência da identidade sexual do indivíduo que coloca o self em risco, contribuindo – ainda que marginalmente – para a inibição do self disclosure.
Tendo a dimensão de motivação para a dissimulação identitária apresentado uma correlação (baixa) com o medo de perder o self, coloca-se a hipótese de esta associação – que consiste, em última análise, numa reticência em fazer self disclosure acerca da sua orientação ou relações dirigidas a elementos do mesmo sexo, acompanhada de uma perceção do outro como não confiável – se dever a um experienciar ou antecipar de tratamento preconceituoso e discriminatório, tanto real como antecipado, proveniente de familiares, pares e da comunidade (Bauermeister et al, 2008; Herek e Capitano, 1999 cit. in Bauermeister et al, 2010), processo intrínseco ao desenvolvimento da identidade homossexual (Clarke et al., 2010 cit. in Oliveira & Nogueira, 2012). Assim, ao longo do seu percurso desenvolvimental – ao longo do qual, mesmo antes da adultez (Griffin, 1992, in Sylva, Rieger, Linsenmeier & Bailey, 2010), o indivíduo se pode aperceber que a admissão da sua orientação leva ou pode levar à discriminação, abusos verbais ou físicos (Frost & Meyer, 2009) e que estas consequências podem ser evitadas ao dissimular comportamentos que conduzam terceiros a categorizá-lo como homossexual (Gaudio, 1994, cit. in Sylva et al, 2010) – o sujeito pode construir e consolidar um modelo interno dinâmico que inclua uma perceção do outro como indigno de confiança, com quem o self
disclosure é um risco, transparecendo esta imagem para a relação de vinculação com o par
romântico. Estes mesmos motivos, focados em particular nos microssistemas do indivíduo – nomeadamente na família e outros elementos significativos – podem contribuir para a perceção de um processo de desenvolvimento identitário lento e/ou doloroso, fundamentando os resultados que indiciam uma associação entre o medo de perder o self e dificuldades no processo identitário.
No mesmo sentido, a constatação de uma associação positiva entre a sensibilidade ao estigma e um modelo negativo do outro pode justificar-se por se encontrarem, no cerne deste estigma prevalecente em torno da identidade de orientação sexual LGB, noções insubstanciadas de que estes indivíduos são incapazes de intimidade e de manter relações
Chaney, 2005). O indivíduo pode, consequentemente, compreender que um investimento em relações, incluindo de teor romântico, com outros elementos da comunidade LGB é um risco.
No que concerne às associações encontradas entre o medo de perder o outro e as várias dimensões da identidade LGB, destaca-se destas a correlação moderada entre um modelo negativo do self e a sensibilidade ao estigma: coloca-se a hipótese de este valor se dever a uma imagem negativa do self que aumenta a propensão de perceção do indivíduo como mais suscetível a juízos de valor adstritos à sua orientação.
Em resumo, o desenvolvimento de modelos negativos do self e do outro entrelaça-se, hipotetiza-se, com um processo de socialização sexual que inclua uma experiência híbrida entre a perceção do contexto heteronormativo como estigmatizante e a interiorização mais ou menos consciente deste mesmo estigma. O fenómeno que emerge deste cenário consiste, portanto, num processo de desenvolvimento da identidade homossexual mais angustiante.
O quarto objetivo doa presente investigação constituiu a procura de associações entre os componentes do medo da intimidade e o grupo etário, a autoidentificação ou o número de parceiros.
Quanto ao primeiro critério, a amostra analisada revela que, no que concerne ao medo de perder o self e medo de perder o outro, estes valores não se demonstraram significativamente diferentes entre grupos etários. Este facto poderá fundamentar-se na unicidade do percurso desenvolvimental dos sujeitos: o desenvolvimento, ao longo da vida, de um modelo interno dinâmico (que alberga uma imagem do self bem como do outro), pressupõe uma revisão e reajustamento continuado deste mesmo modelo. Na certeza de que este processo ocorre, não se pressupôs que a pertença ao grupo etário mais velho tendesse para um modelo de vinculação mais baseado na confiança e self disclosure – e consequentemente mais seguro – que a pertença ao grupo etário mais novo, tendo em conta o estádio de desenvolvimento (entre os 18 e os 35 anos de idade) que prevê a construção da intimidade por via de relações de cariz mais experimental.
Não se verificou uma associação entre a autoidentificação e nenhuma das componentes do medo da intimidade. No entanto, foi levantada a hipótese de que um sentido de self menos consistente – correspondendo ao medo de perder o outro – levaria ao
evitamento do envolvimento numa relação amorosa devido a esta colocar em risco a integridade do self; no entanto, esta hipótese não se confirmou na amostra em análise.
Finalmente, a busca de relação entre o medo da intimidade e o número de parceiros potenciou uma hipotética associação entre estas variáveis, assente numa procura de relações esporádicas pelo seu carácter superficial por parte de indivíduos com um modelo negativo do self, ou num evitamento do investimento associado a um modelo negativo do outro, como incapaz de providenciar confiança e desempenhar um papel securizante. Esta hipótese baseou-se nos mitos de promiscuidade e incapacidade para a manutenção de relações de intimidade por parte da população LGB já referidos. Os resultados contrariaram, no entanto, esta expectativa.